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41% das cidades do País sofreram desastres naturais de 2008 a 2012

Wilson Tosta - O Estado de S. Paulo

30 Abril 2014 | 10h 00

Estudo aponta 2.276 municípios afetados por inundações, enxurradas e/ou deslizamentos de 2008 a 2012; 1,5 milhão ficou fora de casa

Atualizada às 22h07

RIO - O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) constatou que 40,9% dos municípios brasileiros sofreram de 2008 a 2012 pelo menos um desastre natural. Foram 2.276 cidades atingidas por inundações graduais, enxurradas bruscas e/ou deslizamentos de encostas. O Perfil dos Municípios Brasileiros 2013 (Munic 2013), lançado nesta quarta-feira, 30, mostra que enchentes graduais deixaram 1.406.713 pessoas desabrigadas (definitivamente sem casa) ou desalojadas (temporariamente sem moradia).

"As características físicas dos municípios, como clima e padrão de distribuição das chuvas (...), são algumas das condições que, aliadas aos padrões de ocupação e ao planejamento territorial, interferem nos resultados das respostas (...)", diz a pesquisa. "Outros fatores determinantes são a interferência direta na permeabilidade da água no solo, tais como as grandes áreas com ruas asfaltadas e superfícies cimentadas, ou impedimentos ao escoamento superficial da água, como sistemas de drenagem deficientes."

As inundações bruscas - como a que arrasou a Região Serrana do Rio em dois dias, em janeiro de 2011 - foram o tipo de desastre que mais aconteceu no País. Ao todo, 1.574 municípios registraram 13.244 ocorrências. Causaram 777.546 desabrigados e desalojados. Depois, ficaram as enchentes graduais em 1.543 municípios, com 8.942 casos. Foram seguidas dos municípios atingidos por deslizamentos de encostas (895). Essas resultaram em 303.652 cidadãos sem casa, por algum tempo ou de forma definitiva. O IBGE adverte não ser possível somar os números de vítimas dos três tipos de evento. Em algumas cidades, aconteceu mais de uma tragédia atingindo as mesmas pessoas. Em 469 municípios, as três se sobrepuseram.

Vítimas. O cheiro de mofo e as marcas de água na parede da casa de Naira Cristina da Rocha, de 43 anos, por exemplo, são os rastros do pesadelo que ela e as duas filhas viveram depois das chuvas do fim de janeiro. O córrego na frente da pequena casa na Rua Tuffi Matar, em Americanópolis, zona sul de São Paulo, transbordou e levou quase tudo que elas tinham. A família ficou desalojada e teve de passar 20 dias na casa de um vizinho. "Foi um desespero. O quintal parecia piscina. Tivemos de nadar com ratos mortos para tentar recuperar algo", disse Naira.

Apesar das inundações serem frequentes na região, Naira descreve a de janeiro deste ano como a pior que já viu na rua. Algumas casas para baixo, Maria José da Silva, de 77 anos, vive sozinha. De cadeira de rodas há oito anos, por causa de uma trombose, a idosa precisa da ajuda de vizinhos quando começa a chover forte. "Quando vejo que a água está entrando vou sozinha até o quarto que é um pouco mais alto. Eu grito para que venham me ajudar e me colocam em cima da cama."

O trabalho do IBGE toma por base informações prestadas pelas prefeituras. De março a agosto de 2013, pesquisadores do instituto perguntaram a cada prefeito se, no período de 2008 a 2012, a cidade que governa registrou um dos três tipos de desastre investigados. Também indagaram em qual ano os eventos naturais examinados provocaram maior impacto - medido pelo número de edificações atingidas. Descobriram que 2009 foi o ano de maior impacto das inundações graduais, e 2011, das enxurradas bruscas.

O Estado com maior número de deslizamentos foi Minas, com 225 casos, seguido de São Paulo, com 121, Santa Catarina, com 118, Rio, com 70, e Espírito Santo, com 48. A Munic 2013 constatou ainda que, de 2008 a 2012, 1.113 municípios brasileiros (20%) apresentaram processos erosivos. Trata-se de um dos fatores que ajudam a provocar inundações. Em 868 municípios, os dois fenômenos ocorreram juntos.

Tratamento específico. A pesquisa Munic ainda constatou que 90% das cidades tinham, em 2013, algum órgão municipal para tratar da área ambiental. Em 2002, esse porcentual era de 67,8% e, em 2009, de 84,5%. Só três Estados tinham em 2013 estruturas ambientais municipais em todas as suas cidades: Acre (22), Amapá (16) e Espírito Santo (78).

A pesquisa também diz que, em 2013, 21,5% dos municípios já elaboravam a Agenda 21. Trata-se de um programa de ação voltado para o desenvolvimento sustentável com políticas públicas. Houve crescimento em relação a 2009 (19,9%) e 2012 (18,1%), mas recuo em contraste com o ano de 2002 (29,7%). / COLABOROU LAURA MAIA DE CASTRO