O mais persistente movimento social desde a redemocratização
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O mais persistente movimento social desde a redemocratização

Da redação

02 Agosto 2016 | 10h38

Isabelle Anchieta*

Já são três anos desde 2013. De lá pra cá, os brasileiros saíram às ruas mais de 18 vezes em uma centena de cidades. Um recorde de persistência dos cidadãos que, nesse fim de semana, mais uma vez, colocaram a camisa com as cores da bandeira e foram combater o que compreendem ser o maior problema do País: a corrupção. Na pauta atual, estão também: a saída definitiva da presidenta Dilma, a aprovação das 10 medidas de combate à corrupção, a prisão de todos os políticos corruptos (independentemente de seu partido) e a renovação do quadro político.
Não é pouca coisa. A começar pela derrubada de um (a) presidente (a). E estão conseguindo. Isso mesmo. Engana-se quem pensa que Dilma será deposta pelo Congresso e pelo Senado. Ela foi deposta, antes, pela população e pelas ruas. Um ‘recall informal’, por assim dizer (que deveria, sim, ser institucionalizado, para evitar o longo desgaste do País).
Já as ’10 medidas de Combate à Corrupção’ – que estavam paradas no Congresso – começaram a andar lentamente. E, por mais que os políticos façam corpo mole, esperando que as ruas esfriem, isso não parece mais provável no Brasil. Eles pensaram o mesmo em 2013 realizando uma ‘minirreforma política’. Concedeu-se pouco, esperando que a população se acalmasse com a chegada da Copa. Mas ao contrário de toda lógica da teoria do ‘pão e circo’, os brasileiros surpreenderam até mesmo a imprensa internacional. A ideia de que ‘não vai ter Copa’ tomou conta das redes sociais, das manifestações, instalando um grande constrangimento. Em vez de jogos, as pessoas queriam saber quantas escolas e hospitais deixaram de ser construídos para que se priorizasse os estádios. O mesmo caminho parece seguir os Jogos Olímpicos, com potencial para se tornar mais um símbolo vergonhoso da corrupção no País.
O pedido de prisão de todos os políticos, independentemente do partido, é também revelador. Apesar de dirigido ao ex-presidente Lula, o clamor das ruas parece não eleger bandeiras partidárias. O que se deseja é uma moralização geral da política. É uma reforma, não só do sistema, mas do quadro político. Quer-se ‘fichas-limpas’ no poder. Uma decisão em parte na mão dos cidadãos (que votam e se candidatam) e, em parte, na mão da Justiça (impedindo que continuem concorrendo).
Além do apartidarismo, algo se soma a esse inédito movimento de mudança de mentalidade no Brasil. A organicidade (ou espontaneidade) de sua organização. São protestos sem assinatura, por assim dizer. Momento em que as pessoas passam a ditar as regras e não os organizadores dos movimentos sociais, obrigando-os, inclusive, a alinharem-se a tendência geral. Como a rejeição de políticos nos protestos, a despeito das preferências partidária dos organizadores. Uma novidade e mesmo uma inversão da lógica dos movimentos sociais.
O contrário não é verdadeiro. Ou seja, os movimentos a favor do governo organizados pelo próprio PT, CUT e MST estão ancorados em seus líderes partidários e sindicais. Seguem uma determinada cartilha. Sua lógica é outra. Um movimento à moda antiga, por assim dizer, já que em grande medida sua força (ou não) depende de uma mobilização mais direta, mais dirigida.
Portanto, a desqualificação dos movimentos sociais anticorrupção via desmonte de seus organizadores me parece um caminho falso. O que está em questão é, exatamente, a crise de representação. Os manifestantes não se querem representados nem mesmo pelos organizadores dos protestos. Desejam preservar suas demandas individuais, mas simultaneamente revelar sua força por meio desse encontro nas ruas.
Nem muito menos me parece construtivo atacar os participantes. Nessa direção costuma-se afirmar que as pessoas que estão nas ruas querem a volta da Ditadura Militar. Defendendo, assim, um golpe de Estado. Mas uma pesquisa do Datafolha que visava traçar o perfil dos manifestantes desmente a imagem. Revelou-se que 85% acreditam que ‘a democracia é sempre melhor’, demonstrando que os pedidos de intervenção militar eram minoritários e não poderiam caracterizar o movimento. A motivação principal, portanto, não era essa, mas o combate À corrupção (47%); seguido pelo impeachment da presidenta Dilma (27%); a crítica ao PT (20%) e contra os políticos em geral (14%).
Chamados também de vândalos em 2013 e, a partir de 2014/2015 – com a crescente polarização durante a Copa e eleições presidenciais – de elite branca; golpistas; classe média; analfabetos políticos; manipulados pela grande mídia e conservadores, os manifestantes também foram tidos como menos legítimos do que aqueles mobilizados por centrais sindicais, partidos e movimentos organizados. Uma estratégia, diga-se de passagem, que pode ser resumida na máxima ‘dividir para dominar’. Em uma evidente intenção de separar ‘grosseiramente a sociedade em casa grande e senzala, pobres e ricos, amigos e inimigos – simulacro de luta de classes que, no entanto, mal arranha a desigualdade’, na avaliação do ensaísta Luiz Sérgio Henriques.
Diante dessa retórica que ‘vira as costas para a complexidade brasileira’ por meio de lugares-comuns e estereótipos irritantes, sempre me lembro da frase do historiador francês Michel de Certeau, em seu livro ‘A invenção do Cotidiano’, quando diz que ‘sempre é bom recordar que não se deve tomar os outros por tolos’. Ao que tudo indica, nem a mídia, nem os políticos, nem tal retórica estão pautando os brasileiros. Não há uma fidelização nem mesmo aos organizadores dos protestos. É só lembrar que o ‘Movimento do Passe Livre’, em 2013, foi suplantado pelo ‘Anonymous’ e esse pelo ‘Vem pra Rua’, que passa a dividir em 2014 espaço com o ‘MBL’ e o ‘Revoltados On-line’. Revelando, inclusive, as diferentes tendências dentro desse movimento que possui, em comum, o combate à corrupção política no Brasil.
Espero que possamos, em vez de atacar, catalisar esse interesse nacional para uma nova forma de organização política, especialmente capaz de absorver a participação popular. Eis o maior temor dos políticos corrompidos! Que a voz das ruas dite os rumos da mudança. Pois somente ela será capaz de moralizar a administração pública e definir as regras de trabalho para os nossos funcionários, chamados de representantes.
Apenas no momento em que a maioria dos brasileiros encontrar os meios de controle e decisão efetiva é que poderemos falar em democracia. E não haveria momento mais propício para isso com os recursos de comunicação que temos a mão. Ponto em que, enfim, conseguimos simultaneamente incluir um grande número de pessoas no debate e interagir. Poderíamos, por exemplo, lançar mão da assinatura digital, biometria e uma série de recursos para consultar a população sobre temas centrais.
Um ambiente com mais Plebiscitos, Leis de Iniciativa Popular e mesmo uma nova Constituinte que previsse o Recall (ou voto destituinte) no lugar do impeachment. Bom enfatizar que se o País contasse com tal mecanismo, a ideia de ‘golpe’ seria esvaziada. Já que a mesma maioria que colocou um presidente (a) no poder poderia ter o direito de o destituir. Caso contrário, ficamos reféns de promessas não cumpridas ou pactos de confiança desfeitos unilateralmente. O Recall seria um mecanismo mais democrático e menos contaminado politicamente do que o impeachment, conduzido por representantes com pouca (ou nenhuma) autoridade moral.
Ao fim, o que precisamos não é propriamente de uma ‘nova’ política ou de ‘novos’ líderes. Mas retomar os bons e velhos princípios democráticos, corrompidos pelo sistema de representação partidária construindo uma liderança coletiva por meio de uma democracia semidireta, ou mesmo direta. Nas sagazes palavras do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, precisamos ‘democratizar a democracia’. Para que, enfim, todo o poder emane do povo!

Templates_FacebookOpção* Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, jornalista e mestre em Comunicação Social. É também professora da PUC. Recebeu prêmio internacional pela ISA/UNESCO como Jovem Socióloga e distinção acadêmica pela USP. Facebook: Isabelle Anchieta (figura pública). Email: isabelleanchieta@gmail.com

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