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Quando as mulheres falam, eles escutam?

Da redação

06 Julho 2016 | 19h26

Isabelle Anchieta* 

Quero me referir nesta análise a duas mulheres. Separadas no tempo e no espaço, mas potencialmente unidas em seu poder de mobilizar o debate público. Luíza Brunet e Leonor de Aquitânia. O que as une aqui é, sobretudo, a intenção de problematizar qual caminho iremos adotar no debate da violência contra a mulher. Tomaremos os homens como inimigos ou os convocaremos como aliados na mudança de comportamento?
Há quem acredite que os homens devam estar fora dessa conversa e atuem como meros ouvintes. Partindo do pressuposto que todos são potenciais estupradores e agressores – jogando-os em uma vala comum. Um retrocesso para o debate (ao meu ver). Apenas reforçaríamos posições que queremos ultrapassar, alimentando revanchismos que nunca se acabam. Entraríamos em um círculo vicioso que ora reforça o ‘eterno feminino’ ora cria generalizações e qualificações pejorativas ‘machistas’, ‘sociedade patriarcal’ etc. Não será no grito e apontado o dedo que a mudança que esperamos irá acontecer. Então, por que não mudamos uma cultura negativa por meio da cultura propositiva?
Se queremos respeito e direitos, eles só se darão pelo entendimento recíproco. É assim que funciona o jogo social e as lutas por reconhecimento: por uma rede de reciprocidades. E, para que isso aconteça, será preciso envolver os homens na conversa. Não exclusivamente pelas leis e pela humilhação, mas por uma reeducação comportamental contínua dessa interação – passando das crianças até a vida adulta. Do contrário, o combate da cultura do estupro e da violência contra a mulher não será bem-sucedido. O que se deve é alterar uma forma de relacionamento, promover o respeito, e que simultaneamente a lei seja rigorosa com ‘os criminosos’ – sem que recaiamos em uma moralização geral dos costumes e um enrijecimento das relações sob o risco de perdermos a espontaneidade entre homens e mulheres.
Um bom exemplo de mudança cultural do comportamento entre os sexos – por meio da arte e da educação – foi dado pela rainha Leonor de Aquitânia, no século XII, na França. Em uma época em que os homens podiam bater em sua mulher “cortá-la, rachá-la de alto a baixo e aquecer os pés no seu sangue; desde que, voltando a cosê-la, ela sobreviva” (segundo texto de direito da época), podemos imaginar a revolução provocada por essa mulher ao promover a cultura do ‘amor cortês’.
Uma espécie de modelo de relações entre homens e mulheres, chamado de fino amor, ou amor refinado. Nele a mulher ocuparia o centro, sendo a ‘dama’, do latim ‘domina’. Baseado no modelo feudal da vassalagem, os homens deveriam ajoelhar-se aos seus pés, tratá-las de forma gentil e estar constantemente à mercê de sua vontade. Mais do que uma mera mudança de posições sociais, o amor cortês promovia um ‘jogo’ respeitoso e sobretudo lúdico entre os sexos. Uma espécie de xadrez. Imprevisível (como são as relações e os desejos humanos), mas com regras claras. Respeitando certos limites de ambos os lados.
Leonor foi esposa de Luís VII, reinando sobre a França e depois esposa de Henrique II, assumindo também o reinado da Inglaterra. Uma mulher que soube aproveitar-se de sua condição e poder. Nasceu em uma família que valorizava as artes e a poesia. Seu avô, Guilherme IX, entrou para a história como um dos primeiros trovadores e poetas vernaculares de seu tempo. Aprendeu com seus versos que “obediência deve professar/ a quem deseja amar/ e convém saber fazer/ feitos corteses/ e se guardar de falar coisas vis”.
Leonor revelou-se também uma mulher sagaz para a guerra. Incentivou o seu primeiro marido, Luís VII, a fazer cruzadas na conquista do chamado Condado de Edessa (Turquia), e foi a primeira mulher a acompanhar um homem na guerra, levando na expedição outras nobres e esposas dos cavalheiros. No entanto, as divergências sobre as estratégias de combate levaram ao desgaste do casal. Habilidosamente, Leonor conseguiu a anulação do seu casamento, alegando parentesco próximo ao marido. O que abriu caminho para que pudesse começar o seu segundo romance e casamento com um homem 11 anos mais novo que ela. Henrique II, que assume depois o reinado da Inglaterra. Nos versos de um poema atribuídos a ela demonstra sua capacidade de almejar grandes mudanças e viver o amor. Escreve: “Ter fantasias e voar/ Que coloque no céu escadas/ É triste não gozar, o que não podemos sonhar/ Não há mais amarga dor que ver a alma morrer prisioneira de um amor e não poder dizê-lo”.
Considerada hoje, por muitos historiadores, como a ‘primeira feminista’, Leonor demonstrou que se pode mudar mais uma cultura por meio da educação, da arte e da literatura do que por meio de ataques e acusações. Leonor promoveu como ninguém a propagação dessa cultura civilizada e afetiva entre os sexos, sendo mecenas de trovadores e poetas que cantavam e entoavam essa nova condição feminina. Sua posição social reverberava ainda mais tal comportamento. As cortes funcionavam naquele momento como uma espécie de modelo ou ‘scola’ (como designavam os carolíngios). A sociedade, como um todo, passa a imitar tal modo de tratar a mulher, como símbolo de civilidade.
E, ao contrário da leitura que algumas feministas fazem hoje, ao considerar que o cavalheirismo seria uma forma subliminar de machismo (na medida em que pressupõe ser a mulher uma pessoa fraca e incapaz), a história nos revela o contrário. Nas palavras do historiador Georges Duby, “os exercícios do amor cortês despojaram rapidamente de boa parte de sua grosseria o comportamento dos machos e a política matrimonial das linhagens. Escutando canções e romances, os homens que se queriam civilizados tiveram que reconhecer que a mulher não é apenas um corpo que alguém se apodera. (…) Eles aprenderam que importa também conquistar o seu coração, quer dizer, assegurar-se do seu bem querer.”
Esse chamado inteligente ao bem querer, ao bem tratar, são legados que não deveríamos esquecer. A forma mais enobrecida de sermos humanos. Demasiado.

isabellepequena * Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, professora da PUC. Recebeu prêmio internacional pela ISA/UNESCO como Jovem Socióloga e distinção acadêmica pela USP. Facebook: Isabelle Anchieta (figura pública). Email: isabelleanchieta@gmail.com

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