WERTHER SANTANA/ESTAD?O
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A história de quem nasce sem direito a ter uma pátria

Sem a cidadania dos pais nem do lugar onde nasceram, Maha e os irmãos vieram pra o Brasil

Pablo Pereira, O Estado de S. Paulo

16 Outubro 2016 | 04h00

As ondas internacionais de imigração dos últimos anos provocaram movimentos de populações inteiras a partir da África e do Oriente Médio, drama que chocou o mundo com as imagens de mortos em naufrágios e barcos apinhados rumo à Europa. No meio desse êxodo, um contingente especial em deslocamento chamou a atenção: os apátridas. Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), são cerca de 10 milhões de pessoas em busca de uma nacionalidade. Foi neste ambiente que Maha Mamo, de 28 anos, e os irmãos dela, Edward, de 26, e Souad, de 30, nascidos no Líbano, filhos de pais sírios, iniciaram a procura por uma pátria para chamar de sua – e vieram parar no Brasil.

“Eu agora meio-existo”, disse Maha ao Estado na semana passada, em entrevista em Ibitinga, interior de São Paulo, onde trabalha com exportação e importação de produtos agrícolas na empresa Agro Betel. Até 2014, quando foi deportada do Líbano após optar por lutar por uma cidadania no Brasil, ela não existia. “Estou aqui como refugiada, mas ainda sou uma apátrida”, afirmou. De acordo com dados do Ministério da Justiça, o Brasil tem hoje 1.797 apátridas, 1.064 vivendo no Estado de São Paulo (mais informações no gráfico abaixo).

 

 

A dureza da realidade brasileira, porém, não demorou a lhes apresentar credenciais. Na noite do último 29 de junho, por volta de 22h30, um balaço no peito de Edward, na Rua Sami Sirihal, em um assalto a poucos metros de onde morava em Belo Horizonte, acabou com os sonhos do rapaz. Atacado por três adolescentes, dois homens e uma mulher, que queriam roubar o carro no qual ele estava com uma amiga, Eddy foi levado para o hospital, mas morreu.

Testemunhas do episódio relatam que, na hora do tiro, o rapaz não teria entendido a ordem de entregar as chaves do carro. Dias depois, a Polícia Militar localizou os suspeitos do assassinato. Um dos rapazes teria admitido o disparo.

A Polícia Civil abriu um “procedimento de apuração de ato infracional análogo a latrocínio”, termo usado para crime de morte durante roubo quando os acusados são menores de idade. Concluído em agosto, o caso foi encaminhado para o Juizado da Infância e Juventude de Belo Horizonte.

Maha recebeu a notícia da tragédia com Eddy, que ela chama de “meu anjo”, na madrugada do dia 30. Ela estava em Ibitinga quando o telefone tocou e era uma amiga de Beirute informando: “Eddy não está bem”. Foi Maha quem teve de tratar dos trâmites legais para levar o corpo de Eddy para Beirute, onde foi enterrado. “Minha mãe hoje não gosta do Brasil”, emenda.

No quarto dela na fazenda em Ibitinga, onde trabalha e divide alojamento com colegas, Maha mantém a foto do irmão na penteadeira. Olhando a imagem, diz que depois do assassinato passou a ver o mundo com outros olhos. “O tempo está passando muito rápido. Tenho de trabalhar e conseguir logo a nacionalidade, que era um sonho do meu irmão.” Maha fala árabe, armênio, francês, inglês e, nos últimos dois anos, dedica-se a aprender português. Habituada a não ter nada de graça, conhece desde criança os atalhos necessários para a convivência com preconceitos e entraves burocráticos. Apátridas não têm acesso a serviços públicos, como educação e saúde, sofrem restrições para viajar por não terem passaporte e não constam dos orçamentos nacionais. Alérgica, era sempre recusada em hospitais libaneses quando tinha crises. O jeito era se virar para sobreviver.

O pai dela, Jean, um caminhoneiro, cristão, e a mãe, Kifah, dona de casa, muçulmana, tiveram de deixar a Síria, onde é proibido o casamento de pessoas de religiões diferentes. Em Beirute, vivendo num apartamento de quarto, sala e banheiro, o casal teve os três filhos – todos na mesma condição de sem pátria.

Na adolescência, o destaque alcançado por Maha no esporte escolar – basquete e atletismo – também acabou em frustração. Não podia competir. As colegas viajavam com o time da escola sem ela. Maha não existia, não podia sair de Beirute. Mas as barreiras, admite, serviram para reforçar as defesas. Atenta, parece ter o comércio no sangue. Conta que conseguiu cursar uma escola de negócios e trabalhou em call centers, foi vendedora de computadores e assistente de direção em empresa de comércio exterior. “Eu gostava de sair com os amigos, me divertir”, lembra, sem esconder o sorriso. E foi pegando gosto no mundo.

Em 2014, inconformada com a condição de não ser de lugar nenhum, a jovem distribuiu cartas para representações diplomáticas em Beirute pedindo ajuda para encontrar uma pátria. Maha tentou diversos países, mas nada. Foi às embaixadas de México, Canadá e Suíça. Era entrevistada, analisada, ouvia promessas, mas nunca resposta positiva. Sabendo da investida da irmã, Souad também tomou coragem.

As coisas começaram a mudar quando a consulta diplomática de Souad chegou à Embaixada brasileira, que demonstrou interesse em acolher a engenheira de computação. E a porta aberta pelo Itamaraty para Souad logo foi usada também por Maha e Eddy.

Com o Brasil na cabeça, eles deixaram a região onde cresceram em meio a bombas e conflitos armados – guerra civil no Líbano, nos anos 90, e, atualmente, o fanatismo religioso e a destruição de cidades inteiras na Síria, a pátria paterna.

Amigos. Na escolha, foram incentivados por amigos libaneses que estiveram no Rio na Jornada Mundial da Juventude, em 2013, e receberam abrigo de famílias brasileiras. Em abril de 2014, Souad chegou para morar em Belo Horizonte com uma família de católicos, os Fagundes, no bairro Serrano, onde fica a paróquia de São Dimas, local que já havia abrigado os libaneses da Jornada.

“São meninos de uma alegria contagiante”, conta Emilene Fagundes, de 39 anos, filha da família que hospedou os Mamos na capital mineira, onde até hoje vive Souad. Em setembro daquele ano, com documentos brasileiros provisórios, Maha e Eddy tiveram 48 horas para deixar o Líbano. Foram morar com a irmã.

Para atingir seu objetivo, Maha se diz disposta a ir ao presidente da República, Michel Temer. Ela acredita que Temer, por ter ascendência libanesa – há até rua com o nome dele em cidade do Norte do Líbano –, pode se sensibilizar com a apatridia. “Ele já falou na ONU que iria ajudar”, diz Maha. “Quero falar para o presidente mudar a lei que exige que a pessoa fique 15 anos esperando. É muito tempo.” 

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