“O Brasil não está pronto para a inclusão total”

“O Brasil não está pronto para a inclusão total”

Emanoele Freitas, presidente da Associação de Apoio à Pessoa Autista (AAPA) do Rio de Janeiro, explica a importância do mediador escolar na educação da criança com deficiência. "A autonomia pode ser obtida dentro do ambiente escolar", diz a pedagoga.

Luiz Alexandre Souza Ventura

16 Julho 2015 | 14h01

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O que você precisa saber sobre pessoas com deficiência

Imagem: Reprodução

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“Ensinar uma criança com deficiência não é perda de tempo. Precisamos enxergar o ser humano antes da deficiência e priorizar as etapas corretas desse aprendizado para garantir a autonomia, que pode ser obtida dentro do ambiente escolar”, defende a pedagoga e presidente da Associação de Apoio à Pessoa Autista (AAPA) do Rio de Janeiro, Emanoele Freitas. “Falta avaliar a individualidade. O excesso de alunos atrapalha. E a grade curricular com vínculo à idade cronológica, sem avaliar a idade cognitiva, também dificulta. Essa é uma realidade tanto no ensino público quando no privado. Por isso, a presença de um mediador é muito importante”, diz a educadora.

O mediador escolar é um especialista no atendimento da pessoa com deficiência dentro do ambiente escolar. Esse profissional atende necessidades sociais entre alunos e professores. “É um trabalho feito na sala de aula”, explica a pedagoga. Para crianças com deficiência intelectual, auditiva e visual, como autistas, pessoas com a Síndrome de Down e até dislexia, ele usa técnicas e adaptações para melhor compreensão da matéria. “O mediador faz uma análise de comportamento, mas tem de haver empatia, porque ele sabe sobre a situação emocional e familiar. É um trabalho de inclusão”, diz Emanoele Freitas.


A pedagoga cita dois exemplos. “Há o caso de um adolescente com autismo, não vou citar o nome, que estuda em escola pública e que já entrou na fase da leitura, com apoio da família, da escola e de uma terapeuta, e que usa o caderno tríade (que registra os detalhes sobre o progresso). Entretanto, soubemos de uma escola particular que solicitou retirada de aluno de 4 anos, com autismo moderado, com base somente em laudo, porque eles já haviam cumprido a cota. E esse aluno não precisava de mediação. Ele está atualmente em uma escola público e a mãe me disse ‘nunca pensei em colocar filho em escola pública e nem que ele ficaria tão bem’. Por isso, podemos afirmar que o Brasil não está pronto para a inclusão total”, afirma a presidente da AAPA/RJ.

Emanoele ressalta que as escolas precisam atender a todas as exigências da lei. “Evidentemente, é necessário a capacitação, e o PPP (Plano Político Pedagógico) exige a capacitação contínua, com base no PNE (Plano Nacional de Educação). O trabalho é recente no Brasil, a partir de 2008, mas outros países tratam do assunto desde 1994. Existe muito descaso e há famílias que desistem, mas é lei, é um direito’, conclui a pedagoga.

Emanoele Freitas, presidente da Associação de Apoio à Pessoa Autista (AAPA) do Rio de Janeiro. Foto: Reprodução

Emanoele Freitas, presidente da Associação de Apoio à Pessoa Autista (AAPA) do Rio de Janeiro. Foto: Reprodução

Abaixo, um texto sobre a mediação, assinado por Emanoele Freitas.

“Mediação é um tema muito importante para aqueles que lidam com pessoas com necessidades especiais. Mas isso ainda gera dúvidas tanto em pais quanto em profissionais da área. Muitos não sabem como se posicionar com relação a isso.

Aqueles que mais precisam são as pessoas com deficiência física com imobilidades ou necessidades extras de suporte, com dificuldade de aprendizagem, com deficiência intelectual, visual ou aditiva, além daqueles com Transtornos Globais do Desenvolvimento. Todos esses estão dentro de um padrão de avaliação e necessitam de um profissional especializado em conduzir os aspectos pedagógicos, sociais e físicos.

Todos pensam que o mediador é para um longo período de atividade. Porém, seu papel é o de conduzi-los a um bom entendimento de classe, das atividades, de seu convívio, suas necessidades específicas e do suporte dentro e fora da sala de aula. Para tal, promove-se a integração da criança com os demais e a inclusão nos aspectos educacionais.

Por esse motivo, é necessária a avaliação e a comprovação das necessidades especiais para que possamos ter esse profissional em nível governamental. É também obrigação da escola arcar com o custo desse serviço, pelo simples fato de estar inserida no seu Plano Político Pedagógico (PPP) a promoção da igualdade de direitos e atendimento adequado a todos.

Para fazer uma comparação, quando se vai a um laboratório fazer um exame, você procura qualquer um ou escolhe aquele que tem o certificado de que é idôneo, ou seja, com profissionais capacitados e com pleno conhecimento no que estão fazendo? A resposta é bem simples.

Então, por que a escola tem que ser de qualquer forma? Por que os profissionais devem apenas se formar, mas não se especializar? Professor é a profissão que nunca deveria parar de estudar. Afinal, formamos todos os outros profissionais. É preciso repensar a instituição de ensino e a carreira. Não se pode visar somente o lucro. Não se pode querer formar apenas cidadãos que sejam neurotípicos, ou seja, que não possuem deficiências.

Como defesa, temos um decreto, do dia 27 de dezembro de 2014, complementar a Lei Berenice Pianna, Lei nº 12.764/2012. O parágrafo único é enfático: em casos de comprovada necessidade, a pessoa com transtorno do espectro autista incluída nas classes comuns de ensino regular, nos termos do inciso IV do art. 2o, terá direito a acompanhante especializado.

Não estamos aqui para tapar o Sol com a peneira. Para isso, é preciso cobrar mudanças. Caso contrário, infelizmente, vamos continuar desse mesmo jeito. As leis são lindas, mas precisam ser cumpridas. É importante que a população seja atuante e cobre mais.

O mediador ou profissional especializado em educação especial é de necessidade transitória para essas crianças e jovens. Isso não é de agora. Há mais de 40 anos defende-se a capacitação em atendimento educacional especializado.

Não podemos mais fingir que não existem pessoas com deficiência. É preciso aprender com eles, estudar, pesquisar, especializar e garantir que a educação seja realmente para todos. Precisamos mudar o nosso olhar e respeitar as necessidades especiais de todos”.

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