Acordo prevê bioquerosene para aviões nesta década

Empresas brasileiras e dos EUA atuam em conjunto para produzir combustível de origem vegetal, em escala global, em até 10 anos

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

20 Março 2011 | 00h00

A parceria que Brasil e Estados Unidos estão firmando para o desenvolvimento e a produção de biocombustível especificamente para uso na aviação civil é fruto de uma ação que envolve algumas das maiores empresas dos dois países. Os resultados concretos dessas pesquisas - isto é, a fabricação e o uso em escala mundial - podem chegar ao mercado ainda nesta década.

"A perspectiva é de começo de produção em escala global em médio prazo, entre os próximos cinco a dez anos", explicou Guilherme Freire, diretor de Meio Ambiente da Embraer.

A fabricante brasileira de aviões participa de uma das pesquisas mais avançadas na produção de biocombustível para aviação. Além da Embraer, o projeto envolve no Brasil a Azul Linhas Aéreas - companhia do empresário David Neeleman que opera no Brasil desde 2008 - e, nos Estados Unidos, a Amyris (empresa do setor de biotecnologia com sede da Califórnia) e a General Electric (GE), gigante americana do setor elétrico.

O trabalho conjunto das empresas prevê o voo experimental de um jato E-Jet no primeiro semestre de 2012. O projeto consiste no desenvolvimento de tecnologia de produção de bioquerosene para aviação a partir da fermentação da sacarose - proveniente da palha e da ponta de cana-de-açúcar, do milho e de outras fontes vegetais.

Outra experiência prestes a receber a certificação internacional envolve a transformação de biomassa - pinhão-manso, camelina, babaçu e alga marinha - em bioquerosene. A dificuldade da aplicação dessa tecnologia está na necessidade de produção em escala dessas fontes de biomassa. Em princípio, Estados Unidos e Brasil poderão atuar juntos nesse campo, com apoio dos respectivos governos.

Acordo. O anúncio dessa parceria específica para o setor de aviação civil estará amparado pelo Memorando de Entendimento na área de biocombustíveis, assinado em 2007 pelos então presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush, em São Paulo.

O acordo de quatro anos atrás não chegava a mencionar o bioquerosene, mas previa uma ampla cooperação para estabelecer padrões de produção para o etanol e, dessa forma, garantir a qualificação do produto como uma commodity.

Um dos tópicos de maior interesse do Brasil era a possível abertura do mercado norte-americano para a importação de etanol de cana-de-açúcar do Brasil, como alternativa ao uso de combustível fóssil, o que acabou não ocorrendo como esperado.

Nos últimos meses, o governo Obama desinteressou-se pelo etanol como alternativa ambiental e econômica para a gasolina e passou a incentivar a produção de veículos híbridos e, principalmente, os movidos exclusivamente a eletricidade.

Para o Itamaraty, a perspectiva de atrair o governo dos Estados Unidos para a única opção sustentável para o querosene de aviação dará um novo alento ao memorando de 2007.

A proposta, segundo um diplomata envolvido nesse tema, permite a união dos setores de fabricação de aviões, de motores, de biocombustíveis e de aviação civil dos dois países em torno de um "produto com futuro gigante".

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