Airbus havia pousado outras duas vezes no mesmo dia em Congonhas

Em nenhuma das aterrissagens, feitas por outros pilotos, houve queixa de pista escorregadia ou problema mecânico

Bruno Tavares e Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

24 Julho 2007 | 00h00

O histórico de vôos do Airbus A320 da TAM diminui a possibilidade de que a chuva e a pista do Aeroporto de Congonhas tenham sido decisivas na tragédia que matou ao menos 199 pessoas. Isso porque, no dia do acidente, o avião de prefixo MBK já havia pousado duas vezes na pista principal do aeroporto, uma delas enquanto chovia quase três vezes mais do que no momento do desastre. Em nenhuma das aterrissagens houve queixas de pista escorregadia ou problemas mecânicos. O primeiro pouso do Airbus em Congonhas ocorreu às 11h11 do dia 17. O avião, que fazia o vôo 3701 entre Brasília e São Paulo, encontrou muita chuva na chegada à capital paulista. De fato, entre 11 horas e meio-dia, a estação meteorológica do aeroporto registrou, em média, 1,5 milímetro de precipitação na pista principal. A aeronave pousou normalmente, os passageiros desceram e, 40 minutos depois, ela já estava pronta para decolar rumo ao Aeroporto de Confins, na região metropolitana de Belo Horizonte, onde chegou às 12h48. Em Confins, a parada foi mais uma vez breve. Depois de 33 minutos no solo, o Airbus decolou mais uma vez com destino a São Paulo. O vôo 3219 chegou no horário previsto - 14h32. A chuva havia parado, mas a pista principal de Congonhas continuava encharcada. Segundo registros do Serviço Regional de Proteção ao Vôo, entre 14 e 15 horas, o índice de chuva foi zero no aeroporto. Desta vez, o intervalo até a decolagem seguinte foi maior, para que houvesse a troca da tripulação do Airbus. Assumiam o comando os pilotos Kleyber Lima e Henrique Stefanini di Sacco. Foram eles que decolaram às 15h21 de Congonhas rumo ao Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, onde o avião da TAM aterrissou às 16h40. Depois de 36 minutos parados no Sul, os comandantes iniciaram o vôo 3054. Antes de acionar as turbinas, Kleyber anotou no livro de bordo da aeronave que não havia qualquer problema que impedisse o vôo. O documento também foi assinado por um mecânico de sobrenome Poletti, que teria inspecionado o exterior da aeronave. O vôo para São Paulo durou uma hora e 35 minutos. Quando o Airbus se aproximou, a chuva havia recomeçado. Mas numa intensidade inferior à que a aeronave havia enfrentado em seu primeiro pouso. As medições feitas por militares mostram que, em média, choveu 0,6 mm entre 18 e 19 horas no aeroporto. O comandante Kleyber fazia seu primeiro pouso do dia em Congonhas. A seqüência de vôo dos Airbus, que começou sua jornada às 6h52, no Aeroporto de Campo Grande (MS), demonstra que a TAM utilizava ao máximo a aeronave. Até o acidente, às 18h51, o avião havia feito sete vôos, apesar de estar com o reverso direito (freio aerodinâmico acoplado às turbinas) inoperante - "pinado". A companhia alega que o manual do fabricante permite a utilização da aeronave com esse problema por até dez dias, quando o conserto deve ser realizado. Para especialistas, os dados mostram que, isoladamente, a situação da pista de Congonhas não é suficiente para explicar o acidente. Mesmo que uma aquaplanagem tenha ocorrido, ela não se estenderia por quase 2 quilômetros em um momento de chuva mais fraca. Ela explicaria uma derrapada ou a dificuldade de frear, mas não por que o avião acelerou na pista.

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