Imagina depois da Copa

Luiz Alexandre Souza Ventura

26 Maio 2014 | 10h38

A grande expectativa criada sobre a Copa 2014, que começa no dia 12 de junho, movimentou todos os setores do País, apresentou para o mundo nossas dificuldades de infraestrutura, escancarou a enorme quantidade de dinheiro gasto em ações que defendem o tal ‘legado’ do evento, e aumentou a distância entre governo e povo, cada vez mais inconformado com a qualidade precária dos serviços públicos.

Nesse meio de campo embolado, com discussões sobre como e onde os recursos devem ser usados, estão as pessoas com deficiência, parcela da população que pouco viu (ou nunca viu) qualquer investimento de grande volume em projetos reais e concretos de acessibilidade, e que está muito acostumada a conviver com compensações e presentinhos quase inúteis no meio de uma gigantesca falta de possibilidades.

A Prefeitura de São Paulo, por exemplo, treinou mil pessoas ligadas ao programa Brasil Voluntário para atendimento a pessoas com deficiência durante o mundial. Essa turma vai atuar na divulgação de informações, auxílio a torcedores e turistas em aeroportos, centros comerciais e pontos turísticos, entorno dos estádios e eventos de exibição pública, além de áreas de terminais de ônibus e estações de metrô.

Muito bom, muito bacana, muito necessário e muito provisório. Isso porque, como em outros setores, a ações voltadas especificamente para a Copa prometem resultados de longo prazo e benefícios ao cidadão após a competição, mas isso será comprovado depois que tudo acabar e, principalmente quando se fala em acessibilidade, não serão algumas rampas e outros tantos voluntários treinados que irão tornar uma cidade 100% acessível.

Tudo começa na consciência de que essa acessibilidade não é um favor que se faz às pessoas com deficiência, não se trata de algo além do que está garantido na Constituição, muito menos de um benefício criado somente quando não há mais nada a ser feito. Falamos aqui de um direito de todas as pessoas. É papel do poder público garantir o acesso direto da população a todos os serviços essenciais. Saúde, educação e transporte estão no topo dessa lista. Cultura, lazer e segurança são igualmente importantes.

Obviamente, facilitar o acesso aos estádios é uma prioridade para quem organiza e administra as ações voltadas à Copa. Não há porque pensar que seria diferente. E se isso trouxer benefícios diretos à população após o mundial, devemos comemorar e usar diariamente. Mas o que existe, na verdade, está muito longe de ser celebrado e mostra que não aproveitamos a oportunidade de usar esse evento para garantir dignidade e real acessibilidade às pessoas com deficiência.

Jamais vou me cansar de repetir que o Brasil está muito atrasado no que diz respeito às pessoas com deficiência. E esse atraso é comprovado em escolas públicas sem professores especializados ou acessos construídos da forma correta, sem a presença de tradutores ou ferramentas de acessibilidade em eventos dos governos municipal, estadual e federal, sem essas mesmas ferramentas nos pronunciamentos da presidente Dilma Rousseff, sem hospitais públicos capazes de atender a todos que buscam socorro ou tratamento, sem a consciência real – mais uma vez – de que pessoas com deficiência são, antes de tudo, pessoas. E que essas pessoas são capazes, ativas e produtivas, mas convivem com dificuldades impostas pelas circunstâncias ou pela própria natureza. E mesmo quando essas dificuldades são vencidas, a falta de possibilidades que deveriam ser garantidas pelo País impede o exercício da cidadania.

Tomara que o mundial seja um sucesso de organização e acessibilidade. Porque todos nós que vamos acordar no dia seguinte queremos o tal ‘padrão Fifa’ por muito mais tempo, em todos os setores e para todas as pessoas.

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