Aposta na terceira via ganha fôlego

Campanha tem impulso depois de consolidar dois dígitos e superar as dificuldades de um partido sem estrutura

Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2010 | 00h00

A campanha de Marina Silva, provavelmente a mais singular e surpreendente desta eleição presidencial, sofreu uma reviravolta 11 dias atrás, com a finalização de uma nova pesquisa sobre intenção de voto. Ao anoitecer daquela sexta-feira, o coordenador da campanha de Marina Silva, o biólogo João Paulo Capobianco, dirigiu-se ao quintal da casa onde funcionavam os estúdios de gravação dos programas do PV, acendeu um cigarro, tragou várias vezes, rapidamente e fez duas ligações de seu celular. Para sua mulher e, depois, para o empresário Guilherme Leal, candidato a vice na chapa do PV. Exaltado, alegre e gesticulando muito, contou-lhes que acabara de receber os resultados de uma pesquisa eleitoral que dava a Marina 13% dos votos.

"Consolidamos os dois dígitos", repetia. Pela sua animação, tinha-se a impressão de que a senadora, mais do que subir na pesquisa, era a vencedora do pleito. Um exagero para quem olhava de fora, mas algo compreensível se visto do lado de dentro, dos bastidores da campanha.

Afinal, o que Capobianco estava alardeando era o primeiro movimento consistente nas pesquisas a favor de Marina, após um período de quatro meses em que ele ficou empacada, oscilando monotonamente entre as marcas de 7% e 10%. Nesse período, chegou-se a um ponto em que a maior preocupação não era subir, mas evitar a queda na preferência dos eleitores.

Nesse cenário, a marca de dois dígitos teve efeitos mágicos. Serviu como confirmação do acerto dos rumos da campanha, esfriou debates internos cada vez mais nervosos, uniu finalmente a equipe de comando e, de lambuja, espalhou uma irrefreável sensação de vitória.

Sensação também justificável, segundo o vice na chapa do PV. Dias atrás, quando Marina ameaçava a bater nos 15% dos votos válidos, Leal fez o seguinte comentário: "Quando entramos na campanha, a agenda socioambiental no Brasil andava comprimida, como se tivesse que ficar restrita ao Ministério do Meio Ambiente. Nosso objetivo era dividi-la com setores mais amplos da sociedade. Hoje, se considerarmos que quase 20 milhões de brasileiros, segundo as pesquisas, estão interessados e preocupados com os temas que levantamos, podemos dizer que já somos vitoriosos."

Um mês antes, dificilmente alguém da campanha de Marina faria afirmações tão convictas. A tensão causada pelo fraco desempenho da candidata nas pesquisas era tanta que a apresentação do primeiro programa de campanha, no dia 17 de agosto, no insignificante tempo de um minuto e 26 segundos no horário eleitoral gratuito, gerou uma crise interna. Parte da equipe apoiou a ideia de se mostrar imagens preocupantes sobre os efeitos do aquecimento global, enquanto outra parte disse que deveriam ter mostrado a candidata e sua história de vida.

Baixa renda. No correr da polêmica, a coordenação da campanha decidiu às pressas deixar de lado um lote de quase dez programas já finalizados, que apresentavam pontos do programa de governo de Marina com recursos de histórias em quadrinhos e grafismos. A decisão, doída, por causa do dinheiro investido, surgiu do receio de que não teriam apelo para o eleitorado de baixa renda e menor escolarização.

Chegar ao eleitorado de baixa renda era o sonho perseguido pela equipe desde o primeiro minuto de campanha. De acordo com pesquisas internas, seu eleitorado é composto por pessoas de classes de renda mais alta, elevado grau de escolarização e maior capacidade para assimilar conceitos abstratos, como o tal crescimento sustentável, bordão da campanha.

Apesar do sonho com o eleitor mais simples, foi outra questão, bem diferente, que desencadeou as discussões internas mais ácidas. Quanto mais tempo a candidata permanecia empacada na pesquisa, mais aumentava a pressão para que ela subisse o tom das declarações que fazia sobre escândalos, como violação de dados sigilosos na Receita ou, mais tarde, o tráfico de influência na Casa Civil.

"Vamos partir pra cima", diziam os representantes desse grupo. "Não vamos mudar a estratégia", respondia a outro lado, argumentando que o ponto central da campanha era estimular o debate de propostas. De acordo com essa determinação, Marina devia falar dos escândalos, mas não de forma eleitoreira, como José Serra, do PSDB, estaria fazendo.

Foi assim que Marina entrou em campo defendendo a segurança das instituições e a investigação dos fatos, sem responsabilizar diretamente a candidata da situação, Dilma Rousseff.

Ironicamente, o que tornou Marina mais conhecido dos eleitores não foi o programa no horário gratuito, estopim de controvérsias, mas a sua aparição no Jornal Nacional, da TV Globo. No comando da campanha não há ninguém que não mencione seu encontro ao vivo com William Bonner e Fátima Bernardes, no início de agosto. Ela ficou no ar durante cerca de 10 minutos - o mesmo tempo dado a Dilma e Serra, situados muito à frente dela nas pesquisas.

Mais tarde Marina passaria a contar com uma exposição diária de um minuto no JN, novamente equiparada aos outros. É quase unânime internamente a opinião de que sem a simpatia da mídia, dificilmente ela teria entrado para a história dessa campanha como uma terceira via. Muito provavelmente teria ficado espremida no grupo das chamadas candidaturas nanicas.

Desastre. Analisada a frio, a campanha de Marina reuniu em seu início ingredientes suficientes para terminar de forma desastrosa. A maior fonte deles era o próprio PV, partido pequeno, sem estrutura, semiparalisado por facções fisiológicas e sem candidato próprio nas corridas eleitorais desde 1998. Em conversas particulares, políticos e ambientalistas recém-chegados, que embarcaram na legenda atraídos por Marina, dizem que nunca imaginaram que fosse tão desprovida de recursos.

Ainda sobre o PV, a opção pela candidatura presidencial acabou dando início a uma guerra interna, para obrigar os diretórios estaduais a lançar candidatos a governador e, dessa maneira, garantir espaço de exposição para Marina no horário gratuito.

Na maior parte dos Estados a batalha foi inútil. No Pará, por exemplo, o PV seguiu apoiando a candidatura Dilma.

Para conseguir um bloco final de 11 candidatos majoritários nos Estados, o partido teve de intervir em quatro diretórios. Um deles foi o da Bahia, onde uma das principais lideranças verdes, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, que também apoia Dilma, solicitou afastamento temporário do partido. Outro foi o do Mato Grosso, que vinha presenciando uma incômoda caminhada do PV com o PR do governador e empresário rural Blairo Maggi - inimigo histórico dos ambientalistas.

Por outro lado, a equipe que Marina levou para o PV tinha muita disposição, mas pouca experiência. Capobianco e Leal, ungidos por ela para comandarem a campanha, jamais pisaram numa arena eleitoral antes dessa disputa. Chegaram com a missão de eleger um presidente sem ter eleito sequer um vereador.

Para se garantir, Leal, um dos donos da empresa de cosméticos Natura e principal doador de recursos para a campanha, cercou-se de especialistas experientes. O marqueteiro Paulo de Tarso já atuou em campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva. E o responsável pelas pesquisas, Orjan Olsen, assessorou Serra.

Saúde. Embora em menor escala, outra fonte de preocupação no início da campanha era a saúde fragilizada de Marina, que, anos atrás, ao tratar de leishmaniose ingeriu remédios que deixaram pesadas sequelas nos rins e no pâncreas - além de uma alergia generalizada.

Em julho, no primeiro debate entre os presidenciáveis, na TV Bandeirantes, a equipe de Marina levou um susto com a reação alérgica que ela teve ao adentrar o cenário pintado minutos antes. O cheiro de tinta afetou sua respiração e ela atravessou o primeiro bloco do programa esforçando-se para não parecer ofegante. Melhorou no intervalo, após lavar o rosto várias vezes e beber muita água.

Os cuidados redobraram depois disso, com pedidos insistentes para que se evitasse aplicações de cola e tinta em locais a serem visitados por ela. Numa caminhada da senadora pela tradicional feira livre do Pacaembu, em São Paulo, seus assessores chegaram a desviá-la de uma barraca de camarões, com receio de que o cheiro provocasse uma crise alérgica.

Felizmente, não ocorreram mais episódios como o da Bandeirantes. E as preocupações com a saúde da candidata foram derrubadas por ela mesma, com a disposição que demonstrou dia após dia, segundo relato de Luciano Zica.

Ex-deputado do PT e hoje no PV, ele cuidou da sua agenda durante quase toda a campanha. "O fato mais surpreendente para mim em todo o trabalho foi a energia demonstrada por ela", disse. "Pela sua aparência frágil, imaginei que teria pouco fôlego. Mas mostrou um pique fantástico e muita gente sofreu para acompanhá-la."

Não foi só Marina. De maneira geral foi uma campanha marcada por superações. O PV está saindo mais forte do que quando começou. Os assessores mais próximos da candidata saem mais experientes. E todos parecem felizes com os níveis de votação apontados nas pesquisas e celebrados pela primeira vez por Capobianco naquela sexta-feira.

Após falar com a mulher, ele comentou, sorrindo: "Ela tinha me avisado que só voltaria a falar seriamente comigo sobre a campanha depois que chegássemos aos dois dígitos. Nós chegamos lá. Agora podemos conversar."

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