Memória de camundongo

Memória de camundongo

Tutty Vasques

26 Outubro 2008 | 11h02

ILUSTRAÇÃO POJUCAN

Deve ter a ver com a idade do leitor o despertar de uma certa curiosidade mórbida que o atrai inconscientemente para o obituário e as páginas de Ciência do noticiário, não necessariamente nessa ordem. Tem gente que, inclusive, pula de uma seção para outra à procura de vítimas de um novo mal que se anuncia na mesma edição. Esta semana, por exemplo, pesquisadores apontaram a alta de casos de alergia a alimentos, o que não chega a ser tão preocupante quanto a suspeita de que um desses inibidores da vontade de fumar pode levar à cegueira ou até matar por insuficiência cardíaca decorrente da medicação.

Os jornais de sexta-feira também alertavam a população para o efeito colateral do suicídio diagnosticado após a ingestão da recém-lançada ‘pílula antibarriga’, recolhida dia desses às pressas das farmácias de todo o planeta. Como se não bastasse o medo da recessão, as pessoas temem que o fim do mundo possa acontecer em decorrência de uma descoberta científica do gênero “viver é prejudicial à saúde”. Nenhuma notícia maluca nesta área está muito longe da verdade. Se eu disser que um estudo da John Hopkins University publicado na última edição da revista Science afirma que o “gás do pum” pode ajudar a tratar pressão alta, vocês acreditam? Parece que estão desenvolvendo “bombas de cheiro” para regular o fluxo sangüíneo no organismo humano.

A Ciência é uma caixinha de surpresas como outra qualquer. Tão inesperada quanto a revelação de que a polícia de São Paulo dispõe de tecnologia para ouvir conversas do vizinho com a ajuda de um copo, chega dos EUA uma notícia que pode mudar o destino que se anuncia trágico para a Humanidade: cientistas americanos e chineses conseguiram apagar seletivamente a memória de camundongos. Pense no dia em que a gente tiver este auto-controle sobre os arquivos da mente: sabe aquela grana que você perdeu na bolsa? Deleta. Esquece também aquele amor que te magoou, as bobagens que seu candidato falou e aquele jogo que seu time perdeu. Só vamos nos recordar do que a não for apagado da lembrança na farmácia da esquina. Já pensou?!

A droga vai demorar ainda um tempo para ser testada em seres humanos, mas o Brasil, até pela tradição de país sem memória, tem boas chances de liderar as pesquisas no setor. Deve ser mais fácil isolar lembranças em arquivos de baixa capacidade de armazenamento. A Europa, em especial, vai ter que esperar um bocado. Quem manda ter memória de elefante!

Clique aqui para ler a íntegra da coluna Ambulatório da Notícia, publicada na edição deste domingo do caderno Aliás do Estadão