Nem toda celebridade é loura

Nem toda celebridade é loura

Tutty Vasques

03 Agosto 2008 | 11h58

FOTOMONTAGEM POJUCAN

A mudança de estilo na campanha de John McCain ao comparar Barack Obama à cantora Britney Spears e à socialite Paris Hilton não teve a intenção de desqualificar o candidato democrata por sua vocação para celebridade internacional, como a princípio tentaram sustentar os marqueteiros responsáveis pela propaganda republicana no ar desde terça-feira. Se assim fosse, por razões óbvias, teriam escolhido Naomi Campbell para o papel, sem qualquer prejuízo – muito pelo contrário – à estratégia de se atacar a semelhança de Obama com os protagonistas do mundinho vazio e fútil da fama artificial. Britney e Paris foram eleitas por conta do brilho de seus cabelos sob holofotes, ou seja, McCain está chamando o adversário de loura.

Por incrível que pareça, há uma explicação lógica para isso: no mundo politicamente correto que a sociedade americana globalizou, só as louras continuam vulneráveis às armas letais do preconceito e do racismo. Pode-se chamá-las de burras, insossas, avoadas, inconseqüentes, bonequinhas, fozazudas, e fica por isso mesmo. Algumas até gostam. Mas negros, nerds, velhas gordas, gays esquisitaços, mulçumanos, cheerleaders, go go girls, homeless, rainhas de bateria, candidatos fichas-sujas, flanelinhas, serial-killer, gagos ou carecas, todos, enfim, menos as louras, estão devidamente protegidos por lei contra este tipo de nomenclatura. Experimenta só chamar, um veterano de guerra maluco, em Nova York de “veterano de guerra maluco” para ver só o que acontece. Se ele não te furar os olhos, te põe em cana.

McCain é muito mais que tudo isso. É herói de guerra. Não merecia, à esta altura da vida, com uma mulher rica pra caraca, herdeira da Budweiser – imagina! – ter que enfrentar um adversário negro, jovem, conciliador, bonito, carismático, anti-Bush, uma espécie de Jair Rodrigues de Harvard, enfim, o cara. Justiça seja feita, o candidato republicano tentou fazer as coisas por bem, pagando inclusive aquele mico de passear de mãos dadas com dalai-lama no resort turístico de Aspen, no Colorado. Nunca na história do Tibete um líder espiritual deu uma contribuição tão pífia a alguma causa importante. Foi aí que um tal de Steve Schmidt, estrategista da campanha de McCain, deu a idéia de chamar Barack Obama de loura.

Resultado: o candidato democrata aqui repaginado pelo artista gráfico Pojucan com a cabeleira de Paris Hilton ficou uma gracinha. Quem sabe as louras não tirem daí um exemplo de luta pelos seus direitos de ser humano como outro qualquer. Quantos já não governaram os EUA com menos de um neurônio, né não?

Clique aqui para ler também ‘Quase seis por menos de meia dúzia’ no ‘Ambulatório da Notícia’, publicada no caderno Aliás do ‘Estado’