Universitários apresentam TCC em Libras sobre acesso de surdos ao emprego

Universitários apresentam TCC em Libras sobre acesso de surdos ao emprego

Trabalho de formandos da UniCarioca abordou as restrições no aproveitamento profissional e ao empreendedorismo dos surdos no Brasil, e os problemas de comunicação nas empresas por causa da falta de intérpretes. Dupla recebeu nota máxima. Leia entrevista com os estudantes e a professora orientadora. Acompanhe também o vídeo com a apresentação completa.

Luiz Alexandre Souza Ventura

03 Novembro 2016 | 10h04

Trabalho recebeu nota dez da bancada avaliadora. Imagem: Divulgação

Trabalho recebeu nota dez da bancada avaliadora. Imagem: Divulgação


Tuane Soares Xavier e Antônio Paulo dos Santos são alunos formandos do curso de Administração da UniCarioca. Ambos surdos, eles decidiram apresentar o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) em Libras (Língua Brasileira de Sinais), a partir de experiências pessoais vivenciadas no ambiante corporativo.

No trabalho, os estudantes do campus Rio Comprido fizeram uma avaliação sobre o aproveitamento profissional e o empreendedorismo dos surdos no Brasil, na comparação com outros países, e também sobre como a ausência de investimentos das empresas na contratação de intérpretes prejudica muito a comunicação do surdo com o ouvinte.

Orientados pela professora Rosa Valim, os alunos concluíram que, de forma geral, o mercado de trabalho ainda constrói uma relação direta entre a competência dessas pessoas e suas deficiências, ignorando, dessa forma, o conhecimento dos profissionais surdos e despediçando talentos que podem contribuir substancialmente para a evolução do negócio, realidade que torna fundamental a promoção de ações de conscientização dentro das organizações. O trabalho recebeu nota dez da bancada avaliadora.


Exemplos de que medidas inteligentes e simples podem solucionar questões importantes, principalmente de comunicação entre todos os tipos de pessoas presentes em uma empresa, surgiram até mesmo no dia a dia de desenvolvimento do TCC.

“Nas conversas presenciais mais aprofundadas sobre o trabalho tivemos um tradutor, mas conseguimos nos comunicar com mensagens de orientação por e-mail ou WhatsApp. E nossas conversas por escrito não tiveram intermediários”, explica a professora orientadora. “Todas as solicitações e sugestões que fiz aos alunos (por conversa presencial, por e-mail e por WhatsApp) foram atendidas. E isso mostra que nossa comunicação para orientação foi muito bem sucedida”.


Tuane Soares Xavier e Antônio Paulo dos Santos são alunos formandos do curso de Administração da UniCarioca. Imagem: Divulgação

Tuane Soares Xavier e Antônio Paulo dos Santos são alunos formandos do curso de Administração da UniCarioca. Imagem: Divulgação


Leia a entrevista com os alunos e a professora e acompanhe o vídeo da apresentação do trabalho.

Vencer Limites – Como está o mercado de trabalho para pessoas surdas? Como as empresas avaliam esses profissionais?

Tuane Soares Xavier – Os surdos se sentem excluídos da sociedade. Há muitas barreiras. E uma delas é a comunicação. Os ouvintes escrevem no papel quando querem se comunicar com o surdo, mas muitos surdos não têm paciência de ler o que está escrito devido à demora comunicacional. E muitos ouvintes não querem aprender Libras. O mercado de trabalho para pessoas surdas não está fácil e muitos encontram dificuldade para ingressar numa empresa. Queremos nos formar em uma universidade e temos o desejo de entrar em uma empresa de grande porte, mas existem poucas vagas abertas no mercado. Quando esse profissional é focado e ágil no trabalho, o tempo rende bastante e o patrão se sente satisfeito com o trabalho do funcionário surdo.

Antônio Paulo dos Santos – As empresas buscam um funcionário com um perfil mais desafiador. E, infelizmente, ainda não existe comunicação entre surdo e ouvinte, mas eles podem se comunicar por Libras livras ou até mesmo pela escrita.

Vencer Limites – Quais dificuldades surgiram durante a produção do TCC?

Tuane Soares Xavier e Antônio Paulo dos Santos – As ideias surgiram naturalmente, mas a nossa dificuldade foi passá-las para o papel, escrever na língua portuguesa.

Vencer Limites – Algo surpreendeu o grupo?

Rosa Valim – Eu tive a sensação de que eles se surpreenderam com duas coisas: primeiro com o fato de que o processo de desenvolvimento do TCC não era ‘um bicho de sete cabeças’. Mas relembro: desde o início eles trabalharam com muito comprometimento. No mais, surpreenderam-se (e eu também) ao constatarem a baixa autoestima de certos entrevistados – baixa autoestima esta, fruto do preconceito sofrido ao longo dos anos. Eles haviam levantado essa hipótese quando demos início aos trabalhos, mas uma coisa é você achar (aventar hipoteticamente) e outra é constatar a partir de entrevistas.

LIBRAS

Vencer Limites – Como reagiram as pessoas que assistiram à apresentação do TCC?

Rosa Valim – A apresentação despertou muito interesse de todos, pois eles são populares e bem entrosados com os outros alunos da faculdade. Acredito que aqueles que estavam presentes ao evento de apresentação dos TCCs de administração, e não os conheciam, ficaram igualmente interessados na defesa, pois uma apresentação em outra língua (Libras) – e com tradução simultânea – não é algo que se pode ver todos os dias.

Vencer Limites – Qual a avaliação de todos sobre o acesso de pessoas com deficiência ao mercado de trabalho, sobre a Lei de Cotas e sobre a Lei Brasileira de Inclusão?

Tuane Soares Xavier – Sou a favor da Lei de Cotas na empresa, pois é uma maneira de incluir o surdo no mercado de trabalho. Mas acredito que, se todos conhecessem a língua de sinais, não necessitaríamos de uma Lei de Cotas. Há surdos que não são demitidos da empresa por causa da Lei de Cotas. Infelizmente, em muitas empresas não há interprete de Libras, o que vai contra a Lei Brasileira de Inclusão.

Antônio Paulo dos Santos – A Lei de Cotas é um meio de inclusão do surdo no mercado de trabalho, entretanto nem todas as empresas, infelizmente, estão adaptadas para receber um profissional com deficiência auditiva. Há muitas instituições que não contam com intérpretes de Libras, por exemplo.

Rosa Valim – Os alunos chegaram à conclusão (ao final do trabalho) que existe sim preconceito, mas ressaltaram que o mercado brasileiro avançou a passos largos e hoje já é mais receptivo à diversidade. Entretanto, destaca-se, o mercado ainda não trata de forma igualitária surdos e ouvintes, relegando surdos a cargos técnicos, na maior parte das vezes (e sem grandes chances para desenvolvimento de carreira).

Isso se deve, em parte, à falta de paciência que muitos profissionais ouvintes, presentes hoje no mercado, têm para a comunicação que passe por tradutor ou por registro escrito. A prática da comunicação oral informal nas empresas acaba cobrando seu preço, gerando nas empresas menos diversidade, consequentemente menos pensamento complexo empresarial.

Estas leis surgem para salvaguardar direitos das pessoas. Afinal, somos todos iguais perante a lei, mas o mercado insiste em tratar pessoas com deficiência de forma diferente.

Sonho com um futuro de contornos diferentes, com um mercado mais inclusivo e aberto à diversidade, com um mercado consciente de que deficiência não é sinônimo de incompetência, com um mercado que saiba que colaboradores diferentes agregam para a criação de um ambiente com diversidade e, consequentemente, com criatividade. E, gostaria de lembrar aqui que criatividade, hoje, é fundamental nas empresas, para que elas possam lidar com as complexas demandas da pós-modernidade.



 

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