Kathia Tamanaha/AE-7/9/1999
Kathia Tamanaha/AE-7/9/1999

A despedida de um símbolo

Em depoimento exclusivo, ajudante de ordens relata momentos finais da luta de Covas contra o câncer

Alberto Bombig, O Estado de S.Paulo

06 Março 2011 | 00h00

Em 1992, o jovem tenente da Polícia Militar José Roberto Rodrigues de Oliveira viu dois colegas de farda morrerem baleados por um homem que havia invadido uma casa em Pirituba, zona norte de São Paulo. Eram encontros frequentes com a morte, como esse, que motivavam a cada dia o oficial a tentar trocar a violência das ruas pelo trabalho um tanto burocrático na Casa Militar do Palácio dos Bandeirantes.

Quatro anos depois, Oliveira chegaria à sede do Executivo paulista, localizada no outro extremo da capital do Estado, para atuar na segurança do então governador Mario Covas. Como no poema de Bandeira, a "indesejada das gentes", no entanto, também o acompanharia até o novo endereço. O destino o escolheria para, no dia 6 de março de 2001 - há exatos dez anos -, testemunhar o que ele define como "momento histórico" -, a morte do governador em exercício do Estado de São Paulo, após uma luta franca contra o câncer que se tornou pública e mobilizou o País.

Na madrugada daquele dia, Oliveira dava plantão no Instituto do Coração (Incor), em frente ao quarto onde Mario Covas Júnior, nascido em 21 de abril de 1930, em Santos, travava sua batalha final. O câncer na bexiga havia sido diagnosticado três anos antes, logo após a reeleição do governador, que desde então se viu obrigado a seguir uma rotina de tratamentos, crises e internações hospitalares.

Só os modernos aparelhos médicos emitiam sinais de que o paciente ainda resistia naquela madrugada em São Paulo, até que, às 5h32, Oliveira assistiu, conforme seu relato, ao término do embate - o momento em que o coração do governador parou de bater.

"Vi o monitor do computador, que mostra pressão, pulsação, de repente fazer piiiiiiiiii... Eu falei para o médico, tinha um médico intensivista que ficava no corredor observando esses dados aí, de pressão, essas coisas: "Doutor, é um momento histórico". Ele respondeu: "Realmente". Até me arrepio", conta com exclusividade ao Estado Oliveira. "De repente, (os sinais vitais) voltam (a aparecer no aparelho), e eu falei: "Doutor, está voltando!". E ele: "Não, não, isso é assim mesmo, vai, volta, mas, infelizmente, ele acabou de falecer", completa o policial, hoje ajudante de ordens do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), então vice de Covas e que, àquela altura, já estava no comando do Estado.

Não deu tempo de Oliveira externar emoção. Sua função exigia que ele comunicasse imediatamente o chefe da Casa Militar que, em seguida, informaria Alckmin da morte de Covas.

Foi o que ele fez. Somente horas depois, quando já era dia, o dever deu lugar ao sentimento. "Nós descemos a (avenida) Rebouças (transportando o corpo) com o carro (funerário). Realmente, esse momento é único (...) Vários helicópteros voando, a rua parando, os seguranças chorando porque ele não era parente, mas a gente viveu como se fosse, nós vivemos a doença dele e procuramos, da melhor forma, minimizar os problemas dele. É um ser humano que estava ali", conta o hoje major, aos 47 anos.

Treinamento. De fato, todos os oficiais da equipe de segurança de Covas foram obrigados a passar por um treinamento de enfermagem para acompanhá-lo, pois o governador se recusou a sair de cena para se dedicar exclusivamente ao tratamento. Pelo contrário. Mesmo debilitado, ele tentava manter a rotina do cargo. "Ele estava realmente no comando do Estado", relembra Oliveira. "Você percebia nele a vontade de querer que as coisas melhorassem. Ao mesmo tempo, você percebia a fragilidade, porque a doença ia avançando."

A insistência de Covas em não sucumbir à doença foi acompanhada pela imprensa. Certa vez, ele chegou a desabafar com os jornalistas: "Eu estou para morrer, podem publicar", bem ao seu estilo que transitava entre o rabugento e o sincero. No início de 2001, o câncer havia atingido as membranas que revestem a medula cervical e o cérebro, e Covas pediu à equipe de segurança para ir até Bertioga, no litoral paulista. "Vamos até a praia porque é última vez que eu vou vê-la", disse ele, segundo Oliveira.

No helicóptero. No litoral, ele teve uma recaída, e a família mandou Oliveira ir ao Guarujá buscar o médico David Uip, que determinou sua transferência imediata ao Incor, onde se submeteria ao tratamento quimioterápico. O governador, sua mulher, Lila, a filha Renata, o médico e o policial foram de Bertioga para São Paulo no maior helicóptero do governo, que pesa cerca de cinco toneladas. Diante da gravidade do caso, Uip disse que o piloto deveria pousar direto no heliponto no Hospital das Clínicas, ao lado do Incor, cuja capacidade não ia além de três toneladas.

"O piloto manteve o helicóptero ligado sem soltar todo o peso (ao pousar). Nós tiramos ele (Covas) no braço. Era um momento em que não tinha o que fazer. Era emergência mesmo", relembra Oliveira. Segundo ele, momentos antes do pouso, Covas encontrou tempo para brincar. "Ele disse para a dona Lila e para a Renata saírem correndo imediatamente porque o prédio ia despencar." A mesma história é contada por Alckmin para sublinhar o "estilo Covas".

O prédio do hospital resistiu ao peso da máquina, mas Covas desabou, pela primeira vez, em frente a Oliveira. "Realmente eu vi uma fragilidade, ele chorando com a dona Lila porque estava morrendo", relembra. "Foi a última vez que ele falou", conta.

Na quarta-feira, 7 de março, Oliveira voltaria de novo ao litoral, dessa vez na cabine de um caminhão do Corpo de Bombeiros. Na carroceria viajava o corpo de Mario Covas para ser sepultado em Santos. Perto do mar.

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