Fundamental para alfabetização de cegos, braile divide espaço com novas tecnologias

Fundamental para alfabetização de cegos, braile divide espaço com novas tecnologias

Dispositivos com telas especiais, ainda muito caros no Brasil, começam a ser mais comuns e acessíveis em países como Estados Unidos, Espanha e Japão. Público jovem usa áudio como alternativa para publicações digitais. Nesta quinta-feira, 4 de janeiro, é celebrado o Dia Mundial do Braile, único sistema natural de leitura e escrita que permite a representação do alfabeto, números e simbologias científica, fonética, musicografia e informática.

Luiz Alexandre Souza Ventura

04 Janeiro 2018 | 11h54

Braile tem base na combinação de seis pontos dispostos em duas colunas e três linhas, o que permite a formação de 63 caracteres. Imagem: Divulgação / Fundação Dorina Nowill

Braile tem base na combinação de seis pontos dispostos em duas colunas e três linhas, o que permite a formação de 63 caracteres. Imagem: Divulgação / Fundação Dorina Nowill


“Se os meus olhos não me deixam obter informações sobre homens e eventos, sobre ideias e doutrinas, terei de encontrar uma outra forma”. A frase escrita por Louis Braille em um diário permanece atual. Em sua curta passagem por esse mundo (ele morreu aos 43 anos por causa de uma tuberculose), o professor é lembrado em cada livro, placa, painel e publicação com o sistema de leitura e escrita usado por cegos de todo o planeta.

Nesta quinta-feira, 4 de janeiro, é celebrado o Dia Mundial do Braile, referência ao nascimento de seu criador, em 1809 na cidade de Coupvray, na França, há 40 km de Paris. Aos três anos, quando brincava na oficina do pai (Simon-René Braille, fabricante de arreios e selas) o menino machucou o olho esquerdo. A infecção do ferimento alastrou-se, atingiu o olho direito e ele jamais enxergou novamente.

“O braile é fundamental ou indispensável para as crianças que nascem cegas ou perdem a visão na primeira fase da infância. É o único sistema natural de leitura e escrita que permite a representação do alfabeto, além de números e simbologias científica, fonética, musicografia e informática”, diz Regina Oliveira, coordenadora de revisão da Fundação Dorina Nowill para Cegos e membro dos conselhos Mundial e Ibero-americano do Braile.

“Vale lembrar que o braile evolui constantemente. Esse contato com a escrita também permanece em constante evolução. Mesmo com a adoção de smarphones e computadores, o braile ainda é o único meio de leitura e escrita”, comenta. “Pesquisas indicam que informações visuais correspondem a 80% do total recebido por uma pessoa. E o áudio corresponde a apenas 20%. Partindo deste princípio, o braile é o único sistema que ajuda a suprir o acesso da pessoa cega à maioria de informações visuais”, ressalta a especialista.


Regina Oliveira é coordenadora de revisão da Fundação Dorina Nowill para Cegos e membro dos conselhos Mundial e Ibero-americano do Braile. Imagem: Divulgação / Fundação Dorina Nowill

Regina Oliveira é coordenadora de revisão da Fundação Dorina Nowill para Cegos e membro dos conselhos Mundial e Ibero-americano do Braile. Imagem: Divulgação / Fundação Dorina Nowill


Regina Oliveira comenta que as novas tecnologias têm ajudado na própria produção em braile, com mais agilidade, quantidade e qualidade. Três páginas de um livro no sistema equivalem a uma página do impresso. Por isso, a produção digital é uma alternativa, com leitura em telas especiais, equipamentos ainda muito caros no Brasil, mas que começam a ser mais comuns e acessíveis em países como Estados Unidos, Espanha e Japão.

“Encontramos uma grande oferta de títulos disponíveis em livros digitais acessíveis. Muita gente que gosta desse formato, que é complementar e amplia o acesso à informação e à cultura. Isso é saudável e deve ser uma escolha individual, não uma imposição por falta de opções”, defende a coordenadora.

“Muita gente reclama da falta de livros em braile. São pessoas que também gostam de ler, de folhear o livro. Defendemos o mesmo direito de uma pessoa que enxerga e pode pegar o livro na mão”, afirma.

NOVOS DESAFIOS – Regina Oliveira destaca como positiva a regulamentação de programas e leis federais, como a Lei Brasileira da Inclusão da Pessoa com Deficiência (nº 13.146/2015), mas ressalta que os desafios passam pela aplicação desse direito na prática.

“Toda criança cega tem de ser alfabetizada e de ter acesso a livros didáticos em braile. Ainda não é a realidade. Pedidos de materiais didáticos em braile chegam nas gráficas perto do início do ano letivo, o que compromete o acesso no primeiro dia de aula”, comenta.

Em restaurantes, explica a coordenadora, a presença de cardápio em braile possibilita a independência. Sinalizações nos museus ajudam a pessoa cega a fazer o passeio, ver e entender a obra livremente. Ter um acompanhante pode impede o aprendizado da grafia de uma determinada palavra ou elimina o contato direto e expressão de uma opinião.

A comunicação em braile confere ainda autonomia para que a pessoa cega possa administrar medicamentos e dosagens recomendados, ou garante privacidade para conferir a fatura de cartão de crédito ou valores cobrados nas contas de água e luz. “Braile vai além dos livros, considera também embalagens, cardápios, catálogos e até sinalizações”, diz.

“Pais de crianças cegas precisam se conscientizar de que, sem o braile, seus filhos serão eternamente analfabetos. Eles até podem crescer falando um português impecável, que aprenderam com os áudios, mas ficam afastados da escrita”, completa Regina Oliveira.


Louis Braille criou o método na França. José Alvares de Azevedo implementou o sistema no Brasil. Imagem: Reprodução

Louis Braille criou o método na França. José Alvares de Azevedo implementou o sistema no Brasil. Imagem: Reprodução


Segundo o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 6.562.910 cidadãos com deficiência visual severa (506.377 cegos e 6.056.533 com baixa visão). O senso também registrou que 29.211.482 têm alguma dificuldade para enxergar. A data ‘8 de abril’ foi estabelecida em 2010 o como ‘Dia Nacional do Braile’ para celebrar o nascimento de José Álvares de Azevedo (1834, no Rio de Janeiro), primeiro professor brasileiro cego que trouxe o método para o País em 1850.

Azevedo, que nasceu cego, é o patrono da educação dos cegos no Brasil. De família abastada – era filho de Manuel Álvares de Azevedo -, foi para a França em 1844, com apenas 10 anos, para estudar no Instituto Real dos Jovens Cegos de Paris (Institut National des Jeunes Aveugles), onde permaneceu por seis anos. Voltou ao Brasil em 1850 com o propósito de difundir o braile e criar uma escola para cegos. Escreveu e publicou artigos sobre as possibilidades e condições de educação para pessoas cegas.



O braile tem base na combinação de seis pontos dispostos em duas colunas e três linhas, permite a formação de 63 caracteres diferentes, que representam as letras do alfabeto, números, simbologia científica, musicográfica, fonética e informática.

Adapta-se à leitura tátil porque os seis pontos em relevo podem ser percebidos pela parte mais sensível do dedo com apenas um toque. A leitura do braile é feita da esquerda para a direita, com uma ou ambas as mãos. Algumas pessoas que conseguem ler até 200 palavras por minuto.

O Sistema Braile obedece a regras internacionais de altura do relevo e de distância entre pontos, entre linhas e entre ‘celas’, que são formadas por duas colunas de três pontos. Há combinações para a representação de letras, números, símbolos científicos, notas musicais, fonética e informática.

Pode ser utilizado por pessoas cegas ou com baixa visão, mas nem toda pessoa cega lê o braile. Cada caractere pode ser percebido com apenas um toque da parte mais sensível do dedo indicador (a polpa). Também pode ser escrito à mão, utilizando uma ferramenta chamada reglete e outra chamada punção, que funcionam como caderno e caneta. A escrita manual deve ser feita da direita para a esquerda para garantir o relevo ao virar o papel que foi puncionado.

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