O que vem de baixo…

Tutty Vasques

08 Julho 2011 | 06h33

ilustração PojucanHoje em dia ninguém mais se ofende com tanta delicadeza, mas, no tempo em que para mandar um cretino praquele lugar dizia-se “vai lamber sabão!”, a expressão “o que vem de baixo não me atinge” era injúria de uso corrente para menosprezar o caráter ou a posição social de desafetos.

O cara que não merecia resposta reagia de pronto: “Então senta num formigueiro pra você ver só!” – a zombaria encerrava a arenga com os dois lados cantando vitória, um achando que botou o outro em seu devido lugar.

Nada que, de uns tempos pra cá, não se resolva com uma simples troca de palavrão, não raro um só, bem cabeludo, basta às partes. Imagina se, numa briga de trânsito contemporânea, o motorista xingado – antigamente ele era chamado de “barbeiro” – abre a janela para gritar “o que vem de baixo não me atinge!” Não fica nem bem, né?

Em total desuso, a expressão tem boas chances de ser recuperada pela autoestima carioca nesta semana em que todo o País faz piada com a patética sucessão de tampas de bueiros indo pelos ares nas ruas do Rio: “O que vem de baixo não me atinge!” – ouvi dizer dia desses numa esquina de Copacabana. Virou questão de fé!