Deu a louca no mundo

Deu a louca no mundo

Tutty Vasques

19 Outubro 2008 | 11h02

ILUSTRAÇÃO DE POJUCAN

Sei lá como isso funciona, mas, a exemplo da experiência de recriação do Big Bang na Suíça, deve haver nos subterrâneos do conhecimento científico um centro de controle comandando, provavelmente por falhas no sistema, esses momentos em que o ser humano desanda a fazer bobagens em série e, aparentemente, de forma orquestrada contra a própria imagem da raça. Ligaram de novo, salvo engano, o acelerador de reversão de expectativas – taí a Marta Suplicy que não me deixa mentir. Quem poderia esperar que ela terminasse o segundo turno defendendo-se de atitude homofóbica? É o samba do preconceituoso doido!

Uma frase, no caso uma pergunta, basta para inverter a mão do discurso de uma vida inteira. No Rio, Fernando Gabeira, que, diga-se de passagem, é casado com uma e tem filhos com outra, também pisou numa casca de banana verbal. Foi flagrado acusando a “visão suburbana” de uma vereadora e precisou do apoio verde-rosa da Alcione para neutralizar a imagem de candidato que não gosta de samba. Sobrou para Eduardo Paes, mauricinho que nem ele só, o inesperado pronunciamento sobre o dia em que fumou maconha de uma forma mais consistente que a experiência de Bill Clinton com o bagulho. A temperatura eleitoral explica muita coisa, mas nem toda subversão biográfica em voga no noticiário tem cunho político.

Taí o ator Pedro Cardoso que não me deixa mentir. Sua atual cruzada contra mulher pelada deixou o meio artístico boquiaberto com o caráter quase evangélico de seu manifesto de repúdio à pornografia na TV e no cinema. Se fosse candidato, o Agostinho da série A Grande Família perderia voto na Globo e na torcida do Corinthians. O que deu nele? Eis a pergunta que não quer calar: o que deu nos jogadores da Seleção para repetirem no Maracanã o vexame de 40 dias atrás no Engenhão. Quem poderia imaginar um novo ‘circuit breaker’ no time de Dunga?

Bovespa à parte, em matéria de reversão de expectativas quem coroou a já chamada “semana perdida” foi a polícia de São Paulo, com duas ações que não entram na cabeça nem dos bandidos. Mandar aquela menor de idade de Santo André de volta ao cativeiro de onde havia sido resgatada na véspera não tem justificativa, mas nenhuma estupidez cometida por esses dias se compara à guerra de polícias no Morumbi. Exageros à parte, desde o 11 de Setembro a televisão não mostrava ao vivo algo tão inacreditável aos olhos do telespectador. Ainda sobraram para os jornais de sexta-feira imagens que pareciam saídas dos quadros de Pedro Américo e Victor Meirelles. Impressionante!

Deu a louca no noticiário da semana! Parece mentira, mas tem banco quebrando na Suíça e gente em São Paulo fazendo acupuntura com Geraldo Alckmin. No SUS. Em Londres, Ringo Starr avisou aos fãs que jogará no lixo as cartinhas de admiradores.

Ainda no âmbito das celebridades internacionais, o divórcio de Madonna já era esperado, mas quem apostaria que o premiê britânico Gordon Brown, inexpressivo feito um bule, terminaria a semana com status de super-herói na luta contra o fim do mundo? Mais: quem adivinharia que o grande astro do último debate de campanha entre Barack Obama e John McCain seria Joe, o encanador. Tentando ver o lado positivo de tudo isso, como dizia o saudoso pai do Washington Olivetto, “o bom do mundo é que ele é sortido, meu filho”.

Texto publicado no caderno Aliás da edição deste domingo do ‘Estadão’