Apesar do carisma, sobraram cobranças

Na fala de 21 minutos, para um Theatro Municipal lotado, Obama comprova seu talento e decepciona os que esperavam temas sérios

Wilson Tosta, Denise Chrispim Marin e Marcelo Beraba, O Estado de S.Paulo

21 Março 2011 | 00h00

RIO

Elogios, mas também cobranças. Integrantes da plateia que ouviu os 21 minutos de discurso de Barack Obama, ontem, no Theatro Municipal, gostaram das palavras do mandatário americano, mas sentiram falta de alguns temas que consideram importantes em uma agenda a ser discutida entre os dois países.

A maioria destacou o carisma do visitante, que, em seu pronunciamento, misturou sorrisos amplos com pequenas brincadeiras e gestos de calculada admiração pelo Brasil. Para alguns dos que estavam a poucos metros do palco, foi um comunicado importante - mas um pouco mais poderia ter sido dito.

"Foi interessante", disse a ex-candidata a presidente pelo PV, Marina Silva. "É uma figura carismática impressionante. Mas senti falta de uma ênfase na questão do problema grave do aquecimento global, da necessidade de mudança do modelo de desenvolvimento. Para ela, o que aconteceu não foi propriamente uma falha, mas algo "faltou" no discurso do presidente. "Foi muito bom tê-lo aqui, fiquei feliz e honrada por ouvi-lo e poder vê-lo, mas a expectativa é de que ele pudesse dar ênfase em quais são os desafios deste século."

O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) gostou das referências feitas por Obama à democracia, mas também achou que faltou algo. "Eu gostaria que Obama tivesse também falado de alguns outros temas, como o fim do embargo contra Cuba. Espero que ele possa falar sobre isso até sua visita ao Chile", afirmou.

Outros presentes receberam o discurso sem restrições. O ator Lázaro Ramos considerou o presidente "super-respeitoso", com um discurso para "conquistar" os brasileiros. "Ele sorriu e todo mundo sorriu junto. É muito carismático. E foi muito importante ele falar para os brasileiros colocando o Brasil do tamanho que o Brasil tem internacionalmente hoje", observou. A cantora Alcione disse ter adorado o pronunciamento. "Porque falou não só da história dele como da nossa história. E mostrou que sabe que temos de ser parceiros".

Para Luiz Felipe Lampreia, ministro das Relações Exteriores de 1995 a 2001, durante o governo FHC, "a visita foi um sucesso enorme". Repôs (as relações Brasil-EUA) nos trilhos, com vantagens para todo mundo. Só temos a ganhar com o trabalho conjunto. Ele fez referências positivas ao nosso momento histórico"

Descontração. Segundo o Theatro Municipal, todos os 2.244 lugares foram ocupados. À espera de Obama, a audiência foi entretida, inicialmente, com música instrumental e depois com uma apresentação da banda AfroReggae. Descontraídos, os presentes - em grande número, norte-americanos - cantavam sucessos de Tim Maia e Gilberto Gil e tiravam fotos uns dos outros.

Mais perto do palco estavam, entre outros, o arcebispo do Rio, Dom Orani Tempesta, o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, o físico José Goldemberg (frustrado com a ausência do secretário americano de Energia, Steven Chu, nas discussões sobre o setor, que se deram na Prefeitura), a atriz Thaís Araújo, que, grávida e vestida de branco, chamou a atenção. Na primeira fila, a ministra Ellen Gracie, do Supremo Tribunal Federal.

Seguranças da Casa Branca atuaram com o costumeiro rigor, mas não impediram o acesso ao teatro de Rinaldo Gaudêncio, que se apresenta como sósia brasileiro de Obama. De terno e gravata e uma "faixa presidencial", ele provocou risos e uma saraivada de fotografias.

O próprio Obama contribuiu para o clima de descontração. Entrou sob aplausos e ovações (feitos por uma plateia toda de pé), com olhares e sorrisos para todos os lados. Vestia paletó escuro e camisa branca, sem gravata, e, após as referências iniciais aos times do Vasco da Gama e Botafogo (que jogariam mais tarde no Engenhão) e algumas palavras em português, concentrou-se em um discurso elogioso ao Brasil e aos brasileiros.

Carismático, parecia conhecer bem o tempo do pronunciamento, fazendo pausas de vez em quando, esperando as palmas. Encerrou como começou: ovacionado e sorrindo. Saiu repetindo agradecimentos em português, de novo em várias direções: "Obrigado, obrigado, obrigado"

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