A inevitabilidade de uma nova parceria

O que sobressai da visita, diz o embaixador, é o surgimento de um inédito sentido de desinibida, ativa e prolífica parceria entre os dois países

Roberto Abdenur, O Estado de S.Paulo

21 Março 2011 | 00h00

Quando embaixador em Washington, costumava eu fazer amistosa provocação a interlocutores americanos. Citando famosa frase da ex-secretária de Estado Madeleine Allbright no sentido de serem os EUA a única potência "indispensável" no mundo, dava eu outra forma a tal afirmação. Dizia não ter tanta certeza quanto à "indispensabilidade", mas que de algo eu estava convicto: os EUA são, inegavelmente, "inevitáveis". Onde quer que se esteja, qualquer que seja o tema em questão, lá se topará com os EUA, sua influência, seus interesses Indo mais adiante na provocação, lembrava eu a infeliz frase de um antigo embaixador nosso, para quem "o que é bom para os EUA é bom para os EUA". E a invertia, para dizer que, nos dias de hoje, "o que é bom para o Brasil é bom para os EUA".

Com essa afirmação procurava eu mostrar que, dado o devido desconto, têm hoje os EUA muito a ganhar com maior diálogo e entendimento com o Brasil. E com ativo apoio à ascensão do país a níveis ainda mais elevados nas instâncias decisórias sobre as grandes questões internacionais.

Esses episódios algo anedóticos me vêm à mente ao constatar o extraordinário significado da visita de Obama. O balanço da dezena de acordos e iniciativas acordadas é, em si mesmo, notável pela amplitude da cooperação agora encetada em setores de decisivo interesse para os dois lados. Mas o que sobressai do conjunto geral da visita é o surgimento de um inédito sentido de desinibida, ativa e prolífica parceria entre os dois países.

Enquanto representante do Brasil em Washington, e em artigos publicados já depois de minha saída do Itamaraty, propugnava eu por uma nova abordagem do relacionamento. Uma abordagem de sentido verdadeiramente estratégico, que expressasse de forma construtiva o fato de haver o relacionamento bilateral passado por notável evolução, adquirindo - graças à estabilidade, abertura, dinamismo e extroversão da economia brasileira - antes inexistente sentido de mutualidade, interdependência e entrelaçamento. Em suma, uma nova dinâmica, que a rigor vinha configurando verdadeira mudança de paradigma nesse relacionamento. Uma mudança na natureza mesma do relacionamento.

Constato agora, com satisfação, que a visita foi muito além do que poderia imaginar mesmo o mais ardoroso propugnador da superação de ultrapassados antagonismos e do lançamento de renovada aproximação. Causa grata impressão, até certa surpresa, o emprego por ambos os mandatários de uma em certo sentido ousada e mesmo criativa semântica. Dilma Rousseff fala de uma "aliança" que deva pretender-se "estratégica". De "um futuro comum", a ser objeto de uma "construção entre iguais". Indica a educação e a inovação como "centrais" às "futuras parcerias". Com propriedade, assinala que a construção de uma relação "de maior profundidade" exige a abordagem franca de "nossas contradições" no plano financeiro e comercial. E, em hábil colocação, indica que, ao contrário do que se fez com o G-20 à guisa de reação a posteriori à grave crise econômica de 2008, no campo da paz e da segurança a reforma do Conselho de Segurança da ONU configura "oportunidade de nos anteciparmos".

Obama, de sua parte, proclama o Brasil como "liderança global", situando-nos entre os "centros de influência do século 21". Saúda o "sentido estratégico" de novas parcerias setoriais. Afirma que os EUA não apenas reconhecem, mas "apoiam" com entusiasmocrescimento do Brasil e sua "voz cada vez mais forte" nas instituições financeiras internacionais. Prossegue para tocar em tema de especial interesse para o Brasil: cabe "garantir que as novas realidades do século 21 sejam refletidas nas instituições internacionais, como mencionou a presidente Dilma, incluindo as Nações Unidas, onde o Brasil aspira a um assento no CSNU"; ... "os EUA vão continuar trabalhando com o Brasil e outras nações nas reformas que tornem o Conselho de Segurança mais efetivo, eficiente e representativo, e avançaremos em nossa visão compartilhada de um mundo mais seguro e pacífico".

No Comunicado Conjunto, manifesta Obama seu "apreço à aspiração do Brasil de tornar-se membro permanente do Conselho de Segurança", reconhecendo "as responsabilidades globais assumidas pelo Brasil". No comunicado, surpreende a criativa expressão de Brasil e EUA como "parceiros globais".

Em suma: é cedo para considerar esta visita um fato histórico. Mas não há como negar que ela configura largo salto para a frente, uma quase revolução na natureza, na dinâmica e no sentido de parceria e comunidade de interesses e responsabilidades entre os dois países. Nunca tive pretensão de ser profeta. Mas, claro, alegra-me ver que o Brasil agora reconhece a "inevitabilidade" do encontro com os EUA - e a este imprime sentido pragmático e profícuo. E que os EUA de Obama, de seu lado, reconhecem que muito do que é bom para o Brasil é bom para os EUA..."

FOI EMBAIXADOR DO BRASIL NO EQUADOR, NA CHINA, NA ALEMANHA, NA ÁUSTRIA E NOS ESTADOS UNIDOS

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