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Anistia Internacional critica abuso em atos e ignora black blocs

Leonencio Nossa - O Estado de S. Paulo

06 Junho 2014 | 07h 34

Entidade denuncia ação das polícias nas manifestações de rua, mas omite o papel da rede de comando da repressão e dos mascarados

 BRASÍLIA - A Anistia Internacional lançou nesta quinta-feira, 5, em um ato na frente do Congresso, documento de denúncia de abuso das polícias nas manifestações pacíficas de rua. O relatório "Eles usam uma estratégia de medo: proteção do direito ao protesto no Brasil", de 24 páginas, omite o papel de toda a rede de comando da repressão e dos black blocs nos casos de violência.

A entidade não cita o ex-governador Sérgio Cabral e os governadores de Brasília, Agnelo Queiroz, e de São Paulo, Geraldo Alckmin, que defenderam abertamente as táticas usadas pelas polícias. Também ignora os secretários estaduais de segurança, superiores dos comandantes das tropas.

Ao dar ênfase em casos de abusos, o documento superdimensiona o papel dos policiais que estão no front dos protestos, como se os agentes tivessem o poder de decidir sobre o uso de gás e balas de borracha em áreas de hospitais e escolas. As "autoridades locais", como os políticos das grandes cidades que aparecem em um trecho do documento, são cobradas apenas por uma suposta omissão de investigar os abusos cometidos pelas tropas. O texto faz parte da campanha "Brasil, chega de bola fora!". A entidade vai protocolar no Palácio do Planalto 87 mil assinaturas de apoio à campanha.

Em entrevista ao Estado, Atila Roque, diretor executivo da Anistia Internacional no Brasil, afirma que a proposta do documento é focar no governo federal - que centraliza o comando da segurança de grandes eventos, como a Copa do Mundo - e no Congresso, instituição onde tramitam leis que põem risco o direito da manifestação pacífica. Ele ressalta que, embora não apareçam no documento, os governadores e secretários de Segurança foram procurados pela entidade para explicar a violência por parte das polícias. "Está claro para nós a cadeia de responsabilidades", afirmou. "De forma alguma pode ser atribuído (o problema da violência contra manifestantes) ao policial, pessoa que está na ponta."

DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
Ativista da Anistia protesta no Congresso Nacional

Grupos. Atila Roque citou um estudo da Fundação Getúlio Vargas, feito neste ano, em que mais de 60% de policiais ouvidos na pesquisa se declararam despreparados para atuar nos protestos. Ele ressaltou ainda que a Anistia se posiciona contra todos os grupos de manifestantes que praticam violência. O documento, segundo ele, analisa os agentes que detêm o uso legítimo da força. "A Anistia não está desatenta à violência como um todo. Somos contra a violência seja de onde for." 

O termo black bloc só é citado no documento em uma nota de rodapé da página 22, de forma lateral. Nas manifestações de rua, o movimento black bloc é alvo principal da polícia e, ao mesmo tempo, justificativa apresentada pelos agentes de segurança para o aumento da repressão. 

O texto não cita a morte do cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago Andrade, atingido no dia 6 de fevereiro por um rojão atirado por manifestante.

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