Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

A TERRA CASTIGADA PELA SECA E PELA MICROCEFALIA

Cidade no sertão pernambucano teve 11 casos em três meses

Clarissa Thomé e Wilton Junior, ENVIADOS ESPECIAIS A ITAPETIM (PE), O Estado de S. Paulo

19 Dezembro 2015 | 16h33

A cidade no sertão pernambucano em que nos últimos três meses surgiram 11 casos de recém-nascidos com suspeita de microcefalia é desprovida de estrutura adequada para assistência e acompanhamento médicos. Em Itapetim, no Vale do Pajeú, divisa com a Paraíba, não chove há quatro anos. É a pior seca das últimas cinco décadas. Não há água em lugar nenhum, a não ser em recipientes os mais diversos, como baldes, vasilhames e até panelas. O armazenamento improvisado de água dos carros-pipa em qualquer lugar se mostrou um equívoco. Nos locais de acúmulo, prolifera o Aedes aegypti, que tem disseminado zika.

A possibilidade de tantas crianças, em uma cidade com menos de 14 mil habitantes, adquirirem sequelas no desenvolvimento e precisarem de acompanhamento médico intenso parece mais cruel diante da aridez local. A miséria é visível onde se olha. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de Itapetim é de 0,592, a 99.ª posição entre os 185 municípios de Pernambuco. Está na 4.331.ª posição no IDH nacional entre as 5.565 cidades do País.

Ana Paula dos Santos, de 19 anos, não sabe como fará para garantir que a filha, Jamile, de 3 meses, receba o tratamento adequado, caso a suspeita de má-formação craniana se confirme. Tudo é difícil onde mora, a 15 km do centro. Ela e o marido, agricultores, perderam a plantação de milho e feijão. As poucas cabeças de gado e bode foram vendidas antes que os animais morressem de fome e sede. Para buscar água, é preciso caminhar duas horas com lata na cabeça. “Dinheiro só tem quando meu marido faz bico. Mas a diária que pagam aqui é de R$ 40.”

Quando mais nova, andava quase 6 quilômetros para subir em caminhão, com outras 50 crianças, a fim de chegar à escola (estudou até o 9.º ano). Ainda não há transporte público. Toda quinta-feira, ela se equilibra na garupa da moto do marido, com a filha nos braços, para vencer a distância entre o Sítio Pedra D’Água, na zona rural, e a feira do centro de Itapetim, onde paga mais barato por alimentos do que nos mercadinhos perto de casa. 

Como Jamile, mais quatro bebês nasceram desde setembro com perímetro cefálico menor ou igual a 32 centímetros, característica do portador da má-formação craniana, de acordo com protocolo da Organização Mundial da Saúde (OMS). Os outros seis têm 33 centímetros e foram identificados como possíveis microcéfalos quando esse era o critério do Ministério da Saúde, alterado em meados deste mês.

Jamile estava no posto de saúde para tomar vacina quando a enfermeira viu o perímetro de 32 centímetros. “Disse que minha filha tinha de ir para Recife. Não explicou direito. Fiquei logo nervosa; pensei que fosse coisa pior. O pessoal aqui de casa é que foi me acalmando, que a cabecinha dela é normal. Ela é muito sabida para ter essa doença”, disse Ana Paula, que tem evitado assistir à televisão. “Sei que tenho de ir para Recife, mas não tenho condições. A alimentação é muito cara lá.”

A secretária municipal de Saúde, Jussara Araújo, diz que os 11 casos são tratados como suspeitos. A cidade enfrentou surto de dengue nos primeiros meses do ano, doença cujos sintomas se confundem com zika. 

No dia 27, mães e bebês seguirão em van da prefeitura até Recife, a 360 km de Itapetim. Na capital, serão examinadas por médicos. Ficarão hospedados em casa alugada pela prefeitura por R$ 2 mil mensais. O imóvel, ex-seminário de padres, tem cinco quartos e dois salões usados como dormitórios coletivos. Ali ficam pacientes que precisam de tratamento de alta complexidade, inexistente em Itapetim e demais cidades do sertão. O custo com deslocamento de pacientes e manutenção da casa é de R$ 18 mil por mês. “Um médico, de uma só especialidade, sairia por isso. E eu não teria todos os equipamentos que há no Recife”, disse o prefeito Arquimedes Machado (PSB).

As crianças passarão por tomografia no Hospital Universitário Oswaldo Cruz. Em caso de microcefalia em decorrência da zika, o exame mostra calcificações no cérebro - espécie de cicatrizes deixadas pelo processo inflamatório provocado pelo vírus. Quanto mais extensas as cicatrizes, mais graves serão as sequelas, como dificuldades de locomoção e aprendizado.

Nasceu pequena. Para Ana Paula, a filha nasceu pequena. Também é esse o pensamento da professora Maiara Isabel Gonçalves Amaral, de 22 anos, mãe de Isabella Louyse, de 2 meses, que buscou na internet as explicações que não recebeu no posto de saúde. “Tive desnutrição na gravidez. Só engordei 7 quilos. Ela nasceu com 45 centímetros de comprimento, 32 de perímetro cefálico e 2,570 kg. Tem de levar essas questões em conta”, afirma.

“Se confirmar a microcefalia, vamos fazer de tudo para ela se tratar e se curar. Mas a gente está pedindo a Deus para dar tudo certo no exame”, diz o agricultor Marco Edmilson Siqueira, de 26 anos, pai de Valentina, de 16 dias, que nasceu com 31 centímetros de perímetro cefálico. Ele e a mulher, Thamires Silva, de 22, se conheceram em São Paulo, onde buscavam melhores condições de vida. O casal se mudou para Itapetim quando o pai de Marco morreu.

Convencimento. Nem todas as mães querem ir ao Recife. Algumas tiveram de ser convencidas pelos profissionais da prefeitura com o argumento de que não há neuropediatra nem tomografia na região. “Falaram que tem algo no pezinho dela”, disse Liana Alves, de 25 anos, mãe de Isabela, de 20 dias. “Falaram, falaram, mas eu não entendi nada.” A menina nasceu com 32 centímetros de perímetro cefálico.

Mais conteúdo sobre:
Seca microcefalia: zika vírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

TORNEIRAS DE ITAPETIM ESTÃO SECAS HÁ 2 ANOS

ITAPETIM - As torneiras de Itapetim estão fechadas desde 20 de setembro de 2013, dia em que as barragens de Caramucuqui e Mãe D’Água secaram. As famílias vivem da passagem do carro-pipa, que enche 42 caixas instaladas pela prefeitura. A fila é formada cedo; os lugares, marcados por baldes. Quando o veículo chega, tem início o vaivém de gente. Os mais abastados colocam até 30 baldes. Não há revezamento com os que têm dois ou três para encher. Volta e meia sai briga. </p>

Clarissa Thomé, ENVIADA ESPECIAL, O Estado de S. Paulo

19 Dezembro 2015 | 16h53

Grávida de 9 meses, a agente de saúde Adriana Leite Menezes, de 34 anos, costuma leva um balde na cabeça. Outro vai na mão da filha, de 3 anos. “Tem de começar cedo, fazer o quê?”, diz Adriana, com humor. Fábio Santos, de 42 anos, já foi “pipeiro”, como são chamados os motoristas dos caminhões de água. “As pessoas entravam na frente do caminhão. ‘Deixa um pouco de água aqui, moço’. Mas às vezes o carro já estava vazio. É de cortar o coração.”

Além das caixas, há poços comunitários. Um deles fica na frente da casa de Francisca Mota Diniz, de 71 anos. “É a sorte da gente”, diz. A água, salobra, serve para lavar roupa, dar descarga no banheiro, limpar a casa. Ela paga R$ 100 para encher a caixa d’água com 4 mil litros - é para beber e cozinhar. Dura três meses. Às vezes menos, quando o filho Fernando, de 48 anos, precisa de ajuda. “Não compro porque não tenho salário”, afirma ele. A seca acabou com os empregos. A prefeitura é a principal empregadora - são 700 funcionários. Para evitar demissões, o prefeito Arquimedes Machado (PSB) cortou 30% o salário - de R$ 10 mil para R$ 7 mil - e reduziu custeio de secretarias.

A seca transformou a paisagem. O Rio Pajeú já não despeja no São Francisco, como cantava Luiz Gonzaga no clássico Riacho do Navio. O gado pasta no que foi o leito, onde cresceram juremas. Essas árvores, já sem folhas, dominam as margens das estradas. Um ou outro juazeiro mais resistente enfeita o cenário. Não há placas que indiquem que o rio famoso corria naquele trecho. Quem não conhece a geografia do lugar, passa pelo terreno árido sem se dar conta de que já foi possível nadar ali.

A seca mudou a decoração das casas. Baldes e tonéis ocupam salas e cozinhas. Caixas d’água de mil litros - compradas a R$ 350 - estão nas garagens e nas calçadas. A agricultora Maria do Socorro Ribeiro, de 49 anos, tem uma dezena de vasilhames na casa e no quintal. A maioria sem tampa. Em abril, o índice de infestação do Aedes aegypti chegou a 13% dos domicílios. Uma ideia simples fez baixar para 2,4%: milhares de piabas foram colocadas nos reservatórios. Os peixes se alimentam das larvas do mosquito.

Mais conteúdo sobre:
Itapetim Microcefalia zika vírus seca

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.