O filme da má notícia

Tutty Vasques

24 Outubro 2010 | 06h39

ILUSTRAÇÃO POJUCANTomara que a tragédia da vez no noticiário não seja a anunciada pelo jornal Rolling Stone, de Uganda, que esta semana publicou nome, endereço e fotos de 100 homossexuais residentes no país, sob o título “Enforquem-nos!” Tomara, também, que Deus continue iluminando a cabeça dos policiais franceses, que, nos últimos 10 dias, prenderam 2.257 manifestantes de rua sem ferir gravemente ninguém, pelo menos até o fechamento desta edição.

Todo leitor de jornal fica na torcida para que o pior não aconteça, mas basta virar a página para pressentir que, mais cedo ou mais tarde, vai haver lambança das grossas. Pode estar vindo por aí um novo crack na Bolsa de Nova York, um terremoto daqueles na China, um atentado à Torre Eiffel, uma chacina no México, um acidente nuclear na Coreia do Norte, uma superbactéria, uma nova Sarah Palin, um aloprado de marca maior…

Más notícias são como filmes-catástrofe: tem sempre uma em cartaz, mas só vez por outra acontece um grande sucesso de público. O último blockbuster do jornalismo de conteúdo trágico – o drama protagonizado por 33 mineiros no Chile -, saiu de cartaz nas primeiras páginas com o final feliz do resgate no deserto do Atacama.

O segundo filme da série, a vida dos heróis após o soterramento, não vai nem de longe ameaçar a bilheteria do episódio original, mas promete boas histórias pelos cantos do noticiário. Esta semana, eles ganharam moto, casa, viagens ao exterior e festas nababescas nas vizinhanças.
Logo estarão cobrando cachê para dançar valsa em baile de debutante. Só então, quando se esgotarem as fontes periféricas de rendimento, o bicho vai pegar: “Não há ‘pacto de silêncio’ sobre o que aconteceu lá embaixo que resista a propostas de até US$ 25 mil dólares por entrevista aqui em cima. Pode virar um filme e tanto sobre o comportamento humano – ô, raça! – na superfície