A vara que sacudiu o Ninho de Pássaro

A vara que sacudiu o Ninho de Pássaro

Tutty Vasques

24 Agosto 2008 | 09h16

ILUSTRAÇÃO POJUCAN

Lembrou um pouco, pelo inusitado, a cena do maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima sendo abordado por aquele homenzinho de boina e saia colorida no meio do percurso de rua de Atenas. Fabiana Murer estava atônita desse jeito. Nem sei como não passou pela cabeça de um desses locutores de TV a possibilidade de o mesmo fanático religioso irlandês estar por trás do desaparecimento da vara da atleta brasileira. Cá pra nós, Cornelius Horan se celebrizaria para sempre se fosse flagrado por uma câmera de segurança do estádio, deixando o Ninho de Pássaro em disparada com a vara de Murer embaixo do braço. Viajei!

É que me toquei, de repente, do seguinte: a gente só ainda lembra da figura do tal atleta do fim do mundo, assim como do próprio Vanderlei Cordeiro de Lima, pelo desempenho da dupla no momento de maior perplexidade dos Jogos de 2004. Fabiana Murer pode até bater muitos recordes no futuro, mas, até lá, será para sempre lembrada por sua atuação desesperada no episódio do sumiço de seu instrumento de trabalho. Na hora em que ela se pôs à frente da atleta que preparava-se para saltar, disposta a interromper o prosseguimento da prova, não houve chinês no estádio que não tenha feito link da imagem com o célebre episódio daquele compatriota desconhecido que barrou a passagem de um tanque no protesto de 1989 na Praça da Paz Celestial.

O resto do mundo pensou logo em bobagem. Uma mulher desesperada atrás de uma vara será sempre, na maior parte do planeta, uma mulher desesperada atrás de uma vara. A doce Fabiana atingiu o cúmulo do duplo sentido ao explicar que “tiraram a vara do meu tubo para enfiar naquela porcaria lá deles e…”. Comentaristas tentavam explicar aos leigos no assunto que, muito mais que o tamanho, a densidade da vara nessa modalidade de esporte é fundamental. “Quanto mais dura a vara, mais alto você chega”, diziam coisas do gênero na TV, enquanto a atleta brasileira superava a russa Yelena Isinbayeva em tempo de permanência nas imagens transmitidas a partir de Pequim.

Quando Élson Miranda, técnico de Fabiana, anunciou que a vara desaparecida havia sido encontrada “num depósito de varas de meninas desclassificadas”, a atleta já havia queimado seus três saltos, mas não precisava sair da pista metendo a vara em tudo à sua volta daquele jeito. “Nunca mais volto à China.” Mas, por conta do que lá lhe aconteceu, vai na Hebe, no Amaury Jr., no Faustão, na Luciana Gimenez, no Bons Amigos, no Jô, na Ilha de Caras… Por onde passar, vai contar como é essa coisa de perder a vara justo no momento para o qual você vem se preparando há 4 anos. Nas Olimpíadas de Londres, em 2012, quando entrar na pista, o burburinho dos ingleses no estádio reconhecerá o drama de Fabiana em Pequim. “É ela?!” Yes!

Como nada garante que, com a vara certa, a atleta fosse dar no couro para conseguir algo melhor que um honroso e inexpressivo quinto lugar, convém relativizar o drama de sua passagem por Pequim. Fabiana Murer carimbou nessas Olimpíadas seu passaporte para toda e qualquer retrospectiva esportiva que se fizer em 2008. Ganhou, já de volta ao Brasil, a companhia nesse pódio de Maurren Maggi, que levou o ouro saltando 7,04 metros, mas, como disse uma amiga, “sem vara, até eu, né?”

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