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Abdelmassih diz que fuga foi ideia da mulher e alega falta de provas

Sérgio Quintella - O Estado de S. Paulo

21 Agosto 2014 | 00h 01

A policiais civis e à 'Rádio Estadão', ex-médico relatou sua rotina no Paraguai e pediu repetidas vezes para ser levado para Tremembé

Evelson de Freitas/Estadão
O ex-médico Abdelmassih chega ao Aeroporto de Congonhas; de lá, seguiu para o Presídio de Tremembé

SÃO PAULO - O ex-médico Roger Abdelmassih, de 72 anos, apontou sua mulher, a ex-procuradora da República Larissa Maria Sacco, de 37 anos, como a mentora de sua fuga para o Paraguai, há três anos e meio. A policiais civis e à Rádio Estadão, durante conversa na quarta-feira no Aeroporto de Congonhas, ele afirmou que foi "condenado escandalosamente", sem provas - a pena é de 278 anos de prisão por 48 estupros contra 37 vítimas. O áudio foi gravado com exclusividade.

Por volta das 16 horas de quarta, o ex-médico chegou à capital paulista e passou por exame de corpo de delito na delegacia do terminal da zona sul, onde contou aos agentes sua estratégia de fuga e sua rotina em Assunção. "Eu achava melhor me entregar. Minha mulher disse: 'Não, vamos embora'. Aí, falei com minha irmã que tem um haras em Presidente Prudente. Fomos para lá. De lá fomos para o Paraguai", disse Abdelmassih.

Capturado na capital do país vizinho na terça-feira, ele disse que só está preso porque pediu a renovação de seu passaporte em 2011 - o ex-médico, um dos maiores especialistas em fertilização in vitro do Brasil, foi condenado em novembro de 2010 e recorria em liberdade. "Eu estou preso, mas não existe prova nenhuma", afirmou.

Segundo ele, sua intenção não era deixar o País. "Eles (a Justiça e o Ministério Público) achavam que eu ia fugir, mas eu não ia. Ia passear", afirmou. "Sabe por que eu fui tirar passaporte? Porque o meu passaporte tinha dois meses para vencer. O Juca (criminalista José Luis Oliveira Lima, que defende o ex-médico) falou assim: 'Tem lugar que você não vai conseguir usar passaporte com dois meses'", disse. 

Abdelmassih contou, então, que procurou o criminalista Márcio Thomaz Bastos. "Fui ao doutor Márcio: 'O senhor pode me ajudar?'" A resposta foi: "Não! Vai lá na Polícia Federal, e tira logo (o passaporte)", disse o ex-médico. "Quando fui buscar, a juíza mandou eu entregar. Aí, os advogados começaram a ver o que queriam: 'Ah, pode dar prisão'. Aí, a juíza substituta Jaqueline disse para o Juca: 'Fala para o seu cliente que não vou prender. Fala para ele ficar tranquilo'. Eu disse: 'Então, tá! Vamos para Avaré'." Foi em uma fazenda no município paulista que promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Bauru encontraram as pistas para chegar até Assunção. 

Aos policiais civis, Abdelmassih disse que, na época da fuga, estava tranquilo. "Eu estava livre, eu estava solto. Aí, pum, me avisaram (da prisão) no meio do caminho. O Márcio falou: 'Eu acho melhor se entregar’. Minha mulher falou: ‘Não, vamos embora!'", contou. Após o pedido de renovação do documento, a juíza Cristina Escher, da 16.ª Vara Criminal, decretou sua prisão preventiva.

Ouça a conversa de Abdelmassih com o repórter Sérgio Quintella:

Fuga e rotina. Antes de deixar o País, o ex-médico contou que foi, ainda em 2011, para Jaboticabal, onde vive a família de sua mulher. Aos policiais e à reportagem, falou sobre sua rotina em Assunção. "Fiquei três anos e meio no Paraguai. Assunção é uma cidade boa, barata, de gente simples. Gostam dos brasileiros", disse. 

"Era uma bela casa. Uma casa daquelas aqui (o aluguel) custaria uns US$ 8 mil (equivalente a R$ 18 mil). Lá custava US$ 1.800 (R$ 4 mil). Tinha quatro quartos", contou. Segundo o preso, o imóvel foi alugado em nome de uma empresa aberta em sociedade com um amigo. Seus filhos gêmeos nasceram no país vizinho, e ele sempre vivia disfarçado. "Eu usava peruca. Não saía de casa sem peruca. E óculos. Ficava diferente do que eu era", afirmou.

Abdelmassih relatou sua captura. "Quem me pegou foi o rapaz da Polícia Federal. Diz ele ter informação até da igreja, de uma 'cliente' da igreja que me viu, mas principalmente depois da 'Veja', que estampa muito o rosto da Larissa", afirmou o ex-médico, em referência a reportagens da revista semanal.

Ele pediu reiteradamente para que fosse levado para a Penitenciária de Tremembé, para onde foi transferido à tarde. "Eu só vou assinar (o mandado de prisão) na hora em que eu tiver certeza de que é Tremembé. Não quero ir lá e depois ficar em Guaratinguetá." Ele disse ainda que merece ficar em liberdade ao comparar seu caso ao mensalão. "Se o (José) Genoino pode sair (da cadeia) por causa do problema (de saúde) dele, eu posso também. Eu tenho uma prótese. Isso é muito pior."