Crack: a notícia enguiçada da década

Crack: a notícia enguiçada da década

Tutty Vasques

01 Novembro 2009 | 09h21

ILUSTRAÇÃO POJUCAN

ILUSTRAÇÃO POJUCAN

Depois do boom de colunistas – aquela praga de entendidos em tudo que se alastrou pelas redações de todo o País -, o jornalismo brasileiro vive uma nova epidemia: a dos comentaristas dos canais de informação a cabo. Não há má notícia que não tenha à sua disposição um punhado de pós-doutorados no assunto de plantão nos telejornais da hora cheia! Guerra do tráfico, invasão do MST, tornados, gripe suína, poluição, infância nas ruas, taxa de juros, engarrafamentos, desastre de avião, Faixa de Gaza, Morro dos Macacos, armamento, atentados, aquecimento global e o escambau, há especialistas bem articulados pra tudo nesse mundo. 

Agora mesmo está de volta ao ar um batalhão de psicólogos, sociólogos, voluntários de organizações não governamentais, neurologistas, ex-drogados, estudiosos em dependência química – todo mundo, enfim, que tenha alguma coisa a dizer sobre a epidemia de crack em curso. Muitos vêm dizendo as mesmas coisas faz tempo, sempre que são chamados para comentar fatos e reportagens que se repetem a cada ocorrência trágica, igual a tantas que parecem prenunciar providências sanitárias e, no entanto, ficam só no diagnóstico.

O flagelo do crack, forte candidato a notícia enguiçada da década, entrou em cartaz novamente esta semana requentado por um novo terrível drama, dessa vez com baixas entre jovens da classe média carioca. No mais, tudo pareceu reprise de outros telejornais. A cracolândia é a mesma de sempre, as dificuldades de abandonar o vício também não mudam, a inoperância do Estado para lidar com o problema permanece estável e, consequentemente, as reportagens acabam se repetindo. Deve ser por isso que, de vez em quando, os telejornais trocam os comentaristas.

Texto publicado na coluna Ambulatório da Notícia do caderno Aliás deste domingo no Estadão.