Após atentado, imagem de Nossa Senhora foi restaurada no Masp

Após atentado, imagem de Nossa Senhora foi restaurada no Masp

Artista plástica responsável pelo trabalho retornou anualmente para manter à Aparecida para preservar imagem

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

08 Outubro 2017 | 03h00

A pintora, escultora e restauradora Maria Helena Chartuni tinha dez anos de profissão, em junho de 1978, quando o Pietro Maria Bardi, diretor do Museu de Arte de São Paulo (Masp), onde ela trabalhava, lhe comunicou que deveria restaurar, sozinha, a imagem de Nossa Senhora Aparecida, despedaçada, um mês antes, num atentado. A escolha de seu nome era de Bardi, a quem o brasileiro Deoclécio Redig de Campos, diretor do Museu do Vaticano, indicou para cuidar da restauração em São Paulo, em vez de mandar a imagem para Roma, como pretendiam os padres redentoristas guardiães do Santuário de Aparecida.

“Você vai restaurar esta imagem”, disse Bardi a Maria Helena. A decisão foi tomada sem consulta prévia. A restauradora quase entrou em pânico, quando recebeu na manhã de 28 de junho de 1978, numa caixa de madeira revestida de fórmica branca e forrada de cetim branco acolchoado, os fragmentos da imagem, levados ao Masp pelo então arcebispo de Aparecida, d. Geraldo Maria de Morais Penido, acompanhado dos padres Antônio Lino Rodrigues e Isidro de Oliveira Santos, reitor do Santuário. A santa – de 37 cm de altura, sem a base de prata, ou 39,5 cm com a base – estava esfacelada em mais de 200 pedaços, dos quais apenas 165 aproveitáveis para a reconstrução, sem falar nas partes que se reduziram a pó.

O atentado ocorrera por volta das 20h30 de 16 de maio de 1978, quando um rapaz de 19 anos, Rogério Marcos de Oliveira, supostamente doente mental,  aproveitou a escuridão, em meio a um temporal que deixou a cidade sem luz, para quebrar o vidro do nicho da Padroeira do Brasil no altar-mor da Basílica Matriz e roubar a imagem. Deixou-a cair ou jogou-a ao chão, ao ser perseguido pelos  seguranças do templo. A notícia do atentado causou enorme comoção no País. Os fragmentos foram recolhidos pelos padres, na expectativa de restauração.

Maria Helena iniciou seu trabalho no dia 29 de junho. Fechou-se numa sala do Masp, à qual só tinha acesso o professor Bardi, que mandou trocar o segredo da fechadura da porta e recomendou sigilo aos funcionários. Para a imprensa, constava que técnicos do Vaticano viriam a São Paulo para recuperar a imagem. A informação correta só foi dada no dia 31 de julho, após 33 dias ininterruptos de trabalho. Nossa Senhora Aparecida voltou ao Santuário Nacional em carreata ou procissão. A restautadora descreve como foi essa volta em seu livro A História de Dois Restauros – Meu encontro com Nossa Senhora Aparecida (Editora Santuário, 2016):

“Depois que a imagem saiu de minhas mãos, ela foi conduzida a um caminhão do Corpo de Bombeiros e levada, triunfalmente, até Aparecida, pela Rodovia Presidente Dutra, ladeada por um corredor humano ininterrupto, da Avenida Paulista, desde o Masp, até Aparecida, onde as pessoas a saudavam, rezando e se emocionando às lágrimas, na maior demonstração de fé espontânea que jamais havia visto em toda a minha vida. Naquele momento, a emoção tomou conta de mim e senti , pela primeira vez, que havia tocado em algo sagrado e inexplicável.”

Maria Helena considera ter feito um trabalho perfeito, apesar das dificuldades da restauração, um desfio profissional. A restauradora relata, com detalhes, em seu livro, a técnica empregada, usando material adequado, sempre respeitando o original. “Uma imagem sagrada, de culto, não poderia ser tratada apenas como obra de arte, deixando expostas todas as marcas da destruição, pois chocaria o público devoto e, assim, em conjunto com os padres, decidi assumir uma postura diferente”, informa a restauradora.

O trabalho começou com a identificação dos fragmentos, separando-os em um papel branco encorpado para depois iniciar a montagem. Cada fragmento foi limpado de uma resina de silicone vermelha, usada em passado recente para tirar e vender cópias da imagem. Foi preciso limar pequenos excessos na colagem de escamas internas para iniciar a junção do corpo à base. Com o impacto da queda, as medidas tinham-se alterado.

A imagem de terracota ia adquirindo sua aparência original , à medida que os fragmentos se ajustavam. Maria Helena montou tudo com fita adesiva transparente, antes da colagem definitiva. Usou uma cola argentina (Poxipol), à base de epóxi,  que resiste à corrosão, a ácidos, solventes, produtos químicos e a temperaturas de até 180 graus, produto sem similar no mercado nacional na época.

A restauradora recuperou a cor acanelada que a imagem tinha quando foi pescada no Rio Paraíba. A policromia que provavelmente cobria a pequena Nossa Senhora de terracota havia desaparecido por causa das águas barrentas e pela fumaça do fogão de lenha e dos candeeiros das casas dos pescadores. O reitor do Santuário, padre Isidro de Oliveira Santos, que se considerava um artista, se meteu a retocar a imagem, após a restauração, anulando o trabalho. Alertada por outros padres, que lhe pediram socorro, Maria Helena correu a Aparecida para reparar o mal.

Padre Isidro havia pintado a imagem com tinta de automóvel. Ela foi quatro vezes à cidade da Padroeira para remover a Pintura. O reitor também substituíu o pino de prata que a restauradora havia envolvido em gaze e ceras de abelha e carnaúba para juntar o corpo à cabeça da imagem. Maria Helena achou prudente não mexer em nada, com receio de quebrar a peça. Aconselhou os padres a manusear a imagem o menos possível.

Doze anos após ter deixado o Masp, a restauradora notou algo estranho, ao voltar ao Santuário em 1993. A pátina da imagem estava manchada, como se fosse a pele de onça pintada. O que provocou essa aparência tinha sido a tentativa de fazer forma para a reprodução de cópias. Maria Helena propôs ao novo reitor, padre Jadir Teixeira da Silva, voltar uma vez por ano a Aparecida para fazer manutenção preventiva da imagem. Ela faz essa viagem regularmente, antes da festa de 12 de outubro. Sem  nada cobrar, como ocorre desde  1978, pois nem ela nem o professor Bardi nada receberam pela restauração.

Maria Helena atribui a Nossa Senhora Aparecida uma intervenção, que não chama de milagre, para mudar o rumo de sua vida. Ao explicar o título do livro A História de Dois Restauros, escrito em 2016, a restauradora escreveu: “... o primeiro, evidentemente, foi a reconstrução da imagem, destruída em mais de 200 pedaços, e o segundo foi o restauro de minha vida, que Nossa Senhora, paciente e amorosamente, fez comigo, libertando-me de um caminho tortuoso, por onde eu tinha enveredado”. Católica, Maria Helena disse que sua fé estava adormecida, quando iniciou o trabalho.

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