Aplicativos de encontro e HIV

Novo relatório do Unicef, divulgado na última semana, aponta que o aumento do uso de aplicativos de paquera é um dos principais fatores que têm levado a uma epidemia concentrada de HIV entre os jovens homens gays. 

JAIRO BOUER*, O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2015 | 02h55

O foco do estudo de dois anos é a região da Ásia e do Pacífico (que inclui países como China, Japão, Tailândia, Filipinas e Indonésia), que concentra metade da população de adolescentes do mundo. Os dados, divulgados pelo site da BBC Brasil, revelam 50 mil novos casos na faixa de 15 a 19 anos em 2014, o que representa cerca de 15% do total das infecções. 

Para os pesquisadores, os aplicativos ampliaram de maneira sem precedentes as múltiplas opções de sexo casual, ao permitir que encontros com pessoas que estão próximas possam acontecer de forma rápida e simples, com poucos toques na tela do celular. Ao agir, muitas vezes por impulso, os jovens acabam se protegendo menos. O aumento dos casos é ainda mais evidente nas grandes cidades.

É bom lembrar que, recentemente, tanto autoridades de saúde dos EUA como do Reino Unido já haviam relacionado o maior uso dos aplicativos de encontros com um aumento das doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e das infecções pelo HIV na população mais jovem.

Outro dado do relatório do Unicef mostra que os mais jovens são mais vulneráveis a morrer de causas relacionadas à aids, por buscarem o diagnóstico tardiamente e terem mais dificuldade de seguir tratamento, em parte pelo estigma e medo de revelarem sua sexualidade para família ou serviços de saúde. 

Jovens no Brasil. É justamente entre esses jovens, maiores usuários de tecnologia e de redes sociais, que a velocidade de expansão da aids tem aumentado, de acordo com os números do novo boletim epidemiológico, divulgado pelo Ministério da Saúde na última semana. 

Apesar de, em números absolutos, os casos de aids em jovens serem inferiores aos de outras faixas etárias, é justamente entre 15 e 24 anos que a epidemia tem crescido de forma mais importante. De 2005 para 2014, na faixa dos garotos de 15 a 19 anos, a taxa triplicou, de 2,1 para 6,7 casos por 100 mil habitantes. Entre os homens de 20 a 24 anos, ela quase dobrou, de 16 para 30,3 por 100 mil habitantes no mesmo período. 

Boa parte dos casos ocorre entre os homens que fazem sexo com outros homens. O impacto que o uso dos aplicativos de encontro tem sobre as novas infecções pelo HIV no Brasil ainda é desconhecido. 

Já entre as garotas a expansão foi mais lenta. Entre as mais novas, de 15 a 19 anos, o índice foi de 3,4 para 4,2 por 100 mil habitantes. No grupo das mulheres de 20 a 24 anos, por outro lado, houve uma queda de 15,3 para 12 por 100 mil habitantes.

São vários os fatores que levam a essa situação. O afastamento das fases mais críticas da epidemia é apenas um deles.

Vergonha, estigma, problemas de autoestima, preconceito, homofobia, machismo, uso de álcool ou drogas antes do sexo, ansiedade e medo de falhar com parceiros, paixão e dificuldade em lidar com novas experiências afetivas e emoções e discurso impositivo dos mais velhos, entre outros, completam essa complexa equação do “prazer X risco”. 

Daí a importância de reforçar estratégias para tentar barrar essa expansão. Usar os próprios aplicativos para campanhas de prevenção e uso de camisinha é uma delas. Trabalhar as questões de gênero, orientação sexual e preconceito nos projetos de discussão de sexualidade nas escolas é outra. Pensar em serviços de saúde mais “amigáveis” para os jovens, com mais recursos tecnológicos e com pessoal capacitado para lidar com as diferenças é outro passo central. 

* JAIRO BOUER É PSIQUIATRA

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