Menina com deficiência é chamada de “negrinha aleijada” em jogo de futebol

Menina com deficiência é chamada de “negrinha aleijada” em jogo de futebol

“Sinto um misto de raiva, revolta e nojo”, desabafa no Facebook a mãe de uma menina com deficiência que foi xingada por torcedores do Grêmio em partida contra o Flamengo.

Luiz Alexandre Souza Ventura

14 Janeiro 2015 | 15h46

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O que você precisa saber sobre pessoas com deficiência

Manifestações de preconceito e agressões verbais em jogos de futebol, infelizmente, não são novidade, no Brasil e em outros países. E a discriminação não poupa ninguém. No último dia 15 de dezembro, a mãe de uma menina com deficiência usou o Facebook para demonstrar sua indignação sobre como sua filha, torcedora do Flamengo, foi ofendida de diversas formas por torcedores do Grêmio. O jogo foi disputado no dia 7 de novembro em Porto Alegre.

Mãe de menina xingada desabafou no Facebook. Imagem: Reprodução

Mãe de menina xingada desabafou no Facebook. Imagem: Reprodução

“Sinto um misto de raiva, revolta e nojo”, desabafa Ana Paula Medina em seu perfil na rede social.

Leia a íntegra do post.

“Bem, Não tinha me manifestado ainda sobre o episodio com a Aninha na Arena do Grêmio, no jogo contra o Flamengo. Estava tentando digerir dentro de mim tudo que tinha acontecido e Confesso não consegui ainda, sinto um misto de raiva, revolta e nojo. Na segunda feira logo depois passei mal, nem consegui ir trabalhar, passei uma grande parte da madrugada olhando minha filhotinha dormir e pensando como puderam fazer aquilo com ela. Ana Clara é flamenguista, não por influência nossa, mais por ela mesma. Ganhou uma camisa do Flamengo e a primeira atitude foi beijar o escudo, sem que ninguém incentivasse e desde então assiste os jogos conosco e só não grita gol porque não fala.

Nunca tinha levado ela a um estadio, justamente por medo dessa violência tão falada nos noticiarios, mais neste domingo 07/12 resolvemos leva-la. Ganhamos os ingressos dos nossos amigos e como o jogo não valia nada, lá fomos nós. Ela foi eufórica dentro do onibus, feliz mesmo, dançando e sacudindo seus bracinhos fininhos a cada musica do Flamengo cantada por nossos amigos. Quando nos aproximamos da entrada de visitantes da Arena, um grupo de exaltados gremistas já nos esperava, gritando xingamentos sem fim, dizem que isso é coisa de futebol mesmo. Entramos na área de visitantes para desembarcar do onibus. Quando desci com a Aninha no colo para coloca-la na cadeira de rodas alguém gritou “Negrinha Aleijada”. Nossos amigos começaram a discutir, ficaram revoltados, se enfureceram mesmo, porque Aninha é amada por todos, a mascote da nossa torcida, a primeira criança da FLA-RS que é uma grande familia, tanto que 3 de seus membros são padrinhos da Sarah, minha outra filha. Fiquei nervosa, comecei a chorar e disse ao Gustavo Haag que gente ruim, porque isso com uma criança. Chamei nossos amigos pra entrar, não queria que eles brigassem.

Fui encaminhada por funcionarios do Grêmio até um camarote, com Aninha e meu marido. Até então tudo certo, toda mordomia. À frente do camarote, cadeiras que nos permitiam ver melhor o campo, abaixo de nós mais cadeiras e muitos gremistas. Alheia a tudo isso estava Aninha, vibrando. Fomos com ela para as cadeiras e logo em seguida o Flamengo fez um gol, pegamos ela no colo, gritamos, vibramos como todo bom torcedor, mais os gremistas abaixo de nós se acharam no direito de nos provocar e da maneira mais terrivel. Chamavam nossa menina de puta, de putinha flamenguista, pegavam nos genitais e mostravam pra gente, faziam gestos obscenos com as mãos.Confesso, não tenho sangue de barata, revidei, xinguei um monte eles, fiquei brava, muito brava, afinal, pode mexer comigo, eu sei me defender, mais mexeu com ela eu viro o diabo. Sofri muito pra ter minha filha viva, pra qualquer idiota preconceituoso ofende-la.

Sem hipocrisia, nenhuma mãe gostaria que seu filho fosse deficiente, mais naquele momento agradeci a Deus que a deficiência da Aninha não permitiu que ela entendesse àquela agressão gratuita, aquelas pessoas, sim, porque eram homens e mulheres, não poderiam agredir mesmo que verbalmente, uma criança com limitações.

Já tinhamos sofrido preconceito antes, mais nunca de uma forma tão dolorida feito essa.

No intervalo do jogo, 2 seguranças estiveram no camarote para nos perguntar o que estava acontecendo. Explicamos tudo a eles, que não nos deram nenhuma orientação, só viraram as costas e foram embora.
Assistimos uma parte do segundo tempo ainda nas cadeiras, mais quando o Grêmio fez um gol, começaram os xingamentos de novo.
Fomos obrigados a ficar o resto do jogo dentro do camarote pra que Aninha não sofresse mais.

Terminado o jogo nos desceram para pegarmos o onibus, mais saimos do elevador numa area gremista, os funcionarios nos indicaram como sair mais a gente teria que ir sozinhos passando no meio deles, encontramos alguns soldados da Brigada e pedimos que eles nos levassem, no que fomos prontamente atendidos.

A sensação de todos era de revolta pelo que fizeram a nossa pequena guerreira.
Digo sempre, bate em mim, pisa em mim que sei me defender, mais não faça com ela porque vou até o fim para defendê-la.

A estes gremistas só posso dizer por enquanto, vocês nunca vão saber o que é ter uma negrinha aleijada como a minha na vida, nunca terão a felicidade de poder aprender com esse ser tão incrivel que é a minha filha. É uma pena que pra vocês ela só mereça ser chamada assim, porque todos os dias ela é chamada de Guerreira, forte, vitoriosa, lutadora, anjo, poncesa, amor, tudo isso por gente de bem que a ama e a respeita. Vocês nunca enfrentaram 10% das batalhas que ela já enfrentou na vida, sempre sorrindo e dando a volta por cima. Vocês não são dignos de pisar o mesmo chão que ela, não são dignos de pisar no mesmo chão que a cadeira de rodas dela passa.

Aleijados são vocês, aleijados de caracter, de coração, de alma, de espirito e de sentimentos….

A vocês meu desprezo e minha repulsa…..

Ana Paula – mãe da menina mais linda desse mundo…”