Inclusão escolar é tema de doutorado na Unesp

Inclusão escolar é tema de doutorado na Unesp

Tese defendida pela pedagoga Thais Watakabe Yanaga aborda processos de resiliência e o desenvolvimento de alunos na educação especial para identificar melhores formas de apoiar os estudantes. "Não se trata apenas de acessibilidade ou adaptações de materiais didáticos. É o desenvolvimento da cultura escolar que valoriza a diferença, faz a pessoa se sentir bem naquele ambiente para ser vista por suas potencialidades". Nesta quinta-feira, 21 de setembro, celebramos o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência.

Luiz Alexandre Souza Ventura

21 Setembro 2017 | 16h40

Participaram do estudo quatro alunos surdos, um cego e outro com deficiência visual, três com deficiência física, dois com Síndrome de Asperger e um com Síndrome de Down, além de 14 professores. Imagem: Reprodução

Participaram do estudo quatro alunos surdos, um cego e outro com deficiência visual, três com deficiência física, dois com Síndrome de Asperger e um com Síndrome de Down, além de 14 professores. Imagem: Reprodução


Identificar ações de inclusão que contribuam para o bom crescimento dos alunos da educação especial. Esse foi o ponto de partida da tese de doutorado defendida pela pedagoga Thais Watakabe Yanaga no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Presidente Prudente.

O estudo ‘Inclusão escolar e processos de resiliência em adolescentes e jovens com deficiência’, apresentado em junho sob orientação da professora Renata Maria Coimbra, analisou as ações de inclusão desenvolvidas pelo Instituto Federal do Paraná (IFPR), onde Thais trabalha como pedagoga, e verificou de que forma o procedimento ajuda adolescentes e jovens da educação especial considerados em situações de risco.

“A inclusão escolar não se refere apenas às questões de acessibilidade física e estrutural, nem de adaptações de materiais didáticos ou curriculares, vai muito além”, diz a pesquisadora. “Trata do desenvolvimento de uma cultura escolar que valoriza a diferença, que faz com que a pessoa se sinta bem naquele ambiente, que ela seja vista pelas suas potencialidades e não pelas suas limitações”, afirma.


“Entendemos como situação de risco aquele acontecimento que interfere negativamente no bom crescimento da pessoa e que é apontada por ela como uma ameaça. No caso dos alunos da educação especial, por exemplo, são as dificuldades que enfrentam em momentos de discriminação e preconceito”

Para o estudo, a pesquisadora trabalhou com a análise dos documentos institucionais que trazem como referência a inclusão. E identificou que o IFPR tem como intenção oferecer uma educação sem diferenciação de raça, gênero, deficiência, condição social, como também uma infraestrutura adequada com elevador, banheiro adaptado, softwares para biblioteca, contratação de intérpretes de Libras (Língua Brasileira de Sinais), além de eliminar práticas preconceituosas e discriminatórias.


Os professores fizeram parte de dois momentos do trabalho. O primeiro foi a seleção dos alunos de educação especial considerados em processo de resiliência, a partir do que eles entendiam por crescer bem. Foram escolhidos os estudantes que não se vitimavam e não encaravam a deficiência como um problema, apresentando bom relacionamento, pró-atividade, interesse e força de vontade.

“Os alunos que se caracterizam como mantendo um bom crescimento, superam as situações de risco identificadas contra eles, por meio dos fatores de proteção encontradas no contexto social como: o apoio da família, dos amigos e professores”, explica Thais.

Na segunda etapa foram feitas entrevistas individuais com os professores. O objetivo era entender de que forma as ações de inclusão propostas pelo instituto eram percebidas e praticadas por eles.

Para os professores, as ações institucionais citadas no documento oficial não são realizadas porque a instituição não oferece cursos de capacitação e não prepara os professores para receber os alunos, principalmente aqueles com deficiência.

Segundo os professores, a preocupação da instituição consiste em oferecer uma infraestrutura adequada, mas não em desenvolver uma cultura inclusiva, mostrando a importância desta integração para a comunidade acadêmica”.


Com os alunos, além da entrevista individual, outra forma de avaliação foi a fotografia. Thais pediu para fotografarem pessoas, lugares e momentos que consideravam bons e ruins dentro do espaço escolar. Depois eles deveriam explicar o motivo que os levaram a tirar a foto.

“Este exercício permitiu analisar as ações de inclusão que eram desenvolvidas na unidade e que contribuíam para o bom crescimento destes estudantes”.

Segundo os alunos, as principais ações das quais participaram e se sentiram incluídos são as que respeitavam as suas limitações e que não os diferenciavam, entre elas, o de poder participar de projetos de pesquisa como bolsista, competir no basquete tendo a limitação da visão, ou, ainda, ajudar os professores no ensino dos outros alunos, pelo domínio do conteúdo.

“Eles querem ser reconhecidos pelas suas potencialidades”, diz a pedagoga.

Thais avaliou que a maioria dos estudantes gosta de estudar na instituição e se sente incluída, pois percebe a preocupação dos professores e da equipe pedagógica com o seu aprendizado.


“Os estudantes surdos relataram que dispunham de apenas um intérprete de Libras em cada Câmpus. Quando havia mais de um aluno surdo, somente um era atendido”.

Também foram destacadas dificuldades na comunicação com os professores, servidores da biblioteca, secretaria e colegas de classe, além da situação de alguns professores não respeitarem suas limitações, utilizando vídeos sem legenda e promovendo palestras sem o uso de interpretação da Libras.

Participaram do estudo quatro alunos surdos, um cego, um com deficiência visual, três com deficiência física, dois com Síndrome de Asperger e um com Síndrome de Down, além de 14 professores.

Thais trabalhou com professores e alunos das unidades da IFPR de Londrina, Assis Chateaubriand, Jacarezinho, Paranavaí, Telêmaco Borba e Umuarama, todos municípios pertencentes ao Estado do Paraná.

A pedagoga ressalta que em seu trabalho, para identificar os alunos dos quais ela iria trabalhar, conciliou os fundamentos do pesquisador canadense Michael Ungar – que estuda a temática da resiliência em adolescentes em situação de risco – com o processo de inclusão de adolescentes e jovens no ensino médio e superior.

Ungar reforça a necessidade de entender resiliência como algo associado à cultura e ao contexto do indivíduo. A cultura tem uma grande contribuição nos processos relacionados à resiliência, já que as necessidades para o bom crescimento do indivíduo são negociadas por meio ‘das e entre’ as culturas, pois o sujeito que é considerado em processo de resiliência em certo contexto cultural, pode não ser visto da mesma forma em outra cultura.


Para ele, o processo de resiliência é visto como resultante daquilo que as comunidades definem como funcionamento saudável e socialmente aceito para suas crianças e adolescentes, bem como a capacidade de suas comunidades em prover recursos.

O pesquisador reforça que o processo de resiliência destes adolescentes está atrelado a sete tensões, que, ao serem resolvidas de maneiras diferentes pelos adolescentes, auxiliavam no bom crescimento psicossocial, associado com bem-estar e resiliência, de acordo com critérios de suas culturas e contextos.

As tensões são: acesso a recursos materiais (à possibilidade do indivíduo acessar recursos sociais que garantam assistência financeira e a concretização de necessidades básicas); justiça social (à capacidade de reivindicar seus direitos, seja pessoal ou coletivo); poder e controle (auto-confiança do adolescente e capacidade de tomar conta de si próprio); relacionamentos interpessoais (rede composta de familiares, professores e amigos associada à suporte emocional); identidade (percepção do indivíduo sobre suas habilidades e limites); coesão (além da preocupação consigo próprio, há um senso de responsabilidade para com as necessidades da comunidade); e aderência cultural (capacidade de aderir (ou ficar em oposição) às normas culturais, crenças e valores de sua comunidade).

Thais analisou em sua tese de que forma as ações desenvolvidas no IFPR contribuíam para a resolução destas sete tensões nos alunos da educação especial, considerados em processo de resiliência. Ela concluiu que contribuem efetivamente na resolução de cinco das sete tensões propostas por Ungar.

“Somente a tensão ‘justiça social’ e ‘poder e controle’ necessitariam de outras ações, como dar voz aos alunos para que eles passem a ter uma posição mais ativa, ao invés de deixar sempre a instituição decidir por eles”, finaliza Thais Watakabe Yanaga.

Nesta quinta-feira, 21 de setembro, celebramos o Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência, instituído por movimentos sociais em 1982 e oficializado em 14 de julho de 2005 pela Lei Federal nº 11.133. A data foi escolhida por sua proximidade com a Primavera e o Dia da Árvore, representado o nascimento de reivindicações pela cidadania e a participação plena da pessoa com deficiência em igualdade de condições.

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