O Levi Strauss da calça jeans

O Levi Strauss da calça jeans

Tutty Vasques

08 Novembro 2009 | 09h29

ILUSTRAÇÃO POJUCAN

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Para quem começou a fazer blog outro dia e está tentando entender a história de Claude Lévi-Strauss do fim para o começo, ou seja, a partir de sua morte, cuidado com o que escreve, hein! Que fique claro, de cara, o seguinte: “Liberdade é uma calça velha azul e desbotada” não é o clássico “pensamento selvagem” do autor de Tristes Trópicos, ok? A marca Levi Strauss & Co impressa na etiqueta de couro do mais antigo blue jeans do mundo nada tem a ver com o caráter revolucionário do pai do estruturalismo antropológico, esse que acaba de nos deixar, aos 100 anos de idade. 

Ainda que hoje em dia todo índio tenha uma calça jeans estabelecendo a chamada “ponte entre as sociedades tribais e os homens modernos”, o mito Levi’s leva assinatura de um Levi Strauss do tempo em que o nome não tinha hífen ou acento. É dele que vamos aqui falar, até porque, a esta altura das homenagens ao antropólogo, não há mais nada inteligente a seu respeito que já não tenha sido muito melhor escrito no longo velório que a mídia fez no obituário do intelectual.

Levi Strauss, o pai da calça jeans, nasceu na Alemanha 90 anos antes do xará pensador francês. Sua família emigrou para os EUA em 1847, atraída por parentes que comercializavam tecidos em Nova York. A Levi Strauss & Company pegou carona na corrida do ouro na Califórnia para vestir os garimpeiros com tecido de lona de barraca costurado com o reforço de rebites de cobre. Em 1890, a Levi’s criou seu modelo mais famoso, a calça 501, transformando-se em negócio mais rentável que o próprio ouro.

O inventor do jeans tal qual o conhecemos ainda hoje morreu em setembro de 1902, deixando seu índigo império para quatro sobrinhos. Não é justo que sua marca comercial vire agora uma vaga referência de homenagem têxtil à revolução de ideias pregadas por Lévi-Strauss, o antropólogo, mais ou menos na época em que a liberdade poética transformou a calça de brim em indumentária de gente que vai à luta.

Texto publicado na coluna Ambulatório da Notícia do caderno Aliás deste domingo no ‘Estadão’.