Americano chega para 'recomeçar' relação com Brasil

Ex-chanceleres veem iniciativa do americano, que vem ao País antes de Dilma visitá-lo, como sinal de mudança no diálogo bilateral

Gabriel Manzano, O Estado de S.Paulo

19 Março 2011 | 00h00

É um bom recomeço, depois das confusões do apoio brasileiro ao Irã. E um recomeço com uma simbologia forte, pelo fato - bastante incomum - de que o presidente americano Barack Obama se dispôs a vir ao Brasil antes que a presidente Dilma Rousseff o visitasse em Washington. São esses os pontos de destaque na passagem de Obama pelo País, na avaliação de dois ex-chanceleres brasileiros, Luiz Felipe Lampreia e Celso Lafer.

"Obama vir primeiro é uma raridade. Ele manda, com esse gesto, um sinal de disposição para a mudança, assim como a presidente Dilma Rousseff já tinha feito ao mudar a postura brasileira a respeito dos direitos humanos no Irã", afirma Lampreia, que comandou o Itamaraty no governo FHC, entre 1995 e 2001.

Para Lafer, que foi chanceler por duas vezes também durante o governo Fernando Henrique, em 1992 e 2002, há um recomeço porque não se trata mais da diplomacia pessoal que, nos últimos oito anos, se tornou um estilo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Ela é mais institucionalizada, mostrou disposição para uma maior afinidade", adverte o ex-chanceler. Acabou a fase do que ele chama de "diplomacia de combate", mais ideológica, com forte influência do assessor de Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia. "A diplomacia de Dilma será outra. Vai ser a defesa dos interesses brasileiros, mas sem se colocar uma posição ideológica", resume Lafer.

Se as simbologias políticas são um bom prenúncio, Lampreia não descarta as discussões na área da economia. O pano de fundo do encontro de hoje em Brasília são dificuldades financeiras sérias dos dois países, cada um por suas razões. No caso brasileiro, Dilma está adiando a decisão sobre a compra dos novos caças, para segurar o orçamento - assunto em que os EUA, com o modelo F-18, têm grande interesse.

As conversas dos dois talvez incluam, segundo Lampreia, o anúncio de um grande financiamento, coisa de US$ 1 bilhão, para a compra de tecnologia na área do pré-sal. Também pode haver avanços na pesquisa de biocombustível. "Há um projeto para o chamado clean sky, céu limpo, que está sendo desenvolvido pelos dois países, para se chegar a um tipo especial de querosene menos poluente", acrescenta.

Pouca mudança. Para o historiador Marco Antonio Villa, as expectativas de "uma nova fase" nas relações dos dois países podem esbarrar no que ele chama de "fracasso" do Brasil em seu primeiro teste - o voto de abstenção, dado na quinta-feira à noite, na votação do Conselho de Segurança da ONU sobre as medidas contra o governo Muamar Kadafi, na Líbia. Esse voto, dado na véspera da viagem de Obama, pode até ser objeto de conversas do americano no Planalto. "Parece que o Itamaraty não passou nesse primeiro teste, de votação na ONU." Isso mostra, segundo ele, que "nova política não há, apenas umas leves mudanças de tonalidade, e isso pode ser pouco para novas relações".

Nos negócios, acrescenta, a conversa será normal: acordos sempre existem nessas viagens. "Mas os EUA sabem que a China é hoje o grande parceiro do Brasil, da Argentina e de outros vizinhos. Assim, é preciso olhar esses países com mais atenção."

No mais, diz Villa, Obama "é o rei da mídia", que já fez grandes discursos em Praga e no Cairo. "Essas visitas são midiáticas, ele faz isso bem e quer retomar essa imagem na hora em que se começa a falar em reeleição por lá."

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