Análise: Forças Armadas chegam para quebrar um galho

'Intervenções como a mais recente do governo federal não visam a resolver o problema da violência. Elas funcionam mais como um paliativo'

Michel Misse, O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2018 | 20h09

Intervenções como a mais recente do governo federal não visam a resolver o problema da violência. Elas funcionam mais como um paliativo para dar satisfação em meio a um clima de insegurança. Eventualmente isso poderá representar uma redução no processo de violência crescente, mas não a médio e longo prazo. As próprias Forças sabem que a ação se resume a isso. Assim, sem formação específica para atuar nessa situação, as Forças Armadas chegam para quebrar um galho.

O problema é que havia todo um projeto de ocupação com política pacificadora, que, com a crise fiscal do Estado, acabou ele mesmo entrando em crise e deixando os policiais cercados por criminosos. Na medida em que as UPPs perderam força, as facções voltaram a disputar territórios novamente, o que era um processo que tinha sido contido com aquela política. 

A resposta foi a realização de operações, que produzem muitas mortes e criam um sentimento de insegurança que já perdura há mais tempo. São ações feitas sem planejamento, sem investigação, sem objetivo claro, que visam a mostrar serviço e, de um lado, aumentar pela repressão o custo de propinas pagas a policiais.

No carnaval, a cidade ficou desguarnecida e sofreu uma série de atos de violência, com muitos arrastões atingindo turistas e cidadãos. A repercussão desses crimes provavelmente foi o que levou a uma resposta como a intervenção, pois o governo do Estado não tinha como fazer mais nada.

Os problemas de Segurança Pública não são exclusivos do Rio. Eles atingem inúmeras cidades brasileiras. O que ajuda a entender a situação atual do Rio é mais a forte e intensa disputa entre as diferentes facções, que realizam um confronto violento entre redes de quadrilhas que se ocupam do varejo da venda de drogas. Em São Paulo, por exemplo, não há essa disputa porque há um oligopólio oferecendo proteção às biqueiras: o PCC. 

É PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO (UFRJ)

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