AfroReggae anuncia encerramento de suas atividades no Alemão

Grupo cultural vinha sofrendo ameaças de ter suas instalações, na Favela da Grota, como alvo de explosão, com a morte de inocentes

Antonio Pita e Vinicius Neder, de O Estado de S. Paulo,

20 Julho 2013 | 18h58

RIO - O grupo cultural AfroReggae, que desenvolve trabalhos sociais em diversas favelas do Rio, anunciou nesta sábado, 20, o encerramento de suas atividades no Complexo do Alemão, após sofrer ameaças ao longo da semana. José Júnior, coordenador do AfroReggae, creditou as ameaças a retaliações sofridas desde que denunciou o pastor Marcos Pereira da Silva, líder da Assembleia de Deus dos Últimos Dias (Adud), em fevereiro de 2012.

 

Segundo Júnior, a decisão de encerrar as atividades no Complexo do Alemão foi tomada na sexta-feira, após o grupo receber ameaças, na quinta-feira, de que as instalações do AfroReggae na Favela da Grota, no Complexo do Alemão, poderiam ser alvo de explosão, com a morte de inocentes. 

 

No fim da tarde de sexta-feira, Júnior já havia adiantado, pelo Twitter, que teria "péssima notícia" para dar no sábado. O caso também foi tratado em reportagem da revista "Veja".

 

Na madrugada de segunda para terça-feira, um incêndio destruiu o imóvel de três andares onde funcionaria uma pousada do AfroReggae. No mesmo prédio, funcionava a redação do jornal "Voz da Comunidade", que ganhou notoriedade ao transmitir em tempo real, por meio de redes sociais, a ocupação do Complexo do Alemão em novembro de 2010.

 

Na ocasião, Júnior já havia acusado o pastor Marcos de estar por trás do incêndio, que teria sido criminoso. Um acusado pelo incêndio foi preso em flagrante. Júnior informou que, depois de quinta-feira, manteve contatos com o governador do Rio, Sergio Cabral, e com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. 

 

A Polícia Civil segue investigando o incêndio e investigará as ameaças de quinta-feira. Em nota enviada à imprensa, a Polícia Militar informou que o comandante-geral da Polícia Militar, coronel Erir Ribeiro Costa Filho, se reunirá com José Júnior, na próxima segunda-feira, dia 22, para discutir as denúncias de ameaças.

 

Segundo Júnior, as ameaças foram repassadas por um líder comunitário do Complexo do Alemão, que conversou diretamente com ele. "Se o negócio fosse em cima de mim, não ia mandar fechar não, mas como a estória tem crianças e tem profissionais inocentes envolvidos, a gente resolveu não colocar essas pessoas em risco", disse. O coordenador do AfroReggae garantiu que as atividades da entidade espalhadas por diversas favelas do Rio se mantêm. 

 

O pastor Marcos está preso desde 7 de maio, acusado de estuprar duas fiéis da igreja. Ele ainda é investigado pela Polícia Civil por homicídios e ligação com traficantes do Comando Vermelho, facção que dominava o Complexo do Alemão até a ocupação pelas forças de segurança. 

 

Antigos aliados, José Júnior e pastor Marcos romperam em fevereiro de 2012, após o ativista acusar o evangélico, publicamente, de envolvimento com o tráfico. A defesa do pastor nega todas as acusações.

 

Após o incêndio, o jornal "Voz da Comunidade" adiantou os planos de mudar de sede, mas segundo seu criador, René Silva, pressões para a saída do veículo de sua sede nunca foram sentidas. "Desde janeiro já tínhamos decidido, pois queríamos um lugar nosso e o prédio do Alemão se tornaria uma pousada. O projeto já estava acertado para mudarmos no fim do ano, mas, devido ao incêndio, decidimos não voltar e antecipar a mudança". 

 

A organização irá para uma nova sede, no Morro do Adeus, em outra parte do Complexo do Alemão. "Nunca soube ou senti pressão para deixarmos o lugar. Alguns pais dos integrantes do jornal queriam que a gente saísse depois do incêndio, pois estavam com medo", completou Silva. 

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