Somos todos humanos e nada está acima dessa igualdade

Somos todos humanos e nada está acima dessa igualdade

Luiz Alexandre Souza Ventura

05 Maio 2014 | 10h36

Daniel Alves da Silva é atleta profissional, jogador de futebol, atua no badalado time espanhol Barcelona. É brasileiro, baiano, nascido em Juazeiro e, constantemente, é convocado para defender a seleção brasileira. Na verdade, faz bastante tempo, não é mais necessário apresentar Daniel Alves.

Na última semana, no entanto, ele mostrou que deve ser também chamado de professor, porque nos ensinou duas lições. A primeira, em campo, no estádio do Villarreal, quando pegou do chão e comeu uma banana atirada por um torcedor, imagem que já rodou o mundo e gerou uma infinidade de comentários, reportagens, artigos e manifestações contra o preconceito.

A ação de Daniel foi curta e direta, demonstrou equilíbrio, maturidade e, evidentemente, experiência, porque não deve ter sido a primeira vez que ele se viu diante desse tipo de agressão.

Todos já sabem da repercussão da campanha #SomosTodosMacacos, liderada por Neymar (que também dispensa apresentações), com a poderosa participação de todos os tipos de personalidades e celebridades. A ideia foi positiva: esbofetear o preconceito e mostrar que o sujeito que joga a banana é totalmente igual ao seu alvo e, por esse motivo, atirar a tal banana é de uma burrice sem tamanho.

É neste momento que surge a segunda lição de Daniel Alves. E a mais importante neste episódio. “Somos humanos e todos iguais. Acho que é isso que devemos defender”, disse o jogador, em entrevista ao programa Altas Horas no último sábado. Essa é a mais importante lição porque foi exatamente disso que todos esqueceram. Somos todos humanos. Qualquer ato preconceituoso parte da ideia de que dois seres humanos não são iguais, na medida em que cor da pele, nacionalidade, religião, poder financeiro, cargo ocupado, opção sexual, deficiência física, visual, auditiva ou intelectual são fatores determinantes para dar ‘valor’ a estes seres humanos.

A definição da palavra preconceito é, por si só, suficiente para mostrar que este não tem base em conhecimento ou reflexão. Surge sempre da falta de aprendizado. E quando não há aprendizado, compreensão, a porta se abre para o ódio, a intolerância e às bananas voando das arquibancadas.

A falta de aprendizado e compreensão gera, por exemplo, atitude como a descrita para este blog por Roseane dos Santos, atleta brasileira vencedora da medalha de ouro no arremesso de disco e de martelo nos Jogos Paralímpicos de Sidney em 2000 e recordista mundial em Athenas (2004). “Certa vez, eu estava com um grupo no clube onde treinava e fomos para a piscina. Havia uma senhora com a neta e, depois que algum tempo, percebemos que ela tirava a criança da água toda vez em que nós mergulhávamos”. Roseane é negra e teve a perna esquerda amputada aos 18 anos após ser atropelada por um caminhão.

Também foi o preconceito, ou a ação motivada pelo prejulgamento de um fato sem todas as informações em mãos, que colocou a deputada federal Mara Gabrilli, que é tetraplégica, em uma situação de constrangimento no aeroporto de Brasília. Sem os equipamentos necessários para embarcar a deputada e sua cadeira, além de mais três pessoas em situação semelhante, o terminal atrasou o voo em quase uma hora, gerou a revolta dos outros passageiros e teve início um tumulto, com muitas vaias. A deputada detalhou o ocorrido no Facebook. “Mesmo antes de entrar eu já ouvia a agitação e a gritaria que vinham do avião. Fiquei sabendo por um garotinho que viajava sozinho e sentou ao meu lado, que as pessoas, irritadas, acreditavam que o atraso se dava pela espera de algum político ‘figurão’. Na hora que entrei carregada rolou um silêncio”.

No começo deste ano, em outra manifestação de preconceito, uma modelo e seu namorado, usuário de uma cadeira de rodas, foram alvos de todo tipo de maldade e agressão verbal, incluindo debates nas redes sociais (muito esquecem que essas redes são abertas) sobre a vida íntima do casal, com base em, mais uma vez, julgamentos precipitados e falta de conhecimento, neste caso sobre a rotina de uma pessoa que usa uma cadeira de rodas.

Se a luta é contra o preconceito, que seja a favor da humanidade, porque nossas diferenças de cor da pele, religião, nacionalidade e opção sexual, ou nossas deficiências, provocadas pelas circunstâncias ou pela natureza, são irrelevantes. Pense no professor Daniel Alves. Pense que a defesa da humanidade, do ser humano, é o mais importante, é fundamental. Pense que somos todos humanos e nenhum tipo de ação, campanha, hashtag ou manifestação está acima dessa igualdade.

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