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Pela ordem (ou desordem)?

Da redação

26 Agosto 2016 | 20h33

Isabelle Anchieta*

‘A burrice é infinita’, mas nossa paciência não. O País precisa amadurecer o debate político dentro e fora do Congresso. Faltam regras, respeito mútuo, ideias e sobram ataques pessoais. E o pior: há um quê teatral e grotesco no ar. Mais do que um debate genuíno, trata-se um jogo de cena ególatra – blindado pelo abuso da imunidade parlamentar. Se, de fato, terão a coragem de fazer um documentário do processo do impeachment no Senado, ele deve ser catalogado como um filme trash. Uma simulação de indignação mal encoberta movida por razões nada republicanas….Curiosamente, os mais corruptos são os que mais usam o microfone, os que mais pedem ‘pela ordem’ e, ironicamente, são os promotores da desordem. Encenam uma guerra de narrativas, querem confundir e aparecer na telinha. O Brasil? Os brasileiros? Meros espectadores dessa narrativa de mal gosto.
O pior é que muitos brasileiros gostam de novela, mesmo as de baixa qualidade, e podem ser seduzidos por alguns bandidos que se dizem defensores dos oprimidos e são (eles mesmos) os opressores. Ironias sem fim, sem vergonha e sem possibilidade de redenção.
Importante destacar que o prejuízo que tais representantes produzem ao País vai além dos cofres públicos. Reverberam no comportamento social. São um mal exemplo de como devemos debater e resolver nossos desentendimentos. Se no Congresso são tão violentos (ou simulam), imaginem só como isso se dá nas redes sociais – uma nova e moderna forma de imunidade dos cidadãos para atacarem, agredirem e igualmente proporem muito pouco ao País. Uma imagem espelhada do que tanto nos causa repulsa.
E se por um lado é positivo que os brasileiros tenham despertado para a política, é importante, no entanto, que balizemos a paixão com o respeito. Caso isso não aconteça, corremos um grande risco: criarmos posições inconciliáveis que conduzem à violência; partidarismos cegos; radicalizações e a guerras civis. O avesso da democracia, por mais que arroguem ser esse tipo de debate sua expressão. Não é. Não há escuta. Não há troca. As convicções estão rigidamente formadas de antemão. Mesmo porque elas não existem propriamente. Os congressistas defendem quem lhes ‘pagar mais’ ou lhe oferecerem os ‘melhores cargos’ (o que no fundo é o mesmo).
É urgente a necessidade de reencontrarmos um lugar ético e de diálogo. Mesmo que ele parta da sociedade e não do Congresso. O que também não será tarefa simples. O País vive a abertura de uma enorme caixa de Pandora, em grande medida incentivada pelos partidos políticos e pelos representantes pautados na máxima ‘dividir para dominar’. Incentiva-se uma falsa luta de classes, em que se misturam ao debate rancores e preconceitos de ambos os lados em um caldeirão malcheiroso. Estereótipos espelhados (quase infantis) que só reforçam as barreiras que tanto lutamos para derrubar.
Ser branco, negro, classe média, pobre, elite e etc e etc não qualifica (ou desqualifica) ninguém para um debate democrático, que não é privilégio dos desprivilegiados. Todas as pessoas (genuinamente) interessadas nos problemas coletivos são legítimas e, assim, qualificadas para o debate. Não adianta afirmar-se defensor da democracia e não aceitar o contraditório e o diverso. Ora, não seria a democracia uma maneira inteligente de negociar o conflito?
E uma maneira inteligente precisa ser pautada em regras mínimas de respeito. Um debate de ideais e não ataques pessoais. Pois se queremos o reconhecimento da nossa diferença, é preciso também ofertar reconhecimento aos outros. Respeitar o opositor. Do contrário criaremos guetos e guerras. Na contramão da vocação do País: a de fazer acomodações pacíficas entre registros opostos. O que faz do Brasil o Brasil é sua mestiçagem, que – infelizmente – parece não encontrar lugar no atual debate político.

Templates_FacebookOpção* Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, professora da PUC. Recebeu prêmio internacional pela ISA/UNESCO como Jovem Socióloga e distinção acadêmica pela USP. Facebook: Isabelle Anchieta (figura pública). Email: isabelleanchieta@gmail.com