Análise: papa questiona o rumo da política de pacificação do Rio

Discurso de Francisco em Manguinhos reforça críticas à política de segurança do governo Cabral

Marcelo Beraba, O Estado de S. Paulo

25 Julho 2013 | 16h34

"Quero encorajar os esforços que a sociedade brasileira tem feito para integrar todas as partes do seu corpo, incluindo as mais sofridas e necessitadas, através do combate à fome e à miséria. Nenhum esforço de "pacificação" será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia parte de si mesma. Uma sociedade assim simplesmente empobrece a si mesma; antes, perde algo de essencial para si mesma. Lembremo-nos sempre: somente quando se é capaz de compartilhar é que se enriquece de verdade; tudo aquilo que se compartilha se multiplica! A medida da grandeza de uma sociedade é dada pelo modo como esta trata os mais necessitados, quem não tem outra coisa senão a sua pobreza!". (Do discurso do papa Francisco nesta quinta-feira, 25, de manhã na favela Varginha, zona norte do Rio)

Em Varginha, uma das favelas de Manguinhos, na zona norte do Rio, o papa Francisco tocou em um dos pontos sensíveis da política de segurança implantada no governo Sérgio Cabral e conhecida como de pacificação. Este foi o termo cunhado pelo próprio governo para se diferenciar da política anterior, praticada nos governos Garotinho e no início da gestão Cabral, de invasão das favelas e de confronto generalizado.

A política de pacificação tem como seu principal pilar as Unidades de Polícia Pacificadora, UPPs. O sucesso inicial desta política projetou o seu mais importante artífice, o delegado José Maria Beltrame, da Polícia Federal, deu credibilidade ao governo Cabral, garantiu sua reeleição e a eleição e reeleição do prefeito do Rio, Eduardo Paes. Há dois pontos frágeis, no entanto, nesta política.

O primeiro, frequentemente cobrado pelo próprio Beltrame, é a lentidão na implantação dos programas sociais e econômicos que deveriam complementar as ocupações pela Polícia Militar das favelas antes dominadas pelo narcotráfico e por milícias. Sem estes programas de inclusão - e o papa Francisco mais de uma vez ressaltou nesta viagem a importância das políticas de combate às desigualdades -, só a ocupação policial não será suficiente para garantir, no futuro próximo, a paz nestas comunidades.

O segundo aspecto questionável na política de segurança de Cabral e Beltrame é a lentidão com que estas ocupações se estendem pelo território da cidade e do Estado. Na realidade, as favelas pacificadas até agora foram as da zona sul - onde mora a população mais rica da cidade e que recebe os turistas - e parte da zona norte - em torno do Maracanã. A lógica evidente tem sido a de garantir a proteção das áreas que receberão os grandes eventos marcados para o Rio, como a Rio + 20 (no ano passado), a Copa das Confederações (que ocorreu em junho), a Jornada Mundial da Juventude (que dura até domingo), a Copa do Mundo (2014) e a Olimpíada (2016).

Esta política foi empurrando os comandos e quadrilhas armadas do narcotráfico e das milícias para as favelas e conjuntos habitacionais da periferia do Rio, para a Baixada Fluminense e para algumas cidades do interior do Estado. Nestas áreas não pacificadas os cidadãos, que já têm as piores condições sociais e econômicas, estão agora pagando um preço maior por causa da violência e dos abusos das polícias.

A política de segurança do governo Sérgio Cabral está na berlinda. A confiança que transmitia se esvai com a percepção de que não está preparada para lidar com as manifestações populares e de que a política de pacificação não está tendo o progresso que se esperava. Uma das impressões cada vez mais forte é de que a violência está sendo empurrada para a periferia.

O discurso do papa reforça estas críticas. É um recado direto: "Nenhum esforço de 'pacificação' será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia parte de si mesma".

Marcelo Beraba, diretor da sucursal do Rio do jornal O Estado de S. Paulo, em coluna no Broadcast Político

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