Após acidente, carreta atropela multidão na estrada: 27 mortos em SC

Caminhão desgovernado avançou 2 quilômetros de bloqueios policiais e arrastou 15 carros em área de resgate

Darci Debona, da Agência RBS, Rafael Carvalho e Rejane Wilke, especial para o Estado, O Estadao de S.Paulo

11 Outubro 2007 | 00h00

São Miguel D?Oeste - Um duplo acidente deixou 27 mortos e pelo menos 90 feridos, na noite de terça-feira, numa estrada de Santa Catarina. Foi a maior tragédia no Estado desde 2000. Duas horas depois da colisão de um ônibus com uma carreta, um caminhão, aparentemente sem freios, furou barreiras, arrastou 15 carros e atingiu equipes de resgate, jornalistas e curiosos que lotavam a Rodovia BR-282, na altura da cidade de Descanso. Entre os mortos estão três jornalistas e quatro bombeiros. O motorista Rosinei Ferrari, que causou o segundo acidente, deve responder por homicídio doloso (intencional). Há outras 15 vítimas internadas em estado grave. "Quando ouvimos foi aquele estouro, não teve nem sinal de buzina nem de freada. A carreta veio levando (carros e caminhões). Saí correndo e a carga me atropelou", afirmou o motorista Adair Bernardi. O acidente que deu início à tragédia aconteceu por volta de 19h30. Um ônibus com trabalhadores rurais de São José do Cedro (SC) foi atingido por uma carreta de grande porte de Frederico Westphalen (RS), carregada de soja, que tentou uma ultrapassagem pela contramão. Com a colisão, os dois veículos caíram em uma ribanceira e pegaram fogo. Morreram os motoristas dos dois veículos e cinco passageiros. O último corpo, o do menino Eduardo Matthes, de 4 anos, só foi resgatado às 16 horas de ontem. Ele estava no caminhão que bateu no ônibus. Também morreram no acidente o pai de Eduardo, que dirigia o veículo, a mãe e um irmão. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) chegou ao lugar do acidente e instalou bloqueios e sinalização, para facilitar a ação das equipes de socorro, formadas por voluntários e bombeiros dos municípios de São Miguel d?Oeste e Maravilha. O delegado Rodrigo César Barbosa, que estava no plantão em Maravilha, também seguiu para o local. Às 21h30, quando quase todas as vítimas da primeira colisão já haviam sido retiradas dos escombros e um guincho levantava o ônibus de bóias-frias, o delegado viu quando uma carreta de Cascavel (PR), carregada de açúcar, não obedeceu à ordem de reduzir a velocidade. O veículo furou o bloqueio da PRF. Como a fila de veículos parados pela interdição da estrada tinha 2 quilômetros, o caminhão avançou pela contramão, num trecho em descida. Atingiu em cheio a área onde bombeiros, policiais, voluntários e repórteres trabalhavam, arrastando viaturas, ambulâncias e até um guincho. Barbosa lavrou o flagrante do motorista e determinou que ele fosse levado sob custódia. Como não houve nenhuma tentativa de frenagem, segundo o policial, não está descartada a hipótese de falha mecânica do veículo. Com o atropelamento, 18 pessoas morreram no local. Outras duas morreram depois de serem socorridas em hospitais da região. INVESTIGAÇÕES Além da hipótese de falha mecânica, a PRF investiga outros motivos para o segundo acidente. O trecho do acidente é estreito, mas não chovia na hora da colisão, a área estava bem sinalizada e a pista, recentemente recapeada, não apresentava problemas. "Com certeza houve falha de alguém, no mínimo negligência", afirmou o policial rodoviário Antônio Gilmar Freitas. O caminhoneiro Ferrari foi submetido a testes de sangue e urina para detectar a eventual presença de substâncias tóxicas. Mas o fato de ele ter percorrido 2 quilômetros em linha reta sem ziguezaguear, ainda que na contramão, indica, no entender dos policiais, que estava lúcido. A PRF informou que a inspeção prévia indicava que o peso da carga estava dentro dos limites permitidos. Em São Miguel do Oeste, o clima era de desolação ontem, quando, às 17h45, carros e caminhões dos bombeiros saíram da Igreja Matriz e seguiram até o Cemitério São Miguel e Almas, levando flores e os corpos dos soldados. Grande parte do comércio fechou as portas, em solidariedade, e a população foi para as ruas. ESTUDO Segundo estudo feito no ano passado pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), com base em dados revisados recentes da PRF, um caminhão se acidenta a cada 5 minutos nas estradas federais. A maior tragédia já registrada nas rodovias brasileiras aconteceu em julho de 1987, quando 68 pessoas morreram na BR-040, que liga Belo Horizonte ao Rio, próximo de Nova Lima, no choque de dois ônibus.

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