“Pessoas com deficiência não estão mais escondidas”

“Pessoas com deficiência não estão mais escondidas”

Luiz Henrique Medina, o Kaíke, tem 63 anos. Começou a jogar tênis de mesa após se aposentar e, atualmente, representa o Brasil em competições internacionais.

Luiz Alexandre Souza Ventura

23 Janeiro 2015 | 09h51

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O que você precisa saber sobre pessoas com deficiência

Citologia é a ciência que estuda as células. Tênis de mesa é um esporte olímpico e paralímpico. Qual a relação entre a citologia e o tênis de mesa? Alguns estudiosos podem até encontrar uma ligação, mas a informação aqui não é sobre biologia. Neste caso, o elo entre a estrutura que compõe os tecidos dos seres vivos e um dos esportes mais populares do mundo se chama Luiz Henrique Medina, ou simplesmente Kaíke.

A história de Kaíke no tênis de mesa começou no ano 2000. Antes disso, foram 30 anos dedicados à citologia, com passagens pelo Instituto Brasileiro de Controle do Câncer e pela Fundação Oncocentro, ambos em São Paulo, além de muitos laboratórios. Ao obter a merecida aposentadoria, ele começou a buscar alguma atividade física. “Primeiro eu tentei a natação, mas não me adaptei. Aí passei a jogar tênis de mesa”, lembra.

Logo no começo, demonstrou grande talento para a modalidade. A transferência para as competições profissionais foi quase imediata. Atualmente com 63 anos, ele faz parte da equipe do Centro Social Chinês de São Paulo/Indaiatuba. E representa o Brasil em campeonatos profissionais, inclusive as Paralimpíadas. Kaíke não tem a perna esquerda, nem os dois antebraços. É também uma das cinco pessoas no mundo que nasceram, em teoria, com a impossibilidade de falar (Kaíke não tem a língua), mas falam normalmente.

“As pessoas com deficiência não estão mais escondidas dentro de casa, como costumava acontecer”, afirma o atleta, que é patrocinado pela Seguros Unimed há pouco mais de um ano. Para ele, é a atitude da pessoa com deficiência que determina tudo. “O Brasil ainda tem muitos problemas, principalmente na acessibilidade”, diz. Quando criança, aos cinco anos, Kaíke foi estudar no Lar Escola São Francisco. “Fui criado lá”. Aos 18 anos, começou a trabalhar como auxiliar de fisioterapia. Dois anos depois, entrou no curso avançado de citologia. “Uma vez disseram: ‘Por que você estuda? As pessoas e o governo vão fazer as coisas por você’. Eu não dei bola”.

A conquista mais recente de Kaíke, fora do País, foi a medalha de bronze no Campeonato Aberto Internacional da Costa Rica. Na avaliação dele, a situação do esporte para pessoas com deficiência melhorou muito no País, mas ele afirma que o governo brasileiro precisa fazer mais, criar incentivos. “Muitos trabalham o dia inteiro e ainda treinam à noite, mesmo cansados. Precisa haver financiamento desses atletas. Poderia ser criado um projeto do tipo ‘adote um atleta com deficiência’. Os resultados seriam muito melhores. Os atletas de fora são muito mais preparados, eles têm salário e podem se dedicar totalmente ao esporte”.

A equipe de tênis de mesa do Centro Social Chinês de São Paulo/Indaiatuba tem 28 atletas, sendo 23 com deficiência. Carlos Koyama, treinador e gestor de projetos do time, afirma que Kaíke está na equipe mais forte do País. “Outros países levam o esporte muito mais a sério. As condições lá fora são muito mais favoráveis”, diz Koyama, que sugere uma estratégia de trabalho. “Empresas poderiam contratar atletas dentro da Lei de Cotas, mas eles treinariam ao invés de serem colocados em funções, muitas vezes, de subutilização. É uma sugestão. Esportistas precisam de mais de dez anos de preparação para atingir o nível das competições de alto desempenho”.

Regras – No tênis de mesa para atletas com deficiência, há regulamentos específicos somente para quem usa cadeira de rodas. Para todos os outros, é a mesma regra. No caso de Kaíke, a raquete tem um mecanismo para fixação no braço. ‘Ele joga em igualdade com qualquer atleta”, diz Carlos Koyama. “E se empenha mais contra atletas sem deficiência. O diferencial do Kaíke é o amor à vida”, conclui o treinador.

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