Sarkodane, Sarkozyx

Sarkodane, Sarkozyx

Tutty Vasques

17 Agosto 2008 | 12h01

ILUSTRAÇÃO POJUCAN

Como se não bastasse a conquista de Carla Bruni, façanha que o transformou numa espécie de John Kennedy da França, o presidente Nicolas Sarkozy partiu esta semana para a guerra do Cáucaso com a determinação de Napoleão III, a agilidade de Asterix e o jogo de cintura de Zidane, decidido a trabalhar uma imagem de legítimo herói nacional. E quem, no futuro, em qualquer ponto do planeta, abrir os jornais do dia 13 de agosto de 2008 terá mesmo a impressão que ele conseguiu, em nome da União Européia que também preside, mediar o cessar-fogo entre a Rússia e a Geórgia. Não gastou, para isso, mais que um puxão de orelha e dois tapinhas nas costas de Dmitri Medvedev e Mikhail Saakashivili, respectivamente em Moscou e Tbilisi. “Non, non et non!” – encerrou o assunto da guerra antes de partir.

E voltou para Forte de Brégançon, no sudeste da França, onde, às vésperas da confusão na Ossétia do Sul, posava para fotos de bermudão estampado ao lado da primeira-dama de maiô, em gozo de férias na residência oficial de verão do governo francês. Evidentemente que, assim que deu as costas para a paz, o pau voltou a comer no Cáucaso, mas, à esta altura, seu instante de herói já havia sido registrado para a posteridade. Ninguém apaga. Sarkozy, como sempre, está bem na foto.

É impressionante como tudo na vida desse sujeito acontece como num filme, não parece verdade. Tem horas, inclusive que ele aparenta ter mais de 1,80m. Como naquela vez em que foi de peito aberto resgatar a ex-senadora franco-colombiana Ingrid Betancourt na selva amazônica – pelo menos esta é a imagem que para sempre ficará do desembarque em Paris da ex-refém das Farc.

Na quinta-feira passada, já refeito deste papo de brabo de ossétios e cossacos após um bom mergulho no Mediterrâneo, o herói de Carla Bruni passou o abacaxi do Cáucaso para Condoleezza Rice acabar de descascar. Hora de voltar para seu conto de fadas e botar seus cinco cérebros para trabalhar um novo capítulo dessa história que, se não aponta uma saída para o se humano, também em nada contribui para o fim do mundo.

Texto publicado originalmente no caderno Aliás do ‘Estado’ deste domingo

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