Braile além dos livros

Braile além dos livros

Sistema permanece fundamental para alfabetização de pessoas cegas ou com deficiência visual severa, mas sua função na autonomia abrange todas as fases da vida. Método garante segurança e independência em situações do cotidiano, como a leitura de sinais e rótulos, embalagens de medicamentos, alimentos, artigos de higiene pessoal e limpeza, cédulas monetárias, cartões de embarque, botões de elevadores, caixas eletrônicos e portas de banheiros públicos.

Luiz Alexandre Souza Ventura

06 Janeiro 2018 | 12h30

Para crianças com pouca ou nenhuma visão, o braile pode ser a única possibilidade de alfabetização e da compreensão de símbolos e ilustrações. Imagem: Reprodução

Para crianças com pouca ou nenhuma visão, o braile pode ser a única possibilidade de alfabetização e da compreensão de símbolos e ilustrações. Imagem: Reprodução


Mais de 200 anos após o nascimento de Louis Braille (04/01/1809 – 06/01/1852), o sistema de leitura e escrita desenvolvido pelo professor francês permanece fundamental na alfabetização de pessoas cegas ou com deficiência visual severa. Embora o avanço constante e veloz da tecnologia amplie as possibilidades de comunicação, o braile ainda é mais eficaz para garantir autonomia em todas as fases da vida.

Muito além da literatura, o método promove a independência em atividades do cotidiano, como a leitura de sinais e rótulos, embalagens de medicamentos, alimentos, artigos de higiene pessoal e limpeza, cédulas monetárias, cartões de embarque, botões de elevadores, caixas eletrônicos e portas de banheiros públicos.

“Apesar de ser inquestionável a relevância de aplicativos móveis e do áudio para a autonomia de pessoas cegas ou com baixa visão, ater-se a estes recursos em detrimento do braile pode restringir possibilidades”, afirma Raquel Paganelli, do Instituto Rodrigo Mendes (IRM). “Tornar o braile obrigatório seria contraditório à inclusão porque modelos que pressupõem homogeneidade geram exclusão. No entanto, é importante considerar que a perspectiva inclusiva enfatiza o direito ao pleno desenvolvimento em todas as áreas da vida, principalmente para gerar autonomia”, comenta a especialista.

Segundo Raquel, para crianças com pouca ou nenhuma visão, o braile pode ser a única possibilidade de alfabetização e compreensão dos símbolos de matemática, química, física e outras ciências, além de tabelas, gráficos, mapas, figuras geométricas e ilustrações impressas em relevo.

“Para pessoas mais velhas, já alfabetizadas, as possibilidades são ampliadas, como acompanhar o roteiro de uma palestra, fazer o registro de partituras e cifras musicais, ou até mesmo ler para os netos. São exemplos que atestam funcionalidade e autonomia em atividades do dia a dia”, comenta.

A educadora destaca que é preciso considerar a diversidade na deficiência. Assim como há pessoas que nascem cegas e outras que se tornam cegas no decorrer da vida, há quem prefira usar a tecnologia aliada ao braile.

“É importante haver possibilidade de escolha. É uma decisão pessoal, subjetiva, no contexto, circunstâncias e expectativas em relação a como se quer viver a própria vida”, diz.


Raquel Paganelli é mestre em educação inclusiva pelo Instituto de Educação da University College of London e faz parte da equipe do Instituto Rodrigo Mendes (IRM), onde atua na formação de educadores, produção de conteúdo para o portal DIVERSA (http://diversa.org.br) e mobilização da comunidade virtual. Imagem: Divulgação / IRM

Raquel Paganelli é mestre em educação inclusiva pelo Instituto de Educação da University College of London e faz parte da equipe do Instituto Rodrigo Mendes (IRM), onde atua na formação de educadores, produção de conteúdo para o portal DIVERSA (http://diversa.org.br) e mobilização da comunidade virtual. Imagem: Divulgação / IRM


#blogVencerLimites – Como o avanço da tecnologia tem contribuído para ampliar o acesso de pessoas cegas ao conhecimento? Qual a participação do braile nesse processo atualmente?

Raquel Paganelli – Com a publicação da Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e, principalmente, da sua ratificação como emenda constitucional, a preocupação com o aprendizado de braile nas escolas comuns, tanto na rede pública quanto na privada, vem aumentando consideravelmente. Também no que diz respeito a investimentos na aquisição de recursos e materiais.

É um processo lento e gradativo, caracterizado por avanços e desafios. O percentual de pessoas cegas alfabetizadas em braille em nosso país ainda é bastante baixo. Além da inclusão escolar, a convenção exige acessibilidade em quaisquer serviços e produtos. Ainda assim, informações em braile não estão disponíveis na maioria deles, comprometendo a autonomia, principalmente no acesso ao conhecimento e no desempenho de funções básicas do cotidiano de pessoas cegas de todo o País.

Enquanto isso, os recursos de tecnologia vêm cobrindo esta lacuna, pelo menos para aqueles que podem usá-los, tornando o acesso à informação e à cultura mais rápido, facilitando a educação e profissionalização de pessoas cegas ou com baixa visão.

É preciso considerar que a tecnologia não substitui, mas complementa as funções do braile. Por isso, torná-lo acessível ao maior número de pessoas na escola e em qualquer espaço da vida social é urgente, para que as pessoas cegas possam usufruir plenamente de seus direitos, até mesmo do direito de escolher não fazer uso dele.

#blogVencerLimites – Quais os desafios atuais para inclusão dos cegos na educação, trabalho, cultura e lazer? O que já foi vencido nesse processo?

Raquel Paganelli – Muitos países, inclusive o Brasil, estão passando por grandes mudanças no que diz respeito a políticas e práticas de educação inclusiva nos últimos anos. A publicação da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva pelo Ministério da Educação (MEC), em 2008, estabeleceu, entre outras coisas, o atendimento educacional especializado (AEE) para eliminar barreiras à plena participação dos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento (TGD) e altas habilidades/superdotação, considerando suas necessidades específicas, em escolas públicas e privadas de todo o País.

Mais recentemente, em 2016, entrou em vigor a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (nº 13.146/2015), que assegura e promove, em condições de igualdade, o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais da pessoa com deficiência trazendo uma série de inovações na área da educação.

Como consequência direta dessas e outras leis e medidas, o número total de matrículas dos estudantes com deficiência de modo geral na educação básica cresceu substancialmente na última década, particularmente no contexto inclusivo. Porém, é preciso considerar que essa trajetória não é linear. Os muitos e inegáveis avanços são resultado de um processo marcado por controvérsias, contradições e, muitas vezes, até mesmo retrocesso. Isso porque a educação inclusiva desafia a lógica excludente que rege os valores e a organização das redes de ensino e exige sua transformação para que o direito de participação e aprendizado no contexto escolar se torne, de fato, uma realidade para todos em nosso País e no mundo todo.

Reconheço que os avanços na educação incidem diretamente em outras áreas, transformando a situação de ‘invisibilidade’ das pessoas com deficiência que, entre outras coisas, passam a frequentar cada vez mais espaços de cultura e lazer e ocupar diferentes funções no mercado de trabalho. Ainda há muito a fazer. Por isso, acredito que é preciso continuar investindo na educação inclusiva.

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