Angatuba pouco sabe sobre tristeza

Na pacata cidade, 89% das pessoas dizem ser felizes

José Maria Tomazela, ANGATUBA (SP), O Estadao de S.Paulo

29 Outubro 2008 | 00h00

A estudante Laís Sales, de 14 anos, mantém uma rotina: todo dia, antes de ir para a escola, coleta o lixo de casa e separa o material orgânico do reciclável. Sua amiga, Suélen Ferreira, de 13, faz a mesma coisa e o amigo de ambas, Diego dos Santos, de 16, ensinou o pai a fazer isso também na serralheria. Legal, mas em Angatuba, no sudoeste de São Paulo, isso não é novidade. Os 21.509 moradores separam o lixo e entregam o reciclável a uma cooperativa. Só lixo orgânico vai para o aterro. "A gente faz porque gosta e sabe que é melhor para todos", diz Vinícius Costa, de 15 anos. A coleta seletiva integra as ações que a cidade desenvolve para ter qualidade de vida. Outro exemplo é a medicina ayurvédica adotada na rede pública. Conhecida como a mãe da medicina, a ciência de origem indiana trata e corrige pequenos desequilíbrios para evitar que se tornem doença. O prefeito José Emílio Lisboa, de 57 anos, que administra a cidade pela quarta vez, gosta das experiências. "Pode-se viver com qualidade de vida, em harmonia com o ambiente." Quando a cidade tinha índice elevadíssimo de mortalidade infantil, ele combateu a anemia das gestantes com alimentos ricos em ferro. No auge do etanol, construiu uma usina para produzir combustível para a prefeitura. A cana de agricultores familiares vira também rapadura, melado e açúcar mascavo para a merenda escolar. Foi por causa da usina que Angatuba aderiu ao conceito de Felicidade Interna Bruta (FIB). A psicóloga americana Susan Andrews, do Parque Visão Futura, ecovila espiritual auto-sustentável criada após a Eco-92 no interior de São Paulo, foi conhecer o projeto. "Ela gostou da cidade e nos incluiu no programa iniciado no Butão", diz o prefeito. Os conceitos de ambiente e vida saudáveis foram levados às escolas. O estudante Vinícius, amigo de Laís, Suélen e Diego, passou a usar máscara na oficina de pintura do pai. "Fiz eles largarem de fumar", conta. Os adolescentes são do tipo que, se vêem uma garrafa PET, abaixam e recolhem. O resultado das primeiras pesquisas de FIB no País, em que 450 moradores de Angatuba responderam aos questionários de Susan, mostrou o que já é verificável numa simples caminhada pela cidade: 89% dos participantes se consideram felizes; 89% consideram a qualidade de vida boa ou muito boa; 80% estão satisfeitos com o relacionamento familiar; 94% consideram a saúde satisfatória e 73% estão satisfeitos com a qualidade da educação dos filhos. A pesquisa, contudo, também aponta preocupações: embora todos se digam preocupados com o ambiente, poucos o protegem e, apesar de todos se sentirem constantemente sob stress, poucos se exercitam. "Também percebemos que a maioria dedica boa parte do tempo para assistir à TV", disse Susan. Quem chega de fora, até estranha: a cidade é simples, até pacata, mas muito limpa e arrumada. As pessoas cumprimentam os estranhos, são solícitas, dão informações. "Sabe que aqui 100% do esgoto é coletado e tratado?", pergunta Roseli Machado, balconista. "E não tem violência. A gente pode deixar a loja sozinha e ninguém mexe", acrescenta a colega, Érika Vieira. Os adolescentes gostam dali, mas sabem que logo terão de sair para continuar os estudos. Laís quer fazer Biologia. "Hoje não sinto falta de nada, pois tem muita diversão e internet de graça." A comerciante Maria de Lurdes Amaral, dona de uma loja agropecuária, considera a cidade ideal "para quem não espera coisas extraordinárias". Duas das filhas saíram para cursar Direito e Economia na Universidade de São Paulo (USP). "Sempre que podem, voltam." A aposentada Jocelin Maria Pedroso, em depressão profunda, trocou os medicamentos tarja preta pelo tratamento com massagens no Centro de Atendimento Psicossocial. Ela diz que foi como se tivesse nascido de novo. "Agora posso dizer que sou feliz."

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