Atletas Paralímpicos

Atletas Paralímpicos

Nesta série especial, um pouco da história e da rotina de cinco atletas que treinam forte para os Jogos Paralímpicos de 2016.

Luiz Alexandre Souza Ventura

22 Maio 2015 | 19h14

Curta Facebook.com/VencerLimites
Siga @LexVentura
Mande mensagem para blogvencerlimites@gmail.com
O que você precisa saber sobre pessoas com deficiência

Alice Corrêa ganhou a medalha de bronze do salto em distância nos Jogos Escolares de Londres 2012. Foto: Divulgação

Alice Corrêa ganhou a medalha de bronze do salto em distância nos Jogos Escolares de Londres 2012. Foto: Divulgação

“Muita gente ainda pensa que a pessoa com deficiência deve ficar trancada em casa” – Alice Corrêa tem 19 anos e faz parte de um grupo de atletas de alto rendimento. Praticante de atletismo, a velocista é especialista nas provas de 100 e 200 metros. A rotina de treinos é forte, sempre no período da tarde. Logo cedo, por volta de 5h30, ela sai de casa, rumo à faculdade de Fisioterapia – no Centro Universitário IBMR. O percurso feito de ônibus demora aproximadamente duas horas. Na hora do almoço, a refeição é feita no meio do caminho, antes de chegar ao local de treino, trajeto que consome mais 40 minutos, de ônibus e metrô. “O ideal seria que tudo estivesse no mesmo lugar, como existe em outros países”, diz.

A atleta é uma das grandes promessas brasileiras para os Jogos Paralímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. Com visão parcial desde o nascimento – Alice tem glaucoma e catarata -, começou a praticar esportes ainda criança, aos 8 anos, no Instituto Benjamin Constant (IBC). “Minha mãe teve rubéola na gravidez. Eu enxergo só de perto. Uma vez participei de uma peça de teatro, mas era tudo muito escuro e quando fui entrar no palco, acabei caindo lá de cima”, conta. “Já sofri preconceito sim, com apelidos e xingamentos, antes de entrar no IBC. Eu não queria mais ir para a escola, mas minha mãe não me permitia faltar”.


Em 2012, quando conheceu o Instituto Superar, Alice percebeu que o esporte poderia representar uma nova vida. E as mudanças chegaram rápido. Em 2012, aos 16 anos, ela participou dos Jogos Paralímpicos de Londres. No mesmo ano – ao lado de seu técnico e guia, Diogo Cardoso -, ganhou a medalha de bronze do salto em distância nos Jogos Escolares de Londres, repetindo a conquista no Meeting Espanhol. Atualmente, é a 6ª colocada no ranking mundial em sua classe.

Alice Corrêa ganhou a medalha de bronze do salto em distância nos Jogos Escolares de Londres 2012. Foto: Divulgação

Alice Corrêa conheceu o Instituto Superar em 2012. Foto: Divulgação

Atualmente patrocinada pela Seguros Unimed, Alice está empenhada em se tornar uma referência no esporte. “O foco atual é o Parapan de Toronto (Canadá), em Agosto. Em outubro temos o Mundial de Atletismo. Tudo faz parte da preparação para a Olimpíada. O Brasil tem muitos atletas com deficiência que são bastante fortes, em diferentes classes, mas ainda estamos em desvantagem porque os competidores estrangeiros têm mais estrutura, pistas e equipamentos melhores, com faculdade, escola, academia, refeitório e até dormitórios no mesmo lugar”, diz.

Alice afirma que muitos amigos de infância que também têm deficiência desistiram de estudar porque não havia recursos de acessibilidade para chegar à escola e também dentro da sala de aula. “Mesmo na faculdade são poucos recursos. E a falta de acessibilidade afasta os alunos com deficiência. Tenho amigos que concluíram o ensino fundamental, mas não prosseguiram nos estudos porque não há acesso correto’, explica. A atleta mora no Rio de Janeiro e diz que a cidade ainda precisa melhorar muito para ser realmente acessível. “É um problema de educação, porque muita ainda pensa que a pessoa com deficiência deve ficar trancada em casa”, desabafa.

Alice Corrêa treina para os Jogos Paralímpicos 2016. Foto: Divulgação

Alice Corrêa treina para os Jogos Paralímpicos 2016. Foto: Divulgação

Diogo Uallison se dedica totalmente ao esporte. Foto: Divulgação

Diogo Ualisson se dedica totalmente ao esporte. Foto: Divulgação

“O Brasil não tem estrutura para desenvolvimento do atleta com deficiência” – Diogo Ualisson Jerônimo da Silva nasceu e foi criado em Bom Sucesso, no Rio de Janeiro. Aos 22 anos, é velocista e compete nos 100, 200 e 400 metros. Já fez parte da seleção brasileira e representou o País em torneios internacionais. Para conseguir ficar entre os melhores e manter o alto desempenho, tem uma rotina diária de intenso treinamento, com foco nos Jogos Paralímpicos de 2016. “O cenário nacional para desenvolvimento do atleta com deficiência é muito precário. A maioria depende muito do poder público. Apesar disso, têm surgido bons resultados”, diz.

Patrocinado pela Seguros Unimed, ele credita à iniciativa privada o crescimento no número de competidores com destaque nos principais eventos. “Não é possível melhorar o atleta sem apoio, sem o auxílio de especialistas, como treinadores, nutricionistas, fisioterapeutas e até psicólogos. É isso que amplia a vantagem dos nossos adversários”, comenta Diogo, que foi destaque no Open Paraolímpico Internacional, em 2013, realizado no Complexo Esportivo do Ibirapuera, em São Paulo, quando venceu os 100m e 200m, categoria T12, para pessoas com deficiência visual.

Diogo nasceu com baixa visão e enxerga até uma distância de quatro metros. Sua mãe teve rubéola durante a gravidez. O atletismo surgiu quando era aluno do Instituto Benjamin Constant (IBC), no Rio de Janeiro, a convite de um amigo. Em 2009, foi destaque Paraolimpíadas Escolares e do Circuito Brasileiro. Ainda na escola, conheceu as dificuldades impostas pela falta de acessibilidade, mas afirma que a atitude da pessoa com deficiência é fundamental. “Antes do IBC, tive dificuldades porque havia sim muito preconceito, de colegas e também de professores”, lembra. “Mas há também muito desconhecimento sobre sobre os direitos de cada um. Quando vou ao banco, por exemplo, entro na fila preferencial. E muita gente me julga sem saber da minha situação. É algo do cotidiano, mas é um constrangimento, porque frequentemente tenho que explicar e até comprovar minha deficiência. Só que eu não abro mão dos meus direitos”, desabafa o atleta.

Ele afirma que jamais permitiu ser excluído, mesmo quando era xingado por outras crianças. “Ainda falta muita informação sobre a pessoa com deficiência no Brasil. Essas crianças não sabia nada sobre isso. É uma questão de conhecimento, de educação nos primeiros anos de vida”, diz.

Diogo Uallison treina para os Jogos Paralímpicos de 2016. Foto: Divulgação

Diogo Ualisson treina para os Jogos Paralímpicos de 2016. Foto: Divulgação

“A natação é o meu trabalho”, diz Caio Amorim. Foto: Divulgação

“Nem tudo no Brasil está tão errado ou é tão ruim” – Caio Amorim tem 22 anos e persegue uma meta. Ele largou a faculdade de administração, deixou sua cidade natal – Saquarema, no RJ – e foi morar em São Caetano do Sul, no ABC Paulista, para treinar, treinar e treinar, com foco em um bom resultado (talvez a medalha de ouro) nos Jogos Paralímpicos de 2016. “A natação é o meu trabalho. São três sessões de treino por dia. Duas na piscina e uma na musculação”, diz.

As competições fazem parte da vida do atleta desde a infância, entre 8 e 9 anos, época na qual disputava posições com atletas sem deficiência, inclusive no mar, enfrentando as travessias. “Comecei para tratar da bronquite”, conta Caio, que nasceu com má formação nas pernas, o que compromete seus movimentos, mas jamais limitas vitórias.

Aos 14 anos, após uma pausa para cirurgias, ele conheceu o Instituto Superar e passou para as competições de alto desempenho. Em 2009, Caio quebrou quatro recordes brasileiros da classe S8 e competiu no Parapan de Jovens, em Bogotá (Colômbia). Em 2011, participou do Open de Berlim de Paranatação e do Parapan de Guadalajara, onde ganhou cinco medalhas (dois ouros, duas pratas e um bronze). Em 2012, nas Paraolimpíadas de Londres, terminou a final do 400m livre na sétima colocação, com o tempo de 4min39s86, além de obter quarto lugar na disputa do revezamento. Em 2013, no Mundial de Montreal, no Canadá, terminou os 400m livre em sexto lugar.

“Para mim, nunca houve impedimentos dentro da natação. Meu professor fez toda a diferença, minha família e meus amigos sempre me apoiaram”, diz Caio. Ele afirma ter conhecido muito mais sobre o universo da pessoa com deficiência após entrar nas competições específicas e ressalta que esse deve ser o legado dos Jogos de 2016, a exemplo do que, na opinião dele, ocorreu em Londres. “Nem tudo no Brasil está tão errado ou é tão ruim. Na época da Olimpíada em Londres, a cidade tinha muita acessibilidade por causa dos jogos, mas o importante é que isso foi mantido. É exatamente isso que precisa acontece no Brasil”.

Atualmente patrocinado pela Seguros Unimed, Caio diz que o País precisa investir nas crianças, incentivar a prática de esportes, mas também criar a estrutura para que essas crianças continuem. “O Brasil tem poucas iniciativas para ‘bancar’ as crianças e colocá-las no esporte”. Sobre o dia a dia, ele diz conviver de forma harmoniosa com a falta de educação e cita como exemplo o uso das vagas reservadas para pessoas com deficiência nos estacionamentos. “Eu não uso porque tem gente que precisa mais do que eu, mas é fato que não há qualquer fiscalização. E quando eu reclamo, acabo ouvindo respostas muito agressivas e até preconceituosas”.

Para Caio Amorim, o legado dos jogos de Londres é o mais importante. Foto: Divulgação

Para Caio Amorim, o legado dos jogos de Londres é o mais importante. Foto: Divulgação

João Victor Teixeira treina para os Jogos Paralímpicos de 2016. Foto: Divulgação

João Victor Teixeira treina para os Jogos Paralímpicos de 2016. Foto: Divulgação

“O esforço é tão importante quanto o talento” – Criança adora brincar de correr. E foi nessa fase da vida, aos 8 anos, que João Victor Teixeira de Souza Silva decidiu ir até a praça em frente à casa de sua família, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, onde alguns jovens praticavam esportes, para saber o que acontecia por lá. “Fiquei curioso”, diz o atleta, que começou nas corridas e, aos 12 anos, partiu para o pentatlo.

João teve três convulsões aos 14 anos, após a cirurgia para remover um coágulo em seu cérebro, e os movimentos do lado esquerdo do corpo foram afetados. O retorno ao esporte, 18 meses depois, foi possível depois de muita fisioterapia, mas ele afirma que demorou para aceitar a nova situação. “Foi tudo de repente, mas não me considero uma pessoa com deficiência porque, para mim, a ‘pessoa com deficiência’ é aquela que pode agir, pode ajudar, mas não faz nada”.

Atualmente com 21 anos, João Victor é especialista no arremesso de peso e no lançamento de disco, modalidades que abraçou por incentivo da técnica Walquíria Campello, do Instituto Superar. Logo após começar os treinamentos, ele ganhou uma medalha de ouro e dua de prata na etapa regional Rio/Sul do Circuito Paralímpico, em 2012, ano no qual conquistou vaga para outras competições nacionais.

O foco atual é a participação no Jogos Paralímpicos de 2016. Por isso, a rotina diária, que é puxada, começa às 6h30. São duas sessões de treinos. De manhã, no arremesso e lançamento. À tarde, na musculação. Entre um e outro, a viagem é feita de ônibus. “Isso realmente me deixa um pouco mais cansado”, diz.

João Victor, que é patrocinado pela Seguros Unimed, está totalmente dedicado ao esporte e defende a necessidade do investimento constante no atleta, mas não apenas nos vitoriosos. “A demora não impede as conquistas, mas precisa haver incentivo constante porque o esforço é tão importante quanto o talento. E tudo precisa começar muito antes das competições. É um trabalho que demora até dez anos. Os atletas de outros países recebem esse incentivo. E eles não são muito melhores do que nós”, afirma.

Quando questionado sobre a situação das pessoas com deficiência no País, é categórico. “É fácil de notar a falta de acessibilidade de forma geral”.

“Os atletas de fora não são tão melhores”, diz João Victor Teixeira. Foto: Divulgação

Laércio Martins (sem óculos) é guia oficial de Lucas Prado desde 2009. Foto: Divulgação

Laércio Martins (sem óculos) é guia oficial de Lucas Prado desde 2009. Foto: Divulgação

“A sociedade ainda não entende a pessoa com deficiência” – Correr uma maratona não é tarefa fácil, mesmo para quem está fisicamente preparado. É um desafio que exige união entre corpo e mente. Para vencer os 42,195 km desta prova, independente da colocação alcançada ao final, o atleta precisa de uma estratégia, deve conhecer as próprias limitações e usar todas as suas habilidades. A vitória, muitas vezes, está na conclusão do percurso. Essas mesmas características, na verdade, devem fazer parte de qualquer competição.

Para corredores com deficiência visual, a conquista de uma corrida, seja qual for o tamanho, é fruto do trabalho de equipe. E, neste caso, metade da responsabilidade sobre o desempenho deste time está sob os ombros do guia. “É mais do que um trabalho de guia visual. Você precisa dar orientações, manter o atleta calmo e concentrado, saber o seu limite o o dele”, diz Laércio Alves Martins, guia de Lucas Prado, velocista brasileiro.

A vida de Laércio no papel de guia começou quase por acaso, em 1998. “Eu estava em Porto Alegre para correr uma prova de 10 km e soube que um atleta com deficiência visual iria correr a maratona, mas o guia havia faltado. Então, me ofereci para a função. E foi esse atleta que me ensinou, mostrou que não basta correr ao lado”, comenta. Em 2005, participou de sua primeira prova oficial de atletismo paralímpico, em Lille (França).

“Ser guia é muito mais do que correr ao lado”, diz Laércio Martins (camisa amarela). Foto: Divulgação

Laércio é guia de Lucas Prado desde 2008, quando os dois correram juntos na semifinal dos 400 metros nos Jogos Paralímpicos de Beijing, na China. Os dois são patrocinados pela Seguros Unimed. Em 2009, a parceria se tornou definitiva e já apresentou muitos resultados, entre os quais duas medalhas de prata na Paraolimpíadas de Londres (2012), cinco medalhas em campeonatos mundias – Christchurch (Nova Zelândia) e Lyon (França), além de conquistas significativas Parapan de Guadalajara, no México.

“A sociedade ainda não entende a pessoa com deficiência. Antes de conhecer esse universo, eu também não tinha nenhuma informação. E, para compreender realmente tudo isso, somente fazendo parte. É a integração que vai mudar essa percepção”, diz Laércio.