500 mil casas de SP têm 1 só morador

Embora a média da capital paulista, de 14,1% dos lares, seja menor que a de outras grandes cidades, situação já preocupa especialistas

Edison Veiga e Rodrigo Burgarelli, de O Estado de S. Paulo,

23 Julho 2011 | 23h21

Em São Paulo, 503.971 pessoas vivem sozinhas – em 14,1% dos lares. Embora seja praticamente a soma de duas capitais, Palmas (TO) e Boa Vista (RR), a média ainda é baixa se comparada com grandes cidades europeias ou americanas – Nova York, por exemplo, tem 50% dos domicílios com apenas um morador.

 

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Mesmo assim, o aumento de pessoas morando sozinhas na capital já causa preocupação entre psicólogos. "Em um mundo pós-moderno, de cultura massificada, a solidão é um sentimento que está aumentando", diz Sueli Damergian, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).

 

Ela explica que a solidão não está necessariamente ligada ao fato de não se viver com alguém. Mas a dificuldade dos jovens de manter diálogos enriquecedores e trocar experiências verdadeiras torna mais difícil a vida de quem mora só. "A solidão é um vazio de bons objetos internos. Quem não internalizou figuras amorosas, como pai, mãe ou amigos, tem muito mais dificuldade para ficar sozinho sem sentir angústia ou solidão".

 

Outras escolas têm razões um pouco diferentes para explicar por que certas pessoas não se adaptam à vida solitária. Os existencialistas, por exemplo, atribuem a solidão à dificuldade de aceitar a “finitude” da vida – ou seja, compreender a iminência da morte. "Você pode ser uma companhia boa para você mesmo se tiver uma relação positiva com a vida e tentar aproveitar o tempo do modo mais significativo possível.Mas, se você tenta fantasiar ou esconder essa verdade, aí a relação não é boa”, afirma o professor de Psicologia da PUC-SP Ari Rehfeld.

 

Segundo Rehfeld, outro fator determinante para a solidão é o sentimento de pertencimento a um grupo. “Em uma cidade grande como São Paulo, é difícil não se deixar arrastar pela massificação. Você tem de ler o que os outros leem, assistir aos filmes que os outros assistem, ir ao restaurante que os outros vão. Já em uma cidade pequena, onde as pessoas se sentem mais importantes mesmo que seja dentro de um pequeno grupo, a vivência comunitária é muito maior.”

 

Sós. Para grande parte, trata-se da privacidade e da liberdade de fazer o que bem entender na hora que quiser. "Morando sozinha, não preciso nem me preocupar em colocar roupa em casa", diz a atriz Rachel Ripani, de 35 anos, que vivia com os pais até se mudar para casa própria, na Vila Mariana, em novembro.

 

Mas há uma queixa em comum com outros "sozinhos": a falta de companhia na hora dos problemas. "Sempre é minha vez de lavar a louça. E já aconteceu mais de uma vez de eu me esquecer de passar no mercado e não ter nada para comer", conta ela. "Mas ruim mesmo é a falta de companhia. Quando se mora com alguém, se tem ao menos dez minutos na hora do café para saber um pouco da vida da pessoa. Eu conversava muito com meu irmão”, recorda Rachel. “Parece pouco, mas melhora seu dia. No fundo, a gente se preocupa muito com a vida dos outros e eu acho estranho chegar em casa e não ter ninguém para conversar. Odeio comer sozinha.”

 

Viúvo desde 1997, o poeta Paulo Bomfim, assessor da presidência do Tribunal de Justiça, já não se vê tão solitário aos 85 anos. “Vivi de forma tão intensa e convivi com pessoas tão fascinantes que guardo lembranças imorredouras”, afirma. A organização da casa, das compras, fica por conta de sua funcionária Lúcia. “Um anjo da guarda meu, que trabalha todos os dias aqui.” Mas as noites são silenciosas, sem nenhuma companhia. “Sinto profundas saudades de minha Emy (sua mulher)", admite Bomfim.

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