Apagão no 190 some com provas

PM alega falha técnica para justificar sumiço de gravações dos telefones do Copom durante ataques do PCC

Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

05 Outubro 2007 | 00h00

Um apagão nos gravadores do Centro de Operações da Policia Militar (Copom) sumiu com provas importantes para a apuração dos 104 casos de pessoas mortas por policiais durante a reação aos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) em 2006. Segundo a PM, os gravadores responsáveis pelos registros das comunicações do centro com os carros da PM entraram em pane, coincidentemente, ao mesmo tempo que o aparelho restaurador de fitas, o Data Digital Storage (DDS), também apresentou problemas técnicos, não ''''permitindo restaurar as comunicações''''. Quem fez essa revelação foi o coronel Ailton Araújo Brandão, chefe do Comando de Policiamento da Capital (CPC) em ofício enviado ao juiz Luiz Toloza Neto, da 3ª Vara do Júri de São Paulo. No documento, o coronel diz que os equipamentos responsáveis por gravar as comunicações do Copom pararam de funcionar no dia 26 de abril, 17 dias antes do início da primeira onda de atentados do PCC, por causa de ''''problemas técnicos'''' devidos ao ''''desgaste natural pelo uso'''', voltando ''''a funcionar de forma precária no dia 11 de julho - a terceira e última onda ocorreu em agosto. ''''É uma coisa incrível que tenham demorado tanto para consertar. Eram provas importantes que poderiam corroborar ou negar a tese dos PMs'''', disse o ouvidor da Polícia de São Paulo, Antônio Funari Filho. O assessor de direitos humanos da Procuradoria-Geral de Justiça, promotor Carlos Cardoso, disse achar ''''tudo isso muito suspeito, considerando as circunstâncias em que os fatos se passaram''''. O promotor se refere à reação aos taques do PCC - a facção matou 59 agentes públicos, entre os quais 25 PMs. ''''Há fortes evidências de que inocentes foram assassinados por policiais tresloucados'''', disse. Para Cardoso, o caso do apagão nos gravadores precisa ''''ser objeto de apuração específica''''. O que havia levado o juiz a requisitar as gravações foi um pedido do promotor Augusto Eduardo de Souza Rossini, que apura a morte de dois adolescentes na zona sul de São Paulo. Ele queria os registros das comunicações dos carros da Força Tática do 27º Batalhão da Polícia Militar na noite do dia 30 de junho de 2006, quando os PMs mataram Laion Alcioles Soares Cancela, de 17 anos, e Leandro Carmo da Silva, de 15. Os PMs disseram que receberam do Copom uma informação de que duas pessoas suspeitas estavam passeando com um Astra roubado. Também afirmaram que ligação semelhante foi recebida pelo quartel da Força Tática. A PM e a Polícia Civil abriram inquérito - a Ouvidoria também acompanhava o caso. Os policiais confirmaram em seus depoimentos a versão do tiroteio. Nenhuma testemunha disse que presenciou o momento do confronto - uma ouviu tiros e, em seguida, viu a rua cheia de carros da polícia. Intrigado com a história da denúncia anônima e com a presença de tantas viaturas no local, o promotor Rossini resolveu requisitar as gravações para ver se os policiais estavam dizendo a verdade e se, de fato, receberam a tal denúncia. Era setembro de 2006. Recebeu do Copom a resposta que as gravações não existiam por causa dos problemas técnicos. O sistema 190 recebe 35 mil ligações por dia e manda viaturas para o local em 12% dos chamados. Para o promotor, a inexistência das gravações era improvável, pois ''''no período dos fatos houve redobrada cautela dos órgãos de segurança por causa dos ataques''''. O juiz determinou ao secretário da Segurança, Ronaldo Marzagão, que a PM entregasse em 72 horas as gravações. Só então o coronel afirmou que elas não existiam. COLABOROU BRUNO PAES MANSO

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