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“Paralisia cerebral não é doença”

“Paralisia cerebral não é doença”

Fisiatra da Rede Lucy Montoro esclarece dúvidas sobre a desordem, que afeta milhares de pessoas no Brasil.

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Luiz Alexandre Souza Ventura

20 Outubro 2015 | 10h31

Maria Ângela de Campos Gianni é fisiatra da Rede Lucy Montoro. Foto: Divulgação

Maria Ângela Gianni é fisiatra da Rede Lucy Montoro. Foto: Divulgação

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Qual a forma correta de falar ou escrever sobre a paralisia cerebral? Muitas dúvidas cercam o assunto. O desconhecimento gera abordagens equivocadas e, muitas vezes, preconceito, discriminação e exclusão.

Para saber mais sobre essa desordem que afeta milhares de pessoas no Brasil, o blog Vencer Limites pediu ajuda à fisiatra Maria Ângela de Campos Gianni, do Ambulatório Infantil da Unidade Morumbi da Rede Lucy Montoro, que respondeu algumas perguntas básicas.

Vencer Limites – Qual a definição correta para a paralisia cerebral?
Maria Ângela de Campos Gianni – É um grupo de desordens permanentes do desenvolvimento do movimento e da postura, causando limitação da atividade, atribuída a distúrbios não progressivos que ocorrem no encéfalo fetal ou infantil em desenvolvimento. As desordens motoras são frequentemente acompanhadas por distúrbios sensoriais, perceptivos, cognitivos, da comunicação e do comportamento, por epilepsia e por problemas músculo-esqueléticos secundários.

Vencer Limites – Desta forma, é errado chamar de doença?
Maria Ângela de Campos Gianni – A paralisia cerebral não pode ser definida nem como doença nem como lesão, mas sim como uma consequência, uma sequela de uma lesão, ou de uma doença, ou de qualquer outra agressão ao sistema nervoso central imaturo que tenha algumas características próprias.

Vencer Limites – Por favor, a senhora pode citar um exemplo?
Maria Ângela de Campos Gianni – A meningite, doença que afeta o sistema nervoso de forma aguda, pode ser curada com tratamento adequado, mas pode deixar uma cicatriz na área motora do sistema nervoso, que se manifesta por déficit de movimentos de um lado do corpo. Esta sequela motora, que não desaparece com o tempo e não tem como ser revertida, é o que chamamos de paralisia cerebral. Pode-se dizer que a paralisia cerebral foi decorrente de um quadro agudo que foi resolvido.

Vencer Limites – É possível haver recuperação total?
Maria Ângela de Campos Gianni – No exemplo acima, a lesão, ou doença (meningite) tem cura, mas deixa uma consequência, uma desordem permanente, que é o déficit de movimentos de um lado do corpo, que não tem cura. Vale salientar que não ter cura é diferente de não ter tratamento.

Vencer Limites – Uma pessoa ‘tem’ ou ‘teve’ paralisia cerebral?
Maria Ângela de Campos Gianni – Como se trata de uma condição crônica, o correto é dizer que a pessoa ‘tem’ paralisia cerebral. A pessoa do exemplo ‘teve’ meningite e ‘tem’ paralisa cerebral do tipo hemiparesia.

Vencer Limites – A paralisia cerebral acontece somente no parto?
Maria Ângela de Campos Gianni – Pode acontecer como consequência de qualquer agressão ao sistema nervoso central imaturo, ou seja, desde a fase inicial de sua formação ainda intra-útero, no período peri-parto, até a fase inicial da infância. As sequelas do período perinatal são mais frequentes por tratar-se de um período de grande risco, em que mudanças muito rápidas precisam acontecer na melhor condição possível. Daí a importância de uma boa assistência tanto à mãe como ao recém-nascido para atuar preventivamente.

Vencer Limites – Como determinar a gravidade? Quais os tratamentos?
Maria Ângela de Campos Gianni – Tanto a determinação da gravidade como o tratamento dependem da avaliação de cada caso em particular. De forma bem genérica, podemos dizer que existem quadros de paralisia cerebral leve, com ótimo potencial funcional global, em que o tratamento consiste em estimular de formas variadas o desenvolvimento desse potencial, até quadros graves, em que, além do déficit motor, podem haver outros comprometimentos associados, como convulsões, déficits visuais, auditivos, entre outros. Nessas situações, o objetivo principal do tratamento é promover bem estar e qualidade de vida, mesmo que o potencial para funcionalidade seja restrito.

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‘Cuerdas’ é um curtametragem de animação escrito e dirigido por Pedro Solís García. Venceu o prêmio Goya® em 2014, na categoria de ‘Melhor Curta-metragem de Animação Espanhol’. Mostra, com muitas nuances, a amizade entre duas crianças: uma menina e um garoto com paralisia cerebral. “É um belo conto de igualdade e solidariedade, por meio dos olhos puros e inocentes de uma menina”, diz o diretor.

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