Anac só tem um diretor do setor aéreo

Apadrinhados políticos e aliados do Planalto ocupam as outras três diretorias e a presidência da agência

Ana Paula Scinocca e Christiane Samarco, do Estadão,

26 Julho 2007 | 01h54

Apenas uma das cinco diretorias da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), incluindo o cargo de diretor-presidente, é ocupada por um profissional do setor. Os outros quatro diretores, entre os quais o presidente Milton Zuanazzi, são apadrinhados políticos de ministros de Estado e aliados do Palácio do Planalto e foram escolhidos também para atender ao lobby das companhias aéreas, sempre úteis aos candidatos em época de eleição.   Veja também: Jobim confirma que vai mudar comando da Infraero Jobim diz que problema na Defesa é de comando   A exemplo do que ocorreu com a Infraero, os postos-chave da agência criada no governo Lula para regular o setor, fiscalizar as empresas e proteger o usuário do transporte aéreo também foram loteados. Com o comando da Anac nas mãos de um economista, uma advogada, um político em fim de carreira, um engenheiro mecânico e apenas um aviador, o setor enfrenta sua maior crise depois de experimentar um crescimento médio de quase 12% ao ano e um lucro crescente, que saltou da faixa dos 3% para mais de 15%. Dez meses e 350 mortos depois, este loteamento é apontado como fator agravante da crise.   Não é por acaso que o ex-deputado Leur Lomanto, sete vezes deputado federal, foi o único diretor aprovado por unanimidade no Senado. Foi ele quem, quando ainda deputado, relatou o projeto de lei que criou a Anac, tudo devidamente negociado com as empresas de aviação. Rejeitado pelas urnas em 2002, Leur foi acomodado na assessoria parlamentar da Infraero e, de lá, transferido para a diretoria da Anac.   Desde que assumiu a diretoria, seu feito de maior repercussão nacional foi a festa de arromba que promoveu no casamento de sua filha, em março passado. O evento, que contou com a participação da cúpula do setor aéreo, ocorreu no mesmo dia do motim dos controladores de vôo. Ficou conhecido como o "baile do apagão", em que diretores da Anac se deliciavam entre quitutes baianos e baforadas de charuto, enquanto passageiros dormiam no chão dos aeroportos.   Turismo   Diretor-presidente da Anac, Zuanazzi fez carreira como secretário de Turismo do Rio Grande do Sul. Sua maior credencial para garantir a vaga, antes mesmo de o colegiado existir para elegê-lo, foi a amizade com a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, sua antiga companheira de partido e de secretariado estadual. A relação entre Dilma e Zuanazzi é ainda anterior ao PT. Os dois militaram juntos no PDT, mudando depois para a legenda do presidente Lula.   Os laços estreitos entre os dois ficaram mais explícitos na mensagem encaminhada pelo Planalto ao Congresso, indicando Zuanazzi para a Anac. Como Dilma pediu aos senadores que aprovassem o nome do presidente da Agência, o texto foi considerado impróprio e a mensagem devolvida ao governo. Afinal, não cabia ao Senado, e sim aos cinco diretores, escolher entre eles o presidente.   Se dependesse do ex-ministro José Dirceu, que antecedeu Dilma na Casa Civil, a Anac seria presidida por uma mulher. Depois do fracasso na tentativa de emplacar sua ex-assessora Denise Abreu no posto de conselheira do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Dirceu a indicou para a Anac. Mesmo estando fora do governo quando a Anac foi aprovada em 2005, o ex-ministro conseguiu manter a vaga de sua ex-colega de faculdade, mas quem definiu o comando da Agência foi mesmo Dilma Rousseff.   Na prática, porém, quem acompanha as reuniões do colegiado garante que Denise tem mais voz ativa e mais influência sobre os colegas do que o próprio presidente. Ainda assim tem atuação discreta. Só apareceu nos jornais em duas ocasiões: a primeira, quando foi flagrada às gargalhadas e fumando charuto, na festa de Leur Lomanto em pleno apagão aéreo.   A mais recente foi na semana passada, exatos três dias depois do acidente com o avião da TAM que deixou 199 mortos. Denise, Lomanto e Zuanazzi e um quarto diretor - o economista e ex-secretário de Transportes do Rio de Janeiro José Barat - foram condecorados pelo comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juriti Saito. O único diretor não homenageado três dias após a tragédia é justamente o único especialista da área que comanda uma diretoria da Anac. Jorge Luiz Brito Velozo é coronel aviador especialista em segurança de vôo e foi indicado pela Aeronáutica para a vaga. Mas sua escolha também agradou as companhias aéreas.

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