Apuração do assassinato dos Villela sofre nova reviravolta

Laudo do Instituto de Criminalística diz que única prova material que ligaria filha de ministro à cena do crime é nula

Vannildo Mendes, O Estado de São Paulo

17 Fevereiro 2012 | 19h57

 Um laudo de vinte páginas, produzido pelo Instituto de Criminalística (IC) da Polícia Civil, jogou por terra a única prova material que ligaria a arquiteta Adriana Villela ao assassinato do pai, o ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) José Guilherme Villela. Assinado por quatro peritos, o laudo, encomendado pelo Tribunal do Júri de Brasília, diz que é nula, por total inconsistência técnica, a perícia oficial do Instituto de Identificação (II), que colocava a arquiteta junto com os assassinos na cena do crime.

Segundo a perícia do II, digitais da arquiteta colhidas pela polícia teriam datação entre 26 e 30 de agosto de 2009. Villela foi morto em casa junto com a mulher, Maria e a empregada do casal, Francisca Nascimento, em 28 de agosto de 2009. Eles receberam 73 facadas. A contraprova do IC, à qual o Estado teve acesso, diz que o método de datação usado "é experimental, não aceito legalmente como técnica forense e está eivado de vícios e inconsistências", não servindo como prova.

O documento é taxativo: "Os peritos concluem que (...) o trabalho realizado pelo II não possui sustentação técnico-científica suficiente para tecer conclusões a respeito da idade do fragmento de impressão papiloscópica questionado", atesta. Segundo o IC, há na metodologia do primeiro laudo "deficiências e dados inconsistentes" com a escala e precisão dos equipamentos utilizados. "Ainda não há metodologia capaz de determinar de forma razoável a idade de impressões".

Para a defesa da arquiteta, não houve surpresa. "Eu sempre desconfiei que não passava de uma farsa para esconder a incompetência da polícia em desvendar o crime", afirmou o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakai. "Houve má fé e indução ao erro no primeiro laudo", enfatizou. Adriana admitiu ter estado na casa dos pais antes do dia 13 de agosto, não na data indicada pela perícia do II.

Kakai pediu rigorosa investigação da Justiça por acreditar que a delegacia encarregada do inquérito, a Coordenação de Investigação dos Crimes Contra a Vida (Corvida), interferiu dolosamente na produção de provas para confirmar a qualquer custo a tese de que Adriana é mandante da morte dos pais. A Defensoria Pública também pediu a investigação do caso, que será analisada pelo Tribunal do Júri.

O promotor de Justiça, Maurício Miranda, que denunciou Adriana à Justiça como mandante do crime, não se deu por satisfeito e pedirá explicações à Direção Geral da polícia. Ele admitiu que houve falhas no inquérito e que, ao final da fase de instrução do processo, vai reabrir as investigações para esclarecer dúvidas e indiciar outros possíveis cúmplices do crime, até agora de fora.

Segundo ele, a direção da polícia errou ao mandar fazer a contraprova no IC e alega que a defesa tira proveito dessa contradição para favorecer Adriana. "Ela estava na cena do crime e há fortes evidências de que mandou matar os pais porque tinha motivação financeira", garantiu o promotor.

Marcado por uma sucessão de erros de investigação, o processo está em fase final de instrução no Tribunal do Júri. Além de Adriana, acusada de mandante, figuram como réus três autores materiais: Leonardo Campos Alves, ex-porteiro do prédio onde o casal vivia, seu sobrinho Paulo Cardoso Santana e um cúmplice, Francisco Mairlon Aguiar, que teriam dado as facadas nas vítimas. No início, eles alegaram que mataram para roubar, mas depois passaram a implicar a filha do casal.

Em 30 meses de idas e vindas, foram presas 14 pessoas, dez delas soltas por falta de provas. Acusados foram torturados para confessar culpa e até uma chave do apartamento do casal assassinado foi "plantada" na casa de inocentes para fabricar culpados. Até uma vidente foi incluída nos autos, com supostas mensagens psicografadas do ex-ministro apontando os criminosos. Adriana chegou a ser presa duas vezes e responde ao processo em liberdade.

Em depoimento prestado hoje, a delegada Deborah Menezes, que chegou aos criminosos ao seguir por conta própria uma pista passada por um ex-detento, disse que não tem como assegurar se Adriana está ou não envolvida no crime, porque ficou pouco tempo no caso e foi afastada pela direção da Polícia. Mas revelou que interrogou várias vezes Leonardo, que lhe garantiu se tratar de latrocínio.

"Cansei de perguntar se havia mandante e ele sempre disse que não", relatou a delegada. Ela disse que citou nominalmente Adriana, indagando se ela esteve na cena do crime, ao que o criminoso respondeu: "Se ela entrasse lá, eu a mataria do mesmo jeito, porque ela é arrogante e atrevida".

Depoimentos de peritos que fizeram a coleta de impressões no dia 31 de agosto de 2009, quando os corpos foram achados, já haviam revelado que, por "barbeiragem" de um iniciante, digitais colhidas na portaria foram misturadas indevidamente com as colhidas dentro do apartamento.

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