“Precisamos respeitar a vontade da pessoa surda”

“Precisamos respeitar a vontade da pessoa surda”

Manuel Cardoso, professor da Universidade Estadual do Amazonas e idealizador do 'Giulia - Mãos que Falam', fala ao #blogVencerLimites sobre a ideia do aplicativo que traduz para áudio, em português, os sinais de Libras. Segundo o especialista, pesquisas sobre restrições da condição humana criam soluções inovadoras para todas as pessoas.

Luiz Alexandre Souza Ventura

19 Junho 2017 | 11h40

Manuel Cardoso é professor da Universidade Estadual do Amazonas e idealizador do 'Giulia - Mãos que Falam'. Imagem: blog Vencer Limites

Manuel Cardoso é professor da Universidade Estadual do Amazonas e idealizador do ‘Giulia – Mãos que Falam’. Imagem: blog Vencer Limites


Os avanços da tecnologia da informação nos últimos anos, em equipamentos e também nos aplicativos voltados para sistemas complexos, usando a inteligência artificial, têm ajudado pesquisadores a ultrapassar barreiras. Avanço esse que possibilita a criação de novas ferramentas de acessibilidade e inclusão, amplia a comunicação entre pessoas e também aumenta a compreensão sobre o universo da pessoa com deficiência.

No que diz respeito à deficiência auditiva, especialmente para quem é surdo, as dificuldades sociais são impostas pela falta de entendimento até em situações simples do cotidiano. Por não ser aparente e também porque é percebida somente quando surge a tentativa de contato, a falta de audição limita substancialmente as possibilidades de acesso ao trabalho e à educação. E uma das maneiras de combater essa exclusão é melhorar a comunicação entre pessoas que escutam e aquelas sem a capacidade de ouvir.

Com essa premissa surgiu o ‘Giulia – Mãos que Falam’, idealizado por Manuel Cardoso, professor do departamento de eletrônica da Universidade Estadual do Amazonas (UEA). Em entrevista ao #blogVencerLimites durante o lançamento oficial do aplicativo no Rio de Janeiro, possível a partir do apoio da TIM Brasil, o docente falou sobre as principais conquistas do projeto para melhorar a comunicação de pessoas surdas com quem não tem conhecimento de Libras (Língua Brasileira de Sinais).

Lançamento oficial do Giulia tem apoio da TIM Brasil. Imagem: blog Vencer Limites

Lançamento oficial do Giulia tem apoio da TIM Brasil. Imagem: blog Vencer Limites


“Libras é segunda língua oficial do Brasil, mas a falta de fluência nesse idioma entre as pessoas que escutam cria uma barreira com os surdos. Reduzir essa dificuldade de comunicação é o grande salto proporcionado pelo Giulia”, diz Cardoso. “Usamos os dados coletados nos sensores que já fazem parte dos smartphones para que os sinais executados sejam sintetizados em áudio, na língua portuguesa, e também captando o que é dito e traduzindo em Libras”, explica o professor.

Manuel Cardoso destaca que pesquisas sobre restrições da condição humana criam oportunidades de conhecimento que podem agregar valor como soluções tecnológicas inovadoras também para pessoas sem deficiência.

“Estudamos o comportamento de pessoas quando restringidas e isso traz benefícios para todos. Sendo assim, várias empresas entendem que é válido investir no Giulia para a continuidade das pesquisas e em novos produtos. Dessa forma, podemos viabilizar a tecnologia sem custo para o usuário”.

Ação faz parte de uma série de iniciativas do programa TIM Acessível. Imagem: Reprodução

Ação faz parte de uma série de iniciativas do programa TIM Acessível. Imagem: Reprodução


Educação – “Nos estados mais pobres, o acesso de pessoas surdas à educação é muito limitado, especialmente ao ensino básico. Por isso, muitos não conhecem a língua portuguesa e alguns nem sabem se comunicar em Libras. E nós conseguimos quebrar essa barreira quando trazemos o surdo para o âmbito de educação do ouvinte, sem a necessidade de um contexto específico para quem não ouve”, ressalta Manuel Cardoso.

Para o professor, a simples presença de intérpretes de Libras em escolas, faculdades, empresas e em órgãos públicos não resolve o problema da comunicação porque a quantidade de profissionais com essa especialidade é muito menor do que a demanda.

“O intérprete de Libras continua necessário, mesmo com o avanço da tecnologia, mas há um limite de 60 minutos para ele trabalhar sem interrupção. E as aulas de uma faculdade, por exemplo, têm duas horas. Então, são necessários dois intérpretes”, diz o professor. “No caso de aulas sobre conhecimento especializado, nem sempre o intérprete consegue passar a tradução correta do que é transmitido pelo professor. Por isso, quanto maior e mais próxima for a interação entre professor e aluno, melhor será a interpretação do que é ensinado”.

Oralização – Saber falar deve ser uma escolha para o surdo, defende o professor Manuel Cardoso. “Impor essa condição é tirania. Na história dos surdos, a oralização trouxe mais malefícios do que benefícios. Isso tem de ser uma opção, até porque a sinalização é uma expressão natural de comunicação e estudos da semiótica comprovam”, ressalta o docente. “O respeito à vontade do indivíduo, seja ele surdo ou não, é o mais importante”.

Pulseira – A ideia de criação do Giulia surgiu três anos atrás. Manuel Cardoso estava em Boston (EUA) e conheceu uma pulseira usada em videogames que captava os sinais biométricos dos músculos dos braços e das mãos dos jogadores. A precisão dos sensores usados naquele equipamento, diz o professor, não era boa, a partir de um sistema não linear muito complexo para a construção de controles tradicionais.

“Um indivíduo faz os mesmos sinais de forma diferentes. Não executa de maneira igual. Então, percebi que seria necessário um sistema de inteligência artificial. Desenvolvemos a primeira solução, que funcionou. O conceito estava correto, mas o custo era inviável. Quando eu prestei consultoria para uma empresa de telefonia, tive contato com um novo smartphone equipado com o magnetômetro – giroscópio e acelerômetro já fazem parte – e tivemos a ideia de trocar a pulseira”.

Soluções para pessoas com deficiência são um grande negócio

Apesar da sofisticação, o Giulia tem interface simples. E os telefones mais antigos, sem o magnetômetro, também podem ser usados porque o aplicativo traduz para Libras as palavras digitadas pelo usuário.

“Um detalhe fundamental é que o Giulia pode ser personalizado, porque cada um de nós tem uma forma específica de comunicação, inclusive por sinais. Nós usamos um algoritmo (computação evolucionária) que reconhece as características do usuário. E quanto mais sinais ele executa, mais fácil e rápido esse algoritmo aprende. Por isso, chamamos de ‘alter ego’, o outro eu, uma forma de virtualizar características pessoais e individuais de expressão”, conclui Manuel Cardoso.


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