Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

‘Aqui ele já sabe: tem de sair rápido do carro’

Família no Rio ‘treina’ criança para escapar de assalto

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2017 | 03h00

Bernardo só tem 5 anos, mas já virou especialista: sai do carro como ninguém. A família, que mora na zona oeste do Rio, ensinou o menino a deixar o veículo sozinho e com agilidade – tudo para evitar que ele seja levado em caso de assalto. 

Para o garoto, funciona como um jogo, mas o medo da família é real. “Aqui ele já sabe: tem de sair rápido. Fazemos como uma competição. Em todos os lugares, ele tem de sair sozinho (do carro). A intenção era trabalhar a independência, mas se tornou uma necessidade”, conta a irmã, a professora Lorena Magioli, de 26 anos. 

Para que Bernardo consiga desafivelar o cinto de segurança mais rapidamente, a cadeirinha foi substituída pelo assento de elevação – que já é permitido para a idade de Bernardo. “Ele consegue apertar o botão do cinto de segurança, abrir a porta do carro e pular. Antes tinha de tirar o cinto da cadeirinha, que é mais duro e mais difícil de sair porque prende os braços da criança”, explica. 

A família acredita ainda que a estratégia do menino possa ser aplicada em todas as situações. “Em qualquer carro que ele saia, o assento de elevação vai juntinho”, diz a irmã de Bernardo, que já teve uma arma apontada para a cintura na porta de casa. Os episódios de violência assustam a família carioca. “Assaltos estão sendo frequentes em qualquer lugar e (os bandidos) não querem saber se há crianças no carro”, desabafa Lorena. 

Na escola onde Lorena trabalha, ela já viu pais de crianças de 2 a 4 anos cometerem infrações pelo mesmo temor. “Tenho alunos que só andam no banco da frente com os pais. Ao conversar com eles, indagar sobre as blitze, eles falam que não levaram multa por causa disso.” 

Respostas. Procurado, o Detran fluminense disse que a aplicação desse tipo de multa na cidade é de responsabilidade da Prefeitura. Já a Guarda Municipal do Rio afirmou que segue coibindo a irregularidade, quando há flagrante feito por seus agentes. “A instituição não pode se omitir de fiscalizar a cadeirinha, tendo em vista que se trata de item obrigatório de segurança”, acrescentou. Destacou ainda que o não uso do equipamento pode provocar mortes em caso de batidas. 

Questionada sobre a alta de roubos de veículos no Estado do Rio – 42% de janeiro a julho, em comparação com o mesmo período de 2016 –, a Polícia Militar reconhece que os índices criminais são “impactantes”. Segundo a corporação, porém, os dados “refletem um cenário de crise” que não depende só da PM “para ser revertido.” 

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