“Educadores precisam entender o pensamento do autista”

“Educadores precisam entender o pensamento do autista”

No Brasil, aproximadamente 2 milhões de pessoas têm o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Para a psicopedagoga Dayse Serra, o processo de alfabetização e de educação das crianças só funciona quando professores e pedagogos compreendem esse universo.

Luiz Alexandre Souza Ventura

02 Abril 2016 | 09h59

Dayse Serra é psicopedagoga e doutora em psicologia clínica (Divulgação)

Dayse Serra é psicopedagoga e doutora em psicologia clínica (Divulgação)

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“Um dos primeiros desafios da criança com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é a escola. Por causa de suas dificuldades na fala, ao transmitir emoções, de entendimento da linguagem subliminar, de expressões faciais e até de mudanças de tom da voz, ela muitas vezes não consegue compreender explicações da professora e as histórias de livros”, afirma a psicopedagoga Dayse Serra, doutora em psicologia clínica e colaboradora da Neuro Saber.

Para a especialista, falta de habilidade de professores e pedagogos que não sabem como se processa o pensamento de um autista dificulta muito a alfabetização, tornando impossível que a criança desenvolva a capacidade de ler e entender o mundo em sua volta.


“Muitas escolas têm outra linha de trabalho e o educador padroniza o ensino sem pensar nesse estudantes, o que aumenta as chances de não dar certo. Para alfabetizar e educar alguém com autismo, é necessário entender seu funcionamento, suas alterações no que diz respeito à percepção do mundo, as sensações, os medos e seu desempenho linguístico”, ressalta Dayse Serra.

Segundo a psicopedagoga, o modelo mais adequado para facilita o processo de alfabetização é o fônico. “Esse método ensina primeiro os sons de cada letra e então constrói a mistura desses sons em conjunto para a pronúncia completa da palavra. Por meio dele, pode-se produzir a consciência fonológica e a criança consegue adquirir compreensão do que ela está lendo”, diz.

Dayse Serra salienta que não basta somente entregar o livro ao aluno e esperar ele aprender a ler. “Conforme o nível de autismo, o significado da leitura varia muito porque, geralmente, o autista não consegue compreender o signo linguístico e não entende o que é uma representação da comunicação. Mesmo aqueles que apresentam hiperlexia (leitura precoce), é preciso saber que ler não significa compreender. Em muitos casos, a dificuldade na interpretação de texto é alta porque a leitura é feita mecanicamente”.

A especialista defende o estímulo à imaginação do aluno, auxiliando a dar sentido à história. “É fundamental que se aprenda a construir uma frase e um sentido. Deve-se sempre perguntar sobre o que ele está entendendo. Uma pessoa que não faz inferência ou uma dedução, não tira uma extração de significado”, completa Dayse Serra.

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Azul – Para marcar o ‘Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo’, celebrado neste sábado, todos os mil relógios digitais espalhados pela cidade de São Paulo exibirão uma mensagem na cor azul em alusão à data. Haverá também uma peça de quebra-cabeça junto à frase em referência à complexidade do espectro autista e outras mensagens serão veiculadas ao longo do mês sobre o tema.

Além disso, cinco monumentos (Viaduto do Chá, Ponte das Bandeiras, Biblioteca Mario de Andrade, Estatua do Borba Gato e Monumento das Bandeiras) serão iluminados em azul, cor definida mundialmente como símbolo deste transtorno por ser quatro vezes mais comum em meninos do que em meninas.

Monumentos de São Paulo ganham a cor azul (Luiz Guadagnoli/SECOM/Prefeitura de São Paulo)

Monumentos de São Paulo ganham a cor azul (Luiz Guadagnoli/SECOM/Prefeitura de São Paulo)

A iniciativa é da Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida (SMPED), da SPObras, empresa que administra os relógios nos locais públicos, e da Ilume, Departamento de Iluminação Pública da Secretaria Municipal de Serviços.

O dia 2 de abril foi escolhido na Assembleia Geral das Nações Unidas em 2008, e serve de referência para que governos, sociedade, pessoas com o transtorno no espectro autista e seus familiares reafirmem os direitos já conquistados, discutam sobre a importância do diagnóstico precoce e debatam sobre iniciativas para ampliar a inclusão em áreas fundamentais, como educação, cultura, saúde, esporte, etc.

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Autismo – O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) começa na infância e tem causas multifatoriais, que envolvem mecanismos genéticos e ambientais, afetando os aspectos funcionais do indivíduo, mais evidentemente a tríade: interação social, comunicação e comportamento.

O ‘Manual Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais – quinta edição (DSM-5)’ utiliza o termo TEA para se referir a um continuum de quadros psicopatológicos com variação de sintomas: alguns indivíduos apresentam sintomas leves, ao passo que outros apresentam sintomas mais graves. O transtorno usualmente surge antes dos três anos de idade.

Os critérios diagnósticos são eminentemente clínicos, realizados, em sua maioria, por uma equipe interdisciplinar.

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