''Americanos sabem muito pouco do Brasil''

Pesquisador acredita que Washington pensa o País como parte da América Latina e visita de Obama será apenas um ''tour''

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

19 Março 2011 | 00h00

ENTREVISTA

Frank MacCann, historiador

Veterano pesquisador da história do Brasil e de suas relações com os Estados Unidos, o historiador norte-americano Frank McCann espera que a visita do presidente Barack Obama ao País ajude a aproximar mais os dois países - mas duvida que esse resultado se confirme.

Para ele, Obama, em seu tour latino-americano (que inclui El Salvador e Chile), comete o mesmo erro de ocupantes da Casa Branca que o precederam: considerar o Brasil apenas parte da América Latina, não um país com importância própria.

"A vasta maioria dos americanos sabe muito pouco, talvez nada, sobre o Brasil", lamenta o historiador, acrescentando que o relacionamento entre os dois governos, sob uma capa oficial de amizade, foi tenso desde o Brasil Império, independentemente do viés ideológico dos brasileiros no poder.

McCann avalia que, durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tanto Estados Unidos como Brasil emitiram para o outro lado sinais que contribuíram para deteriorar as relações entre os dois países. Segundo ele, os formuladores da política externa dos EUA não pensam o Brasil como um igual. "Têm dificuldade de ver o mundo da perspectiva de Brasília."

Qual é o balanço que o senhor faz da história das relações Brasil-Estados Unidos?

Densa e profunda, remontando ao fim dos anos 1700. Foram relações marcadas por comércio contínuo, suspeita americana em relação ao governo monárquico e preocupações brasileiras com subversão republicana. Medo brasileiro do interesse americano na Amazônia, dependência brasileira do mercado americano de café, preocupações americanas com a influência britânica, depois influência germânica, e finalmente subversão comunista. Os EUA têm sido uma presença contínua na mente brasileira, enquanto o Brasil tem sido uma presença um tanto vaga na mente americana. Escondida sob relações plácidas, geralmente amigáveis, tem havido tensão que nunca resultou em violência, mas nunca desapareceu completamente. Em décadas recentes, os EUA pressionaram o Brasil a encerrar seu programa atômico e mais recentemente questionaram por que o Brasil queria ter submarinos atômicos. Um dos problemas é que Washington pensa o Brasil como parte da América Latina. A realidade é que Obama está fazendo um tour latino-americano Brasil, Chile e El Salvador, não está apenas indo para ver o Brasil e seus líderes. Obama está seguindo o modelo de tour latino-americano.Essas visitas têm pouco a ver com a diplomacia real e muito com projetar uma imagem.

O que significa o fato de Obama ter dito que o presidente Lula era "o cara", mas não ter vindo ao Brasil durante seu governo?

Falando francamente, o governo Lula projetou um tom que foi sentido como um tanto hostil pelos Estados Unidos. Eu disse tom por que não houve atos de hostilidade, mas um estranho sentimento de antagonismo. Pela primeira vez em todos os anos em que tenho estudado o Brasil, pensei que os porta-vozes do governo brasileiro pareciam arrogantes. É um pouco trivial, mas é possível que a perda dos Jogos Olímpicos de Chicago para o Rio de Janeiro possa ter afetado um pouco a atitude de Obama. Acima de tudo, ele fez campanha pessoalmente por sua cidade e não gosta de perder. A aproximação de Lula com Chávez faz sentido sob a perspectiva de Brasília, mas seu entusiasmo parece estranho a Washington. O mesmo é verdade sobre suas relações com Mahmoud Ahmadinejad, do Irã, como fez na tentativa quixotesca, com a Turquia, de negociar um fim ao perigo de o Irã desenvolver uma bomba atômica. A administração Obama ficou incomodada, não porque o Brasil não tivesse o direito de usar sua influência diplomática, mas pela maneira que foi feita. O tom foi fora de esquadro.

O que contribuiu para a tensão atual?

Penso que os dois lados fracassaram em entender como o outro percebia suas palavras e ações. Há uma impaciência entre algumas pessoas no governo brasileiro para ver o Brasil aceito como uma potência mundial. Imagino que a maioria dos brasileiros educados está cansada da ideia de país do futuro. Querem o futuro agora. Mas o Brasil não é um país que a maioria dos americanos pense como uma potência mundial. Na verdade, o Brasil não é um país sobre o qual a maioria dos americanos absolutamente pense. A vasta maioria sabe muito pouco, talvez nada, sobre o Brasil. Raramente se fala sobre ele em escolas e universidades. O português é raramente ensinado nas universidades. Há pouco apoio financeiro do Brasil para estudos brasileiros nos Estados Unidos, exceto em um punhado de instituições. Todos os discursos de presidentes americanos falam de amizade, de alianças, de potencial, de grandes recursos naturais, de um povo dinâmico e de crescimento econômico. Chamam o Brasil de líder regional, mas não o pensam como um igual. Têm dificuldade de ver o mundo da perspectiva de Brasília. Obama falar em "forjar novas alianças" é servir vinho velho em garrafa nova. Não consigo imaginar que frases assim excitem alguém no Itamaraty. Duvido que haja alguma realidade atrás delas.

O que causou mais estragos à relação Brasil-EUA: a iniciativa brasileira e turca junto ao Irã ou a posição do Brasil em relação à crise de Honduras?

A administração Obama reagiu friamente às iniciativas do Brasil em relação ao Irã e a Honduras. Em nenhum dos dois casos o Departamento de Estado estava esperando o envolvimento brasileiro. Pode ter havido arrogância americana, mas certamente Washington foi insensível aos interesses brasileiros nos dois casos. Dos dois casos, achei o de Honduras o mais perturbador. Washington, de fato, estava aceitando um golpe de Estado, enquanto Brasília dizia que não era aceitável.

A postura do Brasil no caso iraniano inviabilizou qualquer esperança brasileira de ir permanentemente para o Conselho de Segurança da ONU?

Esta é uma das questões mais difíceis na história diplomática brasileiro-americana. O Brasil é um dos fundadores das Nações Unidas. Mesmo nos anos sombrios da Segunda Guerra Mundial, o Departamento de Estado cuidadosamente consultou o então ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha, sobre suas ideias para a nova organização. Diplomatas brasileiros foram ativos nas negociações nas conferências de formação em Chapultepec e São Francisco. Aranha foi, claro, o primeiro presidente da Assembleia Geral. Olhando para trás, é muito estranho que dois países falidos, até conquistados, França e China, tenham recebido assentos e poder de veto. Sei que britânicos e russos se opuseram à entrada do Brasil, pensando que seria um eco dos EUA.

Qual é a visão que o governo Obama tem do Brasil, hoje?

Duvido que Obama tenha pensado seriamente sobre o Brasil ou seu papel no mundo. Se ele ou seus assessores mais próximos tivessem, não estaria fazendo outro tour pela América Latina, mas um somente ao Brasil.

Quais serão os temas críticos?

A dinâmica comercial provavelmente será discutida. Os subsídios americanos à agricultura, particularmente ao algodão, devem estar sobre a mesa. Muito provavelmente, haverá discussão sobre as ambições nucleares do Irã e o que pode ser feito sobre elas. Coisas bonitas serão ditas sobre o Egito e preocupações serão expressas sobre a Líbia. Em uma perspectiva esperançosa, haverá conversas sobre importar etanol combustível brasileiro pelos EUA. Aparentemente, os americanos oferecerão assistência com segurança para a próxima Copa de 2014 e a Olimpíada de Verão de 2016. Será interessante ver o que Obama tem a oferecer em relação ao projeto FX-2. E, claro, assombrando essas conversas, está o gigante chinês. As compras chinesas de minério de ferro, outros minerais e soja esmagaram a posição americana e os brasileiros da mesma forma. Os dois lados estão preocupados e inseguros sobre o que fazer, então ambos têm razões para discutir o assunto.

Qual será o saldo dessa visita?

Honestamente, espero que aprofunde relações, mas duvido que o fará. A história dessas viagens não me anima. O modelo de tour dessas viagens necessariamente enfraquece os possíveis impactos e confunde os pensamentos dos viajantes.

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